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26.5.18

Naquela hora em que não choveu



Aos poucos as pessoas foram recolhendo suas cadeiras e a areia foi se revelando, quase nua, salpicada apenas por alguns detritos, restos da manhã. Aqui e ali um guarda-sol reticente e com preguiça de fechar suas cores vivas. Nuvens escuras, que a princípio apenas esgarçavam o céu, ainda a pouco radiante de luz e azul, se avolumaram sorrateiras.  Uma névoa espessa se formou ao longe, disfarçando a paisagem distante naquela bruma que eu já conhecia. Os primeiros pingos foram mal percebidos pelos meninos indiferentes ao céu que se fechava rancoroso. Então choveu, e a tarde ainda ia pela metade nessa hora. Um aguaceiro e tanto, generoso, amainando um pouco do calor intenso e quase sufocante. Os retardatários ou incrédulos de que chovesse, correram em busca de algum abrigo. Outros, no entanto pouco se incomodaram, pois tinham urgência em aproveitar aquele dia e lugar.

Não era a primeira vez que eu via esta cena ou dela participava. Tudo isso me veio aos olhos como se pertencesse a um filme que se repetia, quadro a quadro. Recolhi-me, diante daquela falta de novidades, e da porta aberta de meu trailer fiquei vendo os pingos saltitando nas poças. Soldadinhos. Lembrei-me de uma velha tia. São soldadinhos pulando, ela dizia. Mas não atinei até hoje porque razão os pingos de chuva seriam soldados e porque cargas d’água soldados haveriam de pular daquele jeito. Aí, uma coisa foi puxando outra no pensamento, e cargas d’água parecia ter certa lógica naquele momento. Aquilo era uma carga d’água, jorrando ininterrupta, como se saísse de uma grande esponja espremida entre os dedos. E me diverti pensando que tamanho deveria ter a mão que a espremia daquela maneira, e quanta água havia na esponja, certamente sugada do mar lá fora, que nem mais se ouvia, tamanho era o barulho da chuva.

Assistir a chuva criar suas poças e enxurradas foi ficando monótono demais e acabei cochilando na cadeira de praia em que eu havia me recostado comodamente. Então o mar, erguendo-se de uma só vez num grande redemoinho, começou a subir e subir, até que todos os seus abismos e entranhas ficassem expostos como as vísceras de um animal abatido. E tamanha era a força daquele turbilhão, que as árvores foram arrancadas com todas as suas raízes e também subiram com a água daqueles oceanos que agora pairavam sobre minha cabeça. Estranhamente não havia relâmpagos ou trovões, mas somente um barulho rouco e interminável, como somente o turbilhão de todos os mares poderia ser capaz de fazer. E então toda aquela gigantesca forma plúmbea, depois de girar em grande velocidade naquela altura incomensurável que alcançara, desabou novamente, num único movimento. E cada árvore que caía ficava com suas raízes para cima, enquanto as águas dos mares que despencava arrancavam-lhes ou últimos torrões da terra que nelas ficara presa.

De repente, acordei de um pulo e demorei alguns segundos até perceber que ainda não era a hora do apocalipse. Suspirei aliviado e me acomodei melhor na cadeira quando me certifiquei que apenas a chuva se intensificara lá fora, que as árvores estavam firmes e fincadas ao solo, e especialmente que ninguém percebera minha aflição naquele momento. Já não estava tão claro e uma luminosidade artificial tremulava refletida na imensa poça que eu podia vislumbrar. A tempestade teria tornado a tarde mais escura ou já era noite? Nesse momento percebi que alguém se movimentava a poucos metros de minha porta, como se puxasse algo da imensa moita de bambu que oscilava sob a chuva abundante. Era o administrador do camping, tentando consertar um cabo elétrico. Ergui-me e ofereci ajuda. Depois fiquei sabendo que algumas barracas foram inundadas pelas águas. Numa delas havia senhoras e crianças. Procurava-se acender as luzes de um trailer desocupado, logo à frente, para acomodar os náufragos daquele dilúvio.

Com a solidariedade comum a todo campista, em poucos minutos formara-se um mutirão de socorro. Lanternas, alicates, cabos, vassouras, pás, tudo foi aparecendo como que por encanto e as luzes do trailer vazio se acenderam, sob a angustiante expectativa das encharcadas vítimas e do não menos encharcado grupo de socorro.  Minutos depois, curiosamente, a chuva cedia e apenas alguns pingos ralos estalavam nos telhados de lona. As pessoas voltaram a circular, cada vez em maior número, desviando das poças de lama e água. Animadas, falavam em voz alta. Quase todas traziam uma garrafa debaixo do braço e rumavam para o portão que levava à praia. Só então eu fui me dar conta que faltava muito pouco para o fim do último dia do ano. 

Fomos todos esperar que algo acontecesse lá fora, na praia. Era inacreditável, mas havia alguma estrela teimando em luzir em meio a nuvens esparsas que ainda tomavam conta do céu. As areias fervilharam de gente, indiferentes às estrelas ou ao que mais houvesse no céu. Mas era para o céu que olhavam e era dele que esperavam alguma coisa, os olhos faiscando. Em dado momento, cada qual em sua própria cronologia contou os segundos. Espocaram os primeiros fogos, que logo  inundaram de cores e sons toda a orla.  E cada olhar refletiu pontos luminosos, de inúmeras cores e anseios. A fumaça da festa pirotécnica começou a esconder as luzes mais distantes, vagarosamente, imitando a bruma daquela mesma tarde. Em pouco tempo voltou a chover e logo tão intensamente quanto antes. Custei a dormir na primeira noite de ano novo, toda ela debaixo de novo aguaceiro. Talvez com receio de voltar a sonhar com o fim do mundo. Afinal ele não aconteceu, exceto pelos muitos náufragos daquele camping e pelas inúmeras famílias que começaram o novo ano sem ter onde morar. Também me pareceu um filme já visto aquelas cenas de casas destruídas por enchentes e desmoronamentos que a televisão mostrava nos primeiros dias deste ano que mal começava.

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Publicado nos livros: 
Antologia Paulista - vol.2 - Legnar Editora - SP - 2000
Pipas no Caminho - e outros escritos guardados no tempo - Rumo Editorial - SP - 2018

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