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1.9.17

Anotações num diário bissexto

















Os pequenos gestos
(na tarde de uma quarta-feira)
(...) Pequenos gestos anônimos valem muito mais do que aquelas manifestações espalhafatosas, cujo único proveito é o do ego de quem as alardeia. O ser humano é capaz de coisas incríveis, mas nem sempre sabe usar adequadamente esse poder que o Grande Arquiteto concedeu a todos, indistintamente. Há os que preferem o silêncio e o anonimato ao exercerem sabiamente essa poderosa prerrogativa. Mas há também os que necessitam mostrar o gesto de sua mão esquerda à direita, apenas para ouvir um elogio que satisfaça seu ego. Enfim... Cada um com sua bondade. (...)

As ações silenciosas
(na manhã de um domingo)
(...) O silêncio quase sempre é um grande aliado. Permite a reflexão e a introspecção profunda, o que acaba resultando no expurgo de algumas angústias e até mesmo no aperfeiçoamento espiritual. Para tentar ser como a natureza, que trabalha em silêncio e de maneira persistente, é preciso autocontrole, força de vontade e concentração. Palavras e trabalho ao mesmo tempo podem não ser produtivos. Agir, silenciar, manter a concentração e trabalhar continuamente talvez seja a melhor forma de atingir cada um dos objetivos almejados. Estes são pensamentos deixados por Gandhi e aplicáveis em toda ocasião. (...)

Os pensamentos negativos
(numa hora imprecisa de um dia qualquer)
(...) As dificuldades servem para valorizar o momento da superação. Algumas vezes temos a impressão que as coisas ruins estão nos acontecendo com muita frequência ou intensidade. Mas não é bem assim. Talvez estejamos de alguma forma fragilizados por algum problema que estamos enfrentando e permitindo que nossa mente fique muito tempo ocupada com essa questão. Assim a tendência é só dar atenção às coisas ruins, por menores que sejam. Então acabamos demorando um pouco mais para sair da fase que não é boa. Esquecemos de que nada é eterno e demoramos a atingir a superação. (...)

O fascínio da existência
(na madrugada do dia 16)
(...) As questões relacionadas ao tempo são fascinantes. À medida em que se aprende alguns de seus segredos, vai-se conscientizando cada vez mais de sua importância. O momento efêmero que se convenciona chamar de presente é muito rico e importante para ser ignorado enquanto se idealiza o futuro, que sequer se sabe se realmente existirá. Cada fração da existência de um ser humano é a dádiva mais sublime que lhe é concedida. Dela pode-se fazer o que o livre arbítrio permitir e, com isso, construir algo que possa ser útil e proveitoso no futuro que se espera ter. (...)
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Publicado na XI Antologia Paulista - Rumo Editorial - SP (2017)

9.8.13

27 possíveis definições de saudade para uso interno




















1-“Saudade é aquela comichão que dá por dentro, muito difícil de coçar”.
2-“Saudade é uma porcaria pra atormentar a gente”.
3-“Saudade é um treco que vem não sei de onde querendo não sei o quê”.
4-“Saudade é um pedaço da gente pensando bem longe.”
5-“Saudade é um buraco sem fundo no coração da gente.”
6-“Saudade é uma visão da distância que não se consegue vencer.”
7-“Saudade é o medo de não reencontrar jamais.”
8-“Saudade é uma bobagem passageira que nunca termina.”
9-“Saudade é perceber a falta do anjo no oratório.”
10-“Saudade é quando um perfume te desequilibra.”
11-“Saudade é quando uma música te entristece de repente.”
12-“Saudade é fogo fátuo com recaída.”
13-“Saudade é uma imagem que nunca se apaga lá dentro.”
14-“Saudade é um sorriso que se nota que está faltando.”
15-“Saudade é a consciência de que não se tinha consciência da perda de algo bom.”
16-“Saudade é ausência.”
17-“Saudade é porre de ausência com ressaca inevitável.”
18-“Saudade é distância.”
19-“Saudade é carência.”
20-“Saudade e solidão não são sinônimos, são companheiros.”
21-“Saudade é a pouca vontade da solidão ir embora.”
22-“Saudade atormenta porque é alergia da falta de alguém.”
23-“Saudade é não conseguir ver mais o que queremos muito mas vemos a todo instante bem lá dentro de nós.”
24-“Saudade é foda!”
25-“Saudade é uma bifurcação da distância.”
26-“Saudade é um repertório de vazios.”
27-“Saudade é rescaldo de incêndio teimoso em acabar.”


14.7.13

Refugos




















Nem tudo o que é velho é imprestável ou desprezível de per si. De quase tudo se pode fazer algo novo, reciclando utilidades, refazendo percursos e recriando expectativas. Só acaba de vez o que nunca teve qualquer serventia. Mas se tudo tem um propósito, isso é muito difícil de acontecer, já que tudo tem sua serventia. Por isso eu tento renovar a minha vida diariamente. A intuição me confere discernimento. Cultivo a serenidade diante da transitoriedade. Planto persistências. Depuro e capino o mato daninho do desprezo e do isolamento. E tudo isso para tentar fazer do eventual traste inútil que amanhece em meu pensamento um voto de resiliência. Que seja para um talvez, para um amanhã possível, para alguma conquista, mesmo que distante... Seja para uma quimera qualquer. Por isso eu digo que velho não vira refugo. Na verdade ele virará pó, quando chegar sua hora. 

4.7.13

Céticos
















Sempre olho adiante, pois acredito nas possibilidades dos horizontes distantes. Mesmo que nunca tenha estado naquela longínqua linha, tênue e enevoada. Mesmo que pense nela apenas como uma possibilidade. Tem quem chame a isso de fé. Outros, de persistência. Alguns mais de teimosia. E então eu apenas me pergunto o que poderá haver  nesse ceticismo que nem quer ver os horizontes, já que eles sempre estão diante de nós.

13.6.13

Deus é paciente?

















Eu sei que Ele é bom demais... Eu sei que Ele faz coisas incríveis, que você nunca cogitaria que pudessem acontecer. Coisas maravilhosas, e normalmente quando você menos espera. Mas eu acho que um dia Ele vai se encher o saco e perder a paciência com certas coisas que a "humanidade", essa mesma que Ele criou à Sua imagem e semelhança, vem fazendo à revelia. Ah, vai! Mas eu não acredito naquele Deus que se vinga com dilúvios, pestes, mortandades, execuções e outros castigos desse naipe. Não! Deus não é vingativo! É apenas Deus! Creio só no Deus Justo e Perfeito, como sei que é o Grande Arquiteto do Universo. E no dia em que Ele se encher o saco dessa Sua criação que vem se insubordinando e fazendo bandalheiras, eu creio também que vai agir com a mais pura e digna JUSTIÇA. Essa eu desconheço qual seja. Afinal, Ele sempre nos surpreende... 

9.6.13

Colóquios
















Em tudo é de se ver o mesmo mistério de quem é sutil, mas vai direto ao ponto. “Sou eu que não entendo bem ou é você que tem pontaria contundente?” Nunca se sabe o que ponderam e como se entendem nessa hora o coração e a razão em seus colóquios misteriosos. Que cada qual cumpra seu curso, pois é mesmo assim que tem que ser. É talvez o melhor momento de considerar regalias, desfrutes, imensidões, êxtases, alegrias, felicidades. Mas que em seu desígnio e caminho cada um por seu turno, razão e coração, pondere e se abstenha de ferir, magoar, desprezar, ignorar, desmerecer, evitar e todas essas coisas similares que, no fim e como bem se sabe, aniquilam e destroem. Essas ingratidões não acrescentam nem definem nada. Apenas diminuem, agravam e atormentam. E no momento de um colóquio entre sentimentos e atitudes, tudo isso precisa ser levado em conta, muito em conta. O que menos se precisa é de ingratidões. 

24.3.12

Ser pedra é fácil

















(difícil é ser vidraça o tempo todo)

Os chavões e provérbios populares nem sempre são apenas um clichê de quem não tem criatividade para dizer melhor ou pensar algo mais incisivo sobre o assunto, e por isso procura algo já dito por alguém quando quer dizer o que pensa a respeito. Eu os encaro como verdades de plantão. Decerto só se tornaram provérbios ou chavões pela pretensa verdade que contém. Mas o que é a verdade? Isso já é outro assunto, pois cada um tem a sua e pronto. E ninguém precisa acreditar na verdade dos outros, nem em provérbios prontos e nem no que quer que seja. Tudo, ao final, serve apenas como referência para se pensar sobre aquilo que muita gente já também já pensou e externou uma opinião antes, para, talvez, chegarmos à nossa própria conclusão. Só para justificar o título desta divagação acho que tem muita gente que não está nem aí enquanto tem pedras na mão. Daí eu me pergunto: como é que uma vidraça reage ou se defende das pedras arremessadas?

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Apresentado na Pizza Literária da SOBRAMES-SP
16.02.2012
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11.2.12

Decepções















Há um bom tempo percebi que decepção é a mesma sensação de quando se constrói um castelo na areia. Sabemos que alguma onda, cedo ou tarde, o destruirá. Efêmera a alegria de construir. Triste a decepção de ver o castelo varrido pela onda. E mesmo assim o erigimos. Tal qual a bolha de sabão, que estoura, e já não é.  Estamos sempre em busca dessas decepções previsíveis, embora sempre acreditando que os castelos possam não ruir pelo marulho das ondas nem as bolhas de sabão estourar por si. É isso que move nossa vida.


19.12.10

Fragmentos e Abstrações















Inutilidades
(...) Vejo como completamente inúteis certas coisas que pretendemos que outros percebam em nós. Por exemplo, nossas demonstrações de indignação, seja lá com o que for. Normalmente alteramos feições e tom de voz para passar a impressão, o que pode não significar nada além de um teatro, e sempre soará falsa e hipócrita a teatralidade demonstrada, pois, mais cedo ou mais tarde, verão que não é bem assim nossa postura real no dia a dia. (...)

Carpe Diem
(...) Numa definição simplista, é mais ou menos como se o mundo real deixasse de existir. Ou melhor: é como se o mundo real pudesse e fosse realmente aproveitado como deveria ser. Sempre foi assim. Desde sempre. Os dias se abrem para que possamos fazer dele o melhor que quisermos e pudermos. Mas nem sempre acordamos de bom humor. E lá se vai uma parcela de nosso tempo, despejado pelo esgoto de nosso egoísmo de pensar que o mundo é que deveria girar em torno de nós. (...)

Sofrimento
(...) Eu diria que talvez seja essa a razão do sofrimento e da angústia: de repente a importância que damos a certas coisas, situações, ocasiões e pessoas é extremamente desimportante, uma vez que, simples e resumidamente, essas coisas, situações, ocasiões e pessoas não dão a mínimaimportância para o que pensamos a respeito e ao que queremos. É como pretender que as nossas prioridades e importâncias sejam também as alheias, e isso é sabidamente impossível, a não ser que se empreguem métodos de imposição. A individualidade deve sobrepujar qualquer tentativa egoísta de equiparação e de domínio. Da essência do exercício pleno e livre das prerrogativas individuais é que advém o singelo gesto de conviver em harmonia. Tudo que se pretender, além disso, poderá se tornar uma aberração. Sofrem e se angustiam os que pretendem gerir pessoas, coisas, situações e ocasiões apenas norteados pelo “seu” parâmetro de valores, sem levar em conta as individualidades. (...)

Justiça
(...) Tudo aquilo que o ser humano acha que sabe exatamente o que é, mas nunca consegue fazer plenamente. (...)

Morte
(...) Nunca pensamos na morte com alegria. Que estigma é esse que a morte carrega de ser o ápice amargo de uma existência, que nem bem sabemos como é realmente em sua plenitude? A morte é a única certeza da vida? É nada! A grande certeza que todos têm e temem confessar é a da própria vida. Nada sabem sobre a morte e por isso dela apenas fantasiam. A vida sim é finita enquanto dura. E a morte? Até quando? (...)

Vida
(...) Nunca se pensa na vida no tempo justo em que ela precisa ser pensada. Quando a estamos planejando, não temos ainda a bagagem suficiente para discernir. Quando já pensamos saber dela o suficiente para discernir, ainda temos muito a aprender e nem conseguimos dela, a vida, o suficiente para nos satisfazer. E, por fim, quando julgamos que a encontramos com total discernimento, quase em nosso apogeu, já é um pouco tarde para desfrutar tudo quanto dela achamos que discernimos e que ela tinha a nos oferecer. Que merda! (...)

Deus
(...) Basta olhar ao lado. (...)

Amor
(...) A dificuldade de saber como deve ser o amor é a mesma de interpretar o que o mundo ao nosso redor pensa dele. Há que se levar em conta nessa análise o tipo de amor que se quer analisar. O intangível, que percorre a alma de certas pessoas, vive da gratidão pela possibilidade de se dedicar a ele. O profano, que trafega nas veias dos eufóricos, vive da gratidão pelo momento vivido, ainda que efêmero. E tudo é amor do mesmo jeito e sabor. Tudo depende do ponto de vista. (...)

Ódio
(...) Palavra a ser abolida. (...)

Olhares
(...) Os olhos são o espelho da alma. Eu sempre penso que poderia me aperfeiçoar na análise dos olhares com que as pessoas nos contemplam nos momentos cotidianos. Penso também que poderia saber interpretá-los melhor, pois isso seria extremamente útil para todos, mas sempre percebo que é muito complicado fazer essas coisas. No entanto, sempre olho na alma das pessoas, através de seus olhos, mesmo semo pleno domínio dessa interpretação. Com isso sempre sei um pouco mais do que elas pensam que não sei e que nunca gostariam de me revelar. Muito mais do que elas pensam que sei. E sempre, invariavelmente sempre, consigo entendê-las um pouco melhor. Mesmo que elas nem suspeitem disso. (...)

Reciprocidade
(...) Aprendi que nunca se deve esperar nada como troca justa por qualquer coisa que fazemos, seja ela boa ou ruim. Primeiro porque seria muito egoísta esperar que as coisas boas que eventualmente fazemos, deveria gerar algo igual como recompensa. E depois, porque percebo que as coisas ruins que sempre fazemos raramente nos punem com igual rigor. O que é muito sensato. (...)

Cumplicidade
(...) Dividir segredos, que por isso, deixam de ser segredos. Dividir o corpo e a alma em confissões. Apropriar-se do alheio em surdina. Aprimorar-se na decifração de sons, sensações, palavras, trejeitos e coisas afins que não lhe são de direito. Saber e não confessar. Confessar sem saber. Querer sem poder. E ter. Tudo isso exalta os sentidos e aprisiona a alma na mais completa cumplicidade. É pecado mortal, capital ou apenas uma (a)normalidade permissiva? Quem não é cúmplice de si mesmo? (...)

Rotina
(...) A impressão que tenho é que a mesmice das coisas acaba encurtando o tempo de forma muito acelerada. Quando estamos no alvorecer de um dia supostamente de rotina, cada minuto tem no mínimo, uns dez segundos a menos. A previsibilidade do que vai acontecer no instante seguinte diminui o tempo. Não podemos interferir no processo. Talvez por sabermos exatamente como vai ser o próximo segundo, deixamos de contá-lo. Daí, o subtraímos de nossa vida de forma inconsciente, mas inexorável e irreversivelmente.

Apesar disso, acho que foi pelo desarranjo dessa consciência de perda de tempo decorrente do ritual de minha vida, que acabei encontrando tempo para pensar em coisas tão inúteis quanto esta tese que agora me ocorreu. Assim, pensei também nas formas de driblar a mesmice, de dar um tombo nos inexoráveis segundos iguais de cada um de meus dias, e de contá-los todos, como se não os tivesse perdido. Talvez eu só quisesse com isso prolongar minha existência, que vinha sendo subtraída covarde e rudemente de preciosos momentos.

Mas não deu certo. No segundo dia em que eu vinha pensando nessa complexa equação, enquanto dirigia para o meu trabalho, pelas mesmas ruas de sempre e parando no mesmíssimo e eterno engarrafamento de meus dias iguais, me distraí completamente. Minha abstração advinda dessa mesmice me fez perder a noção de qual era o pedal do freio. Assim, permiti que batesse o pára-choque da frente de meu carro no pára-choque traseiro do carro que ia à minha frente. O pior de tudo, é que a mulher que o dirigia era brava demais. Custou um tempão para me desvencilhar da situação.
E lá se foi toda a minha tese. Por fim, concluí que se a mesmice pode acelerar o tempo, a falta de freio pode recuperar muito do tempo perdido, embora não seja ainda a melhor forma de resolver o problema. Preciso pensar um pouco mais nessa profunda questão filosófica. (...)

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima primeira fornada" 
Rumo Editorial  - São Paulo - 2010
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