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25.11.13

Cantiguinha
















De um lado do muro, cantava Mariana sua cantiguinha, mesma de sempre, esticando a roupa na grama para quarar. Sol pouco, dessas manhãs cinzentas de luz teimosa, Mariana cantarolando. Lençol branco daqui, vestido estampado de flores dali. Mariana esticando a roupa.

Do outro lado Tião jardineiro, sisudo, podando roseiras. O sol, faz que sai mas não sai, é bom para Tião. As folhas das roseiras se espalhando pelo chão. Uma joaninha pousa na mão de Tião e faz cócegas.

"Mãe, tem gente batendo na porta". Cantarolando Mariana atravessa a grama enfeitada de roupas. "Já vai". Na porta uma mulher vestida de trapos espera. Cantarolando Mariana abre a porta que dá para a varanda.

"Dá uma ajuda para comprar de comer para as crianças". A cantiga murcha na boca de Mariana. Olha a mulher no portão, vestida de miséria. Gira nos calcanhares. Vai para a cozinha, sem cantar. Corre os olhos pelo fogão e depois pelo armário. Apanha um saco de papel e nele enfia uns pedaços de pão de ontem.

" Deus lhe pague". As roseiras de Tião jardineiro estão peladas. Sisudo, recolhe galhos do chão e amontoa. O sol criou coragem e clareia as roseiras peladas. Do outro lado do muro as roupas de Mariana vão quarar.

" Dá uma ajuda para comprar de comer para as crianças". Tião não viu as crianças. A mulher vestida de trapos ficou plantada no portão, esperando. Sisudo, Tião buscou na mente uma desculpa. Qualquer uma pareceu sem graça, esfarrapada.

"A patroa não tá". Sisudo, deu as costas à mulher vestida de pobreza. Voltou para as suas roseiras peladas. No portão, a mulher pedinte sentou-se. A cantiguinha recomeçou. Chegou ao portão, atravessou o muro, se enfiou pelas roseiras peladas, pelas roupas quarando na grama.

No portão, do outro lado do muro, a mulher vestida de trapos mastigou seu pão de ontem. Não havia crianças. Havia fome. Mariana cantarolou ainda algum tempo. Depois parou. Tião desviou da mulher suja sentada no portão. A patroa não estava mesmo, mas a desculpa martelou sua cabeça. Do fundo do bolso de Tião saiu uma nota amassada de cinco.

" Deus lhe pague". Quando o pão se acabou, o sol castigava os trapos da mulher no portão. Do outro lado do muro Mariana voltou à sua cantiguinha, mesma de sempre, recolhendo a roupa.

***
Publicado originalmente  no Jornal UNIFICAÇÃO de  jul/ago/1979

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