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17.12.08

Cada Coisa em seu Lugar














Há algum tempo atrás ainda não havia sido inventado o poder. Em consequência, certas atitudes também não haviam se manifestado. Nem sequer haviam sido concebidas as coisas vivas e possíveis candidatas ao poder. Naquela ocasião só havia o verbo e o verbo era Deus, e isso era bom... Mas deve ter sido muito monótono esse período, pois foi quando Deus, que naquela época já tinha a designação de Todo-poderoso, resolveu dar uma agitada no seu pedaço e começou a criar as coisas.

Em sete dias apenas, coisa que até hoje se tenta imitar sem qualquer perspectiva de sucesso, Deus construiu sua obra mais complexa. Foi fazendo logo o céu e a terra, o dia e a noite, tudo no primeiro dia. Daí, no dia seguinte, tingiu um tanto de sua vontade de azul bem profundo e chamou essa invenção de firmamento, separando as águas que já havia criado. Depois fez um donwsizing e deu uma organizada entre água e terra, separando cada parte no seu lugar, o que era seco separado do que era molhado. A seguir, como tinha boas idéias ecologistas, semeou a terra toda, para que ficasse verdinha, cheia de frutas e flores, de perfumes e beleza. E olha que ainda estava no terceiro dia de trabalho!

No quarto dia, Deus resolveu que sua criação ficaria muito mais bonita se colocasse algumas luzes nos lugares certos e não deu outra: criou estrelas e luzeiros e botou tudo lá no firmamento, pra iluminar a terra e dar uma certa ordem entre o dia e a noite, que andavam muito misturados até então. Pronto! Ficou supimpa, e o próprio Deus achou que era bom!

Foi então que chegou a vez de povoar o ar e as águas com seres vivos, pois estava uma solidão muito grande naquilo que já estava feito. Peixes e seres das águas, pássaros e seres do ar, tudo isso Deus fez num dia só, o quinto de sua criação. Logo a seguir, no sexto dia, Deus colocou uma porção de animais na terra firme, coisa que ainda faltava. Até que...

Bem, até que chegou o sétimo dia e Deus criou o homem, à sua imagem e semelhança, para que a tudo isso dominasse. Daí pra frente, meu amigo, logo depois de Deus descansar, pois ninguém é de ferro, o homem começou a dar o ar de sua graça. Ganhou certas malandragens, aprendeu ou herdou da serpente uma sem-vergonhice ou outra, foi ficando meio safo na coisa de ter sido indicado para ser o senhor do mundo que Deus havia criado. Foi então, velho, que a coisa começou a ficar preta...

Com o fito de dominar animais, plantas, mares e céus, enfim, o que Deus tinha criado, o homem foi se arvorando de único dono daquela imensidão tão harmoniosa. Foi daí que a noção de poder, que até então era sabida e exclusivamente de Deus, pois afinal de contas foi Ele quem criou tudo, começou a subir na cabeça da criatura.

E desde então o homem, esse que devia ser somente a imagem e semelhança de seu criador, foi forjando malefícios e se utilizando de artimanhas escusas, concebendo situações de soberba e mesquinhez, sem quaisquer escrúpulos. E foi lapidando vaidades, alimentando egoísmos, semeando aleivosias, destruindo tudo o que o impedisse de atingir seu medíocre objetivo: ter o poder pelo poder.

Bem... Nestas alturas só resta algum exercício de lógica: Deus não tem sido mais tão ostensivo no trabalho como em seus primeiros dias de criação; aparentemente só vem dando uma sábia e segura manutenção naquilo que já havia feito e que já tinha dado por completo na sua obra; com isso, é de se concluir que é bem capaz que qualquer dia desses Deus precise realizar uma intervenção mais rígida em todo o complexo de sua criação, só para colocar as coisas em seu devido lugar. Afinal, quem é que manda no pedaço?

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Apresentado na "IX Jornada Médico-Literária Paulista" da Sobrames -SP
Hotel Intercity - Jundiaí - São Paulo - 27 a 30 de setembro de 2007
Publicado no Anais da "IX Jornada Médico-Literária Paulista"
Rumo Editorial - São Paulo - 2007

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