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11.12.10

Meu Gato Sumiu






" Eu acho que ronrom de gato
não dá asma coisa nenhuma!
Ronrom de gato é
pura felicidade."








(Dedicada à minha filha Naira, que foi a dona desses gatos todos que aparecem na história. Será que foi?)
 
 
1. Tuxo

O primeiro gato que eu tive, na verdade eu não tive. Ele não era meu. Era de todos. Veio não sei de onde, trazido não sei por quem. Nem sei porque ele veio.

Mas o gato estava lá e todo mundo gostava dele no prédio. Aliás, nem todo mundo. Também tinha quem nem queria saber do bicho e dizia: "Esse gato só faz sujeira" , "não é permitido ter animais no condomínio". Eu não!

É! A opinião de quem gosta e de quem não gosta de bicho é bem diferente mesmo. E sempre tem quem gosta e quem não gosta. No caso to Tuxo, como ele era meu, eu gostava.

Ah, esqueci! O gato não era meu. Eu é que gostava dele por gostar e por isso achava que ele era meu. É que o Tuxo era um gato especial demais, e por isso eu gos¬tava dele. Nem meu ele era. Nem de onde ele veio eu sabia. Mas, assim mesmo, eu gostava dele.

E gostava dele porque... Porque gostava, ora! Ele era branco, tinha algumas manchas de pelo preto nas costas, a pata direita da frente era preta, era dengoso, era carinhoso e gostava de carinho. E de criança.

Pode perguntar pra qualquer criança do prédio quem era o Tuxo. Todo mundo vai dizer a mesma coisa: "O Tuxo era um gato legal!!!"

O grande mistério era que ninguém sabia como o Tuxo foi parar lá no meu prédio. Se ninguém podia ter animal no prédio, então ninguém tinha trazido o Tuxo para criar. Disso eu sei, pois o síndico vivia dizendo que é proibido ter gatos aqui no prédio. E eu nem sei o que é síndico!





















2. O Tuxo apanhou

Minha mãe dizia que o Tuxo era sem-vergonha. Vivia pulando pela janela da área de serviço e entrando na cozinha. Então eu me achava mais dona do gato ainda. Sorte minha que eu moro no térreo. Vê se o gato entra na cozinha do apartamento de cima! Lá ele não alcança pular. Ainda bem que eu moro no térreo.

Só que minha mãe, quando via o Tuxo pular pela janela da área de serviço e entrar, já gritava logo com ele. Quando ela estava de bom humor, até que punha comida num pratinho, dava água, e falava com o Tuxo carinhosamente.

Nessas horas, eu sentia o Tuxo muito mais meu. Nem me importava com o síndico, suas broncas e palavras que eu nem entendia direito. Até me es¬quecia que no prédio não podia ter gato. Só pensava na alegria que era ter o Tuxo na minha cozinha, comendo a comida que a minha mãe dava pra ele.
Eu até falei pra minha mãe que ia arrumar uma caixa com paninho dentro para o gato dormir. Mas ela me disse que não. Já estava muito bom dar comida.

- E tem mais: você sabe muito bem que...

- Já sei: NO PRÉDIO NÃO PODE TER GATO!

Acho que pouco ia adiantar eu cho¬rar por causa do Tuxo. Eu nunca ia poder ter ele só pra mim de verdade. Então eu me conformava, achava até bom demais minha mãe dar comida pra ele. Era me¬lhor ele entrar na minha cozinha de vez em quando, do que alguém dizer que ele tinha que ir embora.

Só que um dia, o Tuxo passou dos limites e se deu mal. E quase que eu me dei mal também. Por causa do que acon¬teceu, eu respondi em voz alta pra minha mãe, chorei e esperneei.

É que, durante o dia, o gato pulou a janela, como sempre fazia, e entrou na cozinha. Até aí, nada de grave. Não tinha ninguém em casa, e o pobrezinho deveria estar com muita fome. Como não encontrou comida, cometeu um grande erro: foi fuçar no lixo. Derrubou tudo. Fez a maior sujeira.
Quando chegamos em casa, à noite... Que bagunça! Minha mãe ficou danada da vida e começou a xingar o gato, já sabendo que uma coisa daquelas só poderia ser obra do gato.

- A gente chega em casa cansada, e ainda tem que arrumar toda essa bagunça! Se eu pego esse gato aqui dentro de novo ele vai se ver comigo.

E foi nesse exato momento que o Tuxo, todo feliz, miando para anunciar sua chegada, como sempre fazia, pulou pela janela. E veio logo para perto de mim. Eu, mais preocupada em agradar o Tuxo do que em ajudar a arrumar a bagunça que ele fez, fui logo alisando o bichano.

Mas aí, minha mãe gritou:

- Vai embora, seu gato à toa!

Só que o Tuxo não estava nem aí. Chegou mais perto de minha mãe, querendo se esfregar. Com a raiva que estava por causa da sujeirada toda, minha mãe deu um tapa no gato.

Tadinho. Tuxo se assustou. Pulou de volta pela janela. Parou por alguns instantes no parapeito. Olhou para dentro da cozinha e para todos nós. Depois sumiu na noite.


















3. A primeira página do meu diário

Depois daquele caso, o Tuxo ficou mais arisco. Mas não deixou de pular pela janela nem de miar quando queria comida. Só que fazia isso com muito mais cuidado. Eu até acho que minha mãe ficou arrependida, pois continuou dando comida para o gato.

Só que o Tuxo aparecia na minha cozinha cada vez menos. E as suas visitas eram sempre muito mais rápidas. Comia, lambia os beiços, recebia com um pouco de desconfiança os carinhos que a gente fazia e pulava pra fora outra vez.

No começo eu achei que o Tuxo tinha ficado com raiva por ter apanhado. Por isso aparecia menos vezes. Depois eu me acostumei. Gostava do gato do mesmo jeito, apesar de suas visitas na nossa cozinha terem diminuido. Meu pai explicou que o Tuxo já estava ficando velho. Disse que já era um gato adulto, e que gatos adultos eram assim mesmo. Preferem andar pelos telhados e pelas ruas. Ficam mais ariscos.

Já a minha irmã, disse que o Tuxo estava namorando as gatas por aí, e que nem ligava mais pra gente. Eu não gostei muito do que ela falou, mas acho que era isso mesmo. Mas nem por isso eu deixei de gostar dele. Se ele tinha suas coisas de gato pra fazer, eu é que não ia impedir. Só ficava com um pouco de ciúmes, mais nada.

E, de mais a mais, eu acho que o Tuxo gostava de mim o mesmo tanto que eu gostava dele. Sempre quando eu ia na padaria, logo cedinho, o Tuxo vinha ao meu encontro, se esfregava e empinava as costas quando eu passava a mão nele. Eu era a única pessoa que pegava o Tuxo no colo. Ele não deixava ninguém mais fazer isso. Tuxo também gostava de mim.

As outras crianças do prédio também faziam carinho. Ele aceitava, mas não era a mesma coisa. Disso eu tinha certeza. Até o jeito dele se esfregar em mim era diferente. Quando minha mãe, meu pai, minha irmã ou as outras crianças passavam a mão nele, ele deixava. Mas não ninguém pegava o Tuxo no colo.

Foi por isso eu decidi, mesmo sem falar nada pra ninguém, que o Tuxo era meu de verdade. Só meu. Apesar de não morar na minha casa, e de ir lá só de vez em quando. Apesar de eu nunca ter dado pra ele uma caixa com paninho dentro, onde ele pudesse dormir. O Tuxo era só meu.

Resolvi escrever essas coisas no meu diário. Assim, um dia todo mundo poderia saber da minha grande amizade com o gato. Se é que eu ia deixar alguém ler.

E foi assim que, numa noite, depois de acabar os deveres da escola, eu abri minha gaveta e peguei o diário. Era grosso, tinha capa de plástico bem colorida e cheirava a bala de hortelã. Abri.

Mas eu nunca tinha escrito nada nele, pra não estragar as folhas cheirosas. Meu diário estava novinho. Aí eu comecei a pensar bem no assunto, antes de começar a escrever.

"Acho que chegou a hora de começar meu diário. Vou escrever sobre a minha amizade com o Tuxo. Vou pôr que ele tem uma patinha preta e as outras brancas. Ah!, e que um dia ele apanhou... Não. Isso eu não vou escrever. Senão minha mãe pode pensar que é por causa disso que o Tuxo ficou mais arisco. Será que eu falo do síndico? Por que ele pode ficar dando ordem e dizendo que é proibido Ter gatos no condomínio? Acho que não vou saber explicar direito esse assunto."

Pensar em tudo isso foi me dando sono. Fui ficando com uma preguiça danada. Outra hora eu pensaria melhor sobre o que escrever. Fechei o meu diário com cheiro de hortelã e me deitei. E assim a primeira página continuou em branco.





















4. O Tuxo sumiu

Desse tempo todo em que o Tuxo morou no meu prédio, só o começo é que foi um pouco complicado. Com o tempo, as pessoas que reclamavam que o bicho só fazia sujeira já não implicavam tanto com ele. Até o síndico deixou de falar daquela tal convenção e da proibição de ter animais no prédio.

Acho que os adultos têm problemas muito mais sérios pra resolver, e nem sempre acham tempo pra tratar de gatos. Gatos são problemas para crianças. Quer dizer, nem problemas eles são.

E crianças também acabam tendo coisas mais interessantes pra fazer. Quando alguém aparece com um brin¬quedo novo, quem é que vai se lembrar de gato? Quando alguém desce no pátio com uma bola, e arma um jogo animado, gato só atrapalha.

Vai ver que o Tuxo percebeu tudo isso, e foi deixando o pessoal de lado. Não sei. Gato também deve ter sentimentos e saber de muita coisa que a gente nem imagina. Gato gosta de comer quando está com fome, de passar um bom tempo dormindo e de passear por aí. Mas também deve perceber quando ninguém mais liga pra ele. Aí eles procuram outra coisa pra fazer.

Eu gostaria de saber onde eles ficam quando não estão perto da gente. Onde será que eles vão passear? Por que é que eles gostam tanto dos telhados? Acho que nunca vou saber direito essas coisas. Por isso eu já estou achando que o gato não pode ter dono. Ele só faz o que quer e quando quer. Ninguém manda num gato.

Passei a achar normal o Tuxo ficar dois ou três dias sem aparecer na minha janela, coisa que ele fazia diariamente antes. Quando ele aparecia, eu já não fazia tanta festa quanto antigamente, apesar de ainda gostar muito dele. Aquela amizade, que eu achava que era tão especial, já não parecia tão espe¬cial assim. Eu nem pensava mais que o Tuxo era meu.

É certo que ele ainda era dengoso. E provava isso se esfregando pra lá e pra cá, quando recebia um carinho. Ainda vinha no meu colo, de vez em quando, e fazia ronrom - ronrom quando estava feliz. Eu acho que ronrom de gato não dá asma coisa nenhuma! Ronrom de gato é pura felicidade.

Parece até que ficou comum ver ou não ver o Tuxo. Já não tinha tanta importância assim. Se ele aparecia, ganhava comida e carinho. Se não aparecia, não se falava dele. A questão dele namorar suas gatas, como disse minha irmã, não me incomo¬dava mais. A não ser quando esse namoro era debaixo da minha janela, no meio da noite. Parecia até briga, e o barulho não me deixava dormir. Aí eu tinha que gritar com eles para espantar.

Outra coisa que eu percebi, é que nossas brincadeiras no prédio já não eram atrapalhadas pelo Tuxo. Às vezes ele até dormia num canto, perto da gente, e só espichava um olho, quando a bola ia em sua direção.

Nos últimos tempos, pouco se viu o gato. Ninguém mais fazia tanta questão. Nem quem gostava, nem quem não gostava do bicho. O Tuxo fazia parte do condomínio. Tinha sido aceito e convivia pacificamente entre todos nós. E cada um de nós, envolvido com seus próprios problemas, não prestava mais atenção no Tuxo.

Tanto isso é verdade, que ninguém sabe dizer ao certo quando foi que ele sumiu. Nem eu me lembro direito em que dia ele esteve pela última vez na minha cozinha. Minha mãe garante que passou um bom tempo sem ele aparecer para comer.

Alguém disse que o Tuxo morreu. Numa briga com um cachorro, ficou todo machucado e morreu. Eu não acredito. O Tuxo não ia acabar desse jeito. Não o meu Tuxo. Vai ver está por aí namorando. Ou foi passear em algum telhado muito distante.























5. Os outros gatos que eu tive

Eu sei dizer, que no dia em que eu me dei conta de que o Tuxo não ia mais voltar, me deu uma tristeza muito grande. Não porque eu achasse que o gato era meu, pois eu sabia que gato não podia ter dono. É que nossa amizade tinha sido muito sincera. E de amizades sinceras a gente sente falta quando perde alguma.

Pensei em procurar pelo Tuxo, mas fiquei sem saber por onde começar. Perguntar por um gato branco com algumas manchas pretas nas costas e a pata esquerda preta não ia adiantar muito. Pata esquerda? Ou será que era a direita? Os gatos são tão parecidos que a gente acaba se confundindo.
Acho que desisti do Tuxo. Ou será que ele desistiu de mim? Até hoje não sei bem. No fundo, no fundo, ainda gosto dele. E aprendi a gostar de outros gatos também. Tanto é que já tive vários gatos depois do Tuxo. Será que tive mesmo?

O Shatran, por exemplo, era amarelinho como ouro, todo malhado. Esse, eu só tive tempo de dar o nome, pois não chegou a ficar comigo nem um dia. Não me lembro bem do motivo, mas precisei entregar o gato de volta, e nunca mais eu vi Shatran, nem a mulher que me deu o gato.

Depois foi a Branquinha, uma gata que nem consegui conhecer direito. Meu primo me deu num dia, e eu fiz a caixinha com pano pra ela dormir. Dormiu só uma noite. No dia seguinte a gatinha fez cocô na sala toda. Estava doente. Eu tive que limpar a sala e por a Branquinha do lado de fora. Ela fi¬cou miando e alguém a levou embora.

De tanto insistir, consegui ganhar o Ghismo, peludinho e tão pequeno, que cabia na minha mão. Pra evitar problemas no prédio, por causa da tal convenção do condomínio, convenci meu pai a levar o gato para a fábrica de nossa família.

Achei que dessa vez eu ia ter um gato só meu, criado desde pequeno. Eu não podia ficar o tempo todo com ele, mas quando voltava da escola, e ficava com meus pais lá na fábrica, podia colocar o Ghismo no colo e escutar o seu ronrom.

Depois de um mês, mais ou menos, voltei da escola e não encontrei mais o Ghismo. Até hoje eu não sei se ele morreu ou se alguém o levou embora. Namorar eu sei que ele não foi, pois não tinha idade nem tamanho pra isso.

Chorei muito com o desaparecimento do Ghismo, apesar de entender que gato era assim mesmo. Não dava pra ter certeza se a gente tinha ou não o bichinho. De repente ele sumia e pronto.

Num domingo de Páscoa, meu pai me pegou pela mão, entramos no carro e eu perguntei onde é que a gente ia. Meu pai disse que era surpresa. Minha avó foi junto. Minha irmã também. Rodamos algum tempo e paramos numa rua tranquila dum bairro que eu não sei o nome.

Entramos. Então eu ganhei o Sunday de presente. Era todo preto e tinha o peito branquinho. Parecia um pingüim. A moça me disse que o nome dele era Sunday porque nasceu num domingo. Disse também que ele era va¬cinado e que eu cuidasse bem dele. Nem precisava dessa recomendação. A moça chorou só um pouquinho quando eu levei o Sunday embora.

Mas o Sunday também sumiu. Num domingo. Não chorei quando fiquei sabendo. Vai ver já havia chegado o tempo dele namorar. Ou quem sabe, alguém levou. Mas não precisava ser assim.

Algum tempo depois eu tive a Gatharina Miquelina Sherazade, mestiça de angorá, e que morou lá em casa. Numa manhã fria ela deu à luz dois gatinhos. Mas um dia eu não a vi mais. Também tinha sumido, junto com seus filhotes. Foi o último gato que eu tive.

E foi nesse dia em que meu último gato sumiu, que eu me lembrei que sempre quis começar a escrever em meu diário, de capa colorida e cheiro de bala de hortelã. Então eu abri minha gaveta, peguei o diário e a caneta mais bonita que eu tinha, e na primeira página comecei a escrever...




Querido Diário:

O primeiro gato que eu tive,
na verdade eu não tive.
Ele não era meu. Era de todos.
Veio não sei de onde, trazido não sei por quem.
Nem sei porque ele veio.

29.12.08

O Natal estragado






















I
Bruninho estava que não via a hora de chegar de noite. Bem de noite. Quando todo mundo fosse dormir. Só assim é que poderia dar certo. Mas na cozinha sua mãe, sua tia, sua irmã e também a vó Dora preparavam doces, assavam carnes, faziam quitutes.

Cada uma com seu afã. “E o fermento, quem é que trouxe?” Era como se ninguém ouvisse naquele burburinho da casa, mas o fermento aparecia, aparecia a farinha e aparecia um bolo de chocolate, todo vestido de morangos. Mexe que mexe na panela, mexe na vasilha, mexe para tudo quanto é lado. “Alguém pode desligar o forno? O assado já está no ponto!”

E Bruninho impaciente, não vendo a hora de chegar a hora. De chegar aquela hora bem de noitão mesmo, quando nin-guém mais estivesse acordado na casa. Aí sim!

II
A árvore já estava montada desde vários dias atrás. Foi o pai de Bruninho quem a armou e a encheu de bolinhas coloridas. Tinha anjo, tinha estrela, tinha um casal de renas, tinha sino e tinha um monte de enfeite dourado. Cada um mais bonito que o outro. Tinha também o papai-noel, que ficava lá no topo da árvore, gordão daquele jeito, olhando pra todo mundo.

Todos os irmãos de Bruninho deram palpites sobre onde colocar os enfeites, mas a maioria foi mesmo o pai de Bruninho quem colocou. Eram de vidro e tinham que ficar em lugar bem alto. Só o pai de Bruninho era quem punha a mão em mimos tão delicados.

Mas tinha um problema nisso tudo: a árvore ficou lá um tempão, depois de pronta, mas sem nenhum presente embaixo. Tanta coisa bonita enfeitando a árvore e nenhum presente? Bruninho achava isso um desaforo. Achava que as árvores de natal já deveriam vir com presentes embaixo.

III
Todos os irmãos de Bruninho tentaram explicar porque a árvore ainda não tinha presentes embaixo. Só que ele não queria saber de conversa. Como é que pode uma árvore sem presentes? Como é que pode? “Lembra na casa da tia Clara? Tava cheia de presentes...”

Explicaram que naquela vez já era a véspera de Natal e que o papai-noel já havia passado por lá. Por isso já havia todos aqueles pacotes. Aí Bruninho pensou assim: será que todos os meus irmãos acreditam mesmo no papai-noel?

Sentou-se no sofá e ficou pensando nisso. Olhava o papai-noel gordão, lá no topo da árvore, olhava para a correria dos irmãos pela casa. Sentia um cheirinho bom de rabanada com canela em cima. E pensava a que horas iriam botar os presentes ao pé da árvore.

IV
Mas para aquele Natal ele havia feito um plano. Quando todo mundo fosse dormir naquela véspera de Natal ele iria descobrir tudo, tudinho sobre papai-noel e sobre como os presentes aparecem lá. Até já dormira um pouco à tarde, que era para não ficar com sono na hora “h”.

Ajeitou-se no sofá da sala, nem ligando para a correria dos irmãos pela casa. Azar o deles! Iriam perder o melhor da história.

V
Então aconteceu da casa ficar silenciosa. Ainda podia sentir o cheirinho bom dos quitutes que vinha da cozinha. Mas sabia que todo mundo tinha ido dormir. Levantou do sofá na sala que, de luz, tinha só um pisca-pisca das pequenas lâmpadas da árvore de Natal. Mais nada. Pisando na ponta do pé, para não fazer barulho, foi em direção à árvore.

VI
“Ah! Que droga, viu!” Bruninho quase acordou todo mundo, reclamando em voz tão alta assim! É que os presentes todos já estavam lá, bem debaixo da arvorezinha, toda enfeitada com anjinhos, sinos, estrelas douradas, renas e o papai-noel gordão. Então ele falou de novo em voz muito alta, quase acordando todo mundo: “Papai-noel já passou! Que droga, viu!”

Mas rapidamente percebeu que não estava assim tão contrariado por ter perdido o melhor da história. Se o papai-noel já passara, pelo menos os presentes estavam lá. E se os presentes já estavam lá, o seu também já estava. Animou-se bem rapidinho outra vez: “ Vou saber qual é o meu presente!”

VII
Assim pensou e assim mesmo agiu. Olhou para aquele montão de pacotes, todos muito bem embrulhados com papel colorido, um bem diferente do outro na cor e no tamanho, e todos com fitas coloridas. Estava com um sorriso até aqui de contente! Certamente um deles era o seu. Mas como descobrir qual, se nenhum tinha um cartão ou o nome do dono? Papai-noel se esqueceu dos cartões. E agora? “Desembrulhando!” – pensou nova-mente em voz tão alta que quase acordou todo mundo.

E foi assim que Bruninho tomou a decisão de abrir todos os presentes daquele Natal, até descobrir qual era o seu.

VIII
Abriu primeiro a caixa grandona, de papel pintadinho de rosa, com uma fita bem larga de cetim. Rasgou o papel e espalhou tudo pelo chão. Era uma bicicleta! Aí Bruninho pensou assim: - “Este presente não é o meu, pois já ganhei uma bicicleta no ano passado. Deve ser da minha irmã Anacleta, pois a dela se quebrou noutro dia. Deve ser dela” – pensou. E logo que pensou assim, ouviu uma voz lhe dizendo:

“Foi logo abrindo o grande pacotão
e num instante ficou com um carão:
viu que era a bicicleta
de sua irmã Anacleta.
Aí, Bruninho! Que belo papelão!”


Bruninho olhou assustado para todos os lados da sala, mas não soube quem lhe falava, nem de onde vinha a voz. Esperou por um tempo, vendo as luzinhas pisca-pisca e mais nada. E os papéis do presente que ele abriu ficaram espalhados pelo chão.

IX
Depois de passado o susto, Bru-ninho achou muito bonito um pacote verde de papel crepom, fechado com laço escuro, de outro verde brilhante. Abriu. Começou uma ventania, dessas de temporais, querendo derrubar as coisas e assobiando para todos os lados.

Bruninho levou outro susto! Que vento era esse que vinha dessa caixinha? Nem bem tinha acabado essa pergunta, ouviu a mesma voz que já ouvira no outro presente:

“Abriu outro presente errado.
E estava de novo enganado.
Era só um secador,
girando a todo vapor.
Você não está muito apavorado?”


Bruninho só então desconfiou que aquele presente era o de sua irmã mais velha, a Carina, que vivia pedindo um secador de cabelos novo, só seu. E, de novo, os papéis do presente que ele abriu ficaram espalhados pelo chão.

X
Mas como Bruninho não desistia de abrir presentes para descobrir qual era o seu, resolveu abrir mais um: era uma caixa branca, tão branca que até brilhava. Então ele se assustou de uma vez. Tirou a tampa e... Era uma caixa cheia de estrelas. Quando Bruninho abriu a tampa, aconteceu. Todas as estrelinhas presas na caixa, quando viram a tampa aberta, escaparam. Foram todas parar no teto, pois estrelas gostam de lugares bem altos.

Bruninho gritou assim, tão alto que quase acordou todo mundo outra vez: “Desce daí todo mundo, que eu não mandei ninguém subir!”

Mas todas as estrelinhas ficaram lá no teto, brilhando. Ninguém queria descer. E Bruninho já estava muito preocupado com seu plano. “Quem é que vai acreditar que o papai-noel é o meu pai se eu não explicar isso direitinho? E quando eu disser que todas as estrelas foram parar no teto só porque eu desembrulhei o presente errado, que era de minha irmã, o que é que todo mundo vai dizer?”

E ainda por cima aquela coisa de todas as estrelas que escaparam da caixa branca estarem lá no teto. Todas! Nenhuma queria saber de descer. Tinha uma delas, até com um rabão bem grande e luminoso, que pousou bem no alto da árvore de Natal, por cima do papai-noel gordão. E ficou lá, quietinha, quietinha...

Bruninho estava com a boca aberta com tudo o que estava acon-tecendo. Só olhava para a árvore enfeitada pelo seu pai e para os papéis de presentes rasgados que já estavam espalhados pelo chão.

XI
“Agora, sim, é que eu sei qual é o meu presente. Lógico! É o que está embrulhado de azul!” E foi pensando assim que Bruninho foi abrindo outro pacote. Era de todos o mais cheiroso. Foi rasgando papel, arrancando fita e tirando coisa da caixa. Uma caixa de bombons. Cereja coberta com chocolate. Ai, que bom! Então ele comeu bombom, comeu bombom, comeu bombom...

E já estava tão estufado de tanto comer bombom quando ouviu, vindo sabe-se lá de que lugar da sala, que já era um brilhar só, de tanta estrela que tinha escapado do outro presente, uma frase que o deixou preocupado:

“Eu sabia que não era seu
esse doce que você comeu.
Se tivesse perguntado,
eu teria lhe falado...
Mas agora, o doce derreteu.”


Bruninho tentou fechar a caixa bem depressa, pensando que a voz vinha de dentro dela. Mas, cadê a tampa? Perdida no meio de tanto papel de presente colorido, rasgado e jogado no chão.

XII
Então era assim que funcionava? A cada presente errado que se abria, vinha aquela voz de recriminação, e ainda por cima fazendo um versinho? Foi aí que Bruninho teve uma idéia: “Vou conversar com essa voz”. E Bruninho quase gritou “Voz estranha, voz estranha, estou atrás do meu presente. Quer dizer, por favor, onde ele está?”

Esperou um pouco e não ouviu nada. Só havia silêncio na sala e a luminosidade de todas as estrelinhas fugidas, pregadas lá no teto.“Voz estranha, voz estranha. Se você não disser onde está meu presente, eu vou continuar abrindo... Olha que eu já avisei...”

E nada! O papai-noel gordão estava quietinho no topo da árvore, sorrindo. A única diferença era aquela estrela rabuda que foi parar quase sobre sua cabeça. Bruninho já estava muito impaciente e fez seu último aviso: “Voz estranha, voz estranha. Bem que eu lhe avisei... Vou abrir todos esses presentes até descobrir o meu!”

E nem bem terminou de dizer isso já foi rasgando o pacotão vermelho, de onde pulou um palhaço que não parava de gargalhar. E gargalhava tão alto, mas tão alto, que certamente iria acordar todo mundo. “Esse não é o seu”, gritou a voz. Abriu outro pacote. “Esse não é o seu”. E mais outro: “Esse não é o seu”.

XIII
E assim foi por um longo tempo, que Bruninho nem sabe quanto. Os papéis de presente iam ficando espa-lhados pela sala enfeitada de estrelas no teto. A voz continuava dizendo “esse não é o seu” e o papai-noel gordão já não estava mais no alto da árvore de Natal. Lá só havia a estrela rabuda, brilhando mais, muito mais que todas as outras que ficaram presas no teto. “Esse não é o seu!”, cuco, “Esse não é o seu!”, cuco...

Bruninho não descobriu o mistério do papa-noel e nem achou seu presente naquela grande confusão. E agora estava tudo estragado. O Natal estava estragado. Todos os presentes abertos, estrelas para todo lado, vozes vindo não sabia de onde, “esse não é o seu!”, e Bruninho achou que tinha estragado o Natal.

XIV
“Bruninho, acorda que o papai-noel já passou...”

XV
No ar havia um cheirinho bom dos assados e do bolo de chocolate. Os irmãos de Bruninho já não corriam pela casa. Abriam presentes. Bruninho esfregou os olhos e só então percebeu que dormira no sofá. Olhou para o teto e não viu estrelinhas grudadas. Olhou para o pé da árvore de Natal e viu que havia um monte de presentes ali. Correu os olhos para o topo da árvore e não viu o papai-noel gordão, sorrindo como estava antes. Ali havia apenas uma estrela rabuda, brilhando intensamente.

E foi então que o pai de Bruninho, esticando a mão com um pacote muito bem embrulhado, falou assim: “Toma, Bruninho! Este é que é o seu! Feliz Natal!”

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Publicado na edição 193 - dezembro de 2008 - do jornal "O Bandeirante"
Publicado na "Antologia Paulista 2009" 

Rumo Editorial - São Paulo - 2009
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