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14.12.18

Ócio



I
Reservo meu ócio para coisas amenas, que não me tragam susto nem chateação. Busco lugares que me surpreendam, gente e coisas que me apeteçam e que não me tragam problemas. Basta os do quotidiano, quando quase definho nessa coisa de sobreviver. Então pesco. Insisto. Penso, logo existo. Lanço engodos e me dá prazer, pois os peixes atendem a esses chamados mesmo sabendo que são armadilhas. (Tenho uma tese boba que sustenta que todo peixe fisgado, não sabe o que são armadilhas) Assim mesmo se entregam. Lutam nervosos e imprevisíveis, mas raramente escapam. Acabam em minha mão, que os solta de novo... Seu destino é buscar engodos.
II
Brinco de garimpeiro, em certos momentos de ócio. Afundo bateias nos riachos de minhas planícies, faísco pepitas, despejo rejeitos. Refino o que reluz. Quantas águas haverei de vasculhar nesses meus parcos momentos de ócio? Mas os reservo apenas para coisas assim, maiores que a mesquinharia do repetir-se da maioria dos meus dias.
III
E é assim que gosto de olhar horizontes, especialmente em oceanos. Sento-me a bisbilhotar com o binóculo. Procuro veleiros insuspeitos, amigos aguardados com ansiedade, na expectativa de que voltem do mar e aportem. Então os vislumbro nos horizontes desse oceano de meu ócio. Tiro as sandálias de meu dia-a-dia e os recebo para que me contem as novidades dos lugares em que não fui, e venham se refestelar nessas areias em que eu os esperei. E não há pressa nesse meu momento de ócio, pois o reservo para coisas amenas, como o chegar de um barco. Um barco que saiu do horizonte que eu adivinhei, que veio do nada que eu pensava que havia e que aflorou das espumas distantes que eu avistava.
 IV
Meu ócio é mais ou menos assim, pleno de novidades que surgem desse nada que é. Não quero empatar meu tempo, pois não sei quanto dele resta. E é por isso que eu, nos meus momentos de ócio, me aventuro em cavernas de pensamento, escalo morros imaginários, inatingíveis, reviro as amplidões de minhas planícies, cavalgo, rumino existências e cravo conquistas. Fecho os ouvidos aos ecos indecifráveis. Não permito que em meus momentos de ócio existam coisas mesquinhas. Só o indispensável me basta. E sempre pesco, pois existo!

***
Menção Honrosa no Prêmio Flerts Nebó (prosa) 2017/2018 - Sobrames-SP



4.8.18

Aparências















Ainda que não houvesse,
além do azul distante,
as pinceladas tímidas
de nesgas ébrias,
vagando na distância
como pontos de referência...

Ainda que as formas reticentes, 
adejando em liberdade sem rumo,
não fossem apenas etéreas manchas
hesitando no bojo da cálida brisa...

Ainda assim os olhos vasculhariam,
em devaneio, os ilimites do infinito, 
procurando feitios semelhantes, 
quase tocando as visões gaseiformes,
tomando por Juno toda nuvem que vagueia, 
como se fossem nuvens de pegar com a mão

***
Publicado na Coletânea do I Concurso de Poesias - São Paulo - 2000 - Editora Aricanduva
Publicado no livro "Pipas no caminho - e outros escritos guardados no tempo" - Rumo Editorial - 2018 - São Paulo

18.5.18

Sombras



Uma luz atravessa a janela entreaberta
esparrama o silêncio
que é tudo.

Na mudez solitária de um quarto vazio
há medo da sombra
que é nada.

Há um toque calado do claro atrevido
que vem da janela.
Quietude.
        
Espairece o vazio da densa agonia
do medo incontido
que afoga.

Renasce a coragem e vem um alento
da luz da janela
que é lua.

***
Publicado no livro "Os Premiados - Prêmio Bernardo de Oliveira Martins"
Rumo Editorial-SP - 2018
*Vencedor do concurso de mesmo nome, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de SP -  edição 2016/2017
Publicado na Antologia "Vamos triunfar" - Editora Pragmatha - SP - 2020

25.9.16

Em três palavras



Contarei algumas histórias. Apenas frases curtas. Em três palavras. Serão histórias rápidas. Somente três palavras. Serão histórias felizes? Quem saberá dizer? Talvez não sejam. Uma aventura apenas. Uma singela brincadeira. Pode ser perigosa. Ou apenas divertida. Vamos ao ponto.
            
Maria amava João. Poderia começar assim. Mas não será. Então começo diferente. João amava Maria. Ela não ligou. João ficou triste. Ela nem aí. Maria sem coração. João sem esperança. Esse amor acabou. Fim desta história.
            
Mais uma história. Olhei pela janela. Chovia lá fora. Tudo muito molhado. Eu olhando goteiras. Apreciando aquela molhadeira. Por dentro, diferente. Apenas meio frio. Talvez muito seco. Precisando uma companhia. Sozinho neste aconchego. Precisando um cobertor. Uma triste solidão. Fim d'outra história.
            
Uma nova tentativa. Somente três palavras? Sim, somente três. Insólito desafio, ameaçador. Como contar algo? Há história assim? Tão poucas palavras? Um enorme desafio! Como ser feliz? Como ser triste? Missão muito complicada. Impossível contar assim. Que faço agora? Desistir do desafio? Tentação: eu resisto!
            
Mesma história anterior. No mesmo cenário. Abri minha janela. Há luz agora. Um dia ensolarado. Pássaros cantam felizes. Cores são radiantes. Continuo sem  companhia. Na mesma solidão. Que adianta amanhecer? Chuva ou sol. É mesma coisa. Sempre será assim? Apenas três palavras? Não dá certo! Assim não vai. Nenhuma história aguenta. Ninguém se sustenta. Não há felicidade. Busco final feliz. Vou tentar novamente. Será última vez.
            
Maria amava João. João amava Maria. Foram eternamente felizes. Eu amo chuva. Ela é necessária. Ela é companheira. Chuva me alimenta. Agradeço por chover. Eu amo sol. Ele é agasalho. Ele me aquece. Agradeço pelo sol. Não estou sozinho. Tenho quase tudo. Aliás, tenho tudo. Escreverei minha história. Será muito simples. Só preciso palavras. Mais que três? Menos que três? Ainda não sei. Quero apenas felicidade. Apenas isso basta. Com quantas palavras? Com quantas quiser!  Felicidade é viver. Lá vai ela! Então, Carpe Diem! Pronto, ai está! Uma história feliz! Em três palavras. Muito obrigado, Senhor!

Marcos Gimenes Salun. (Autor desta heresia). Dez de junho. Dois mil dezesseis.

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Publicado nos Anais do XXVI Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
realizado em São Paulo de 22 a 24 de setembro de 2016.
RUMO EDITORIAL - SP - 2016
Segundo lugar no concurso de prosas do evento  

Algumas coisas sobre ajoelhar e rezar



Cumprindo uma rotina que há muito eu realizava, fui visitar minha mãe numa tarde de sábado. Ela, já viúva e morando sozinha, exceto pela presença do Gordo, um velho e sossegado gato, tão velho quanto minha mãe poderia desejar que fosse, sempre esperou minha visita nas tardes de sábado. Na medida do que eu entendia ser "possível", eu cumpria o ritual das visitas. Obrigação de filho. Quando não dava para ir, lá ficava minha mãe, apenas com a companhia do velho gato.
            
Sempre achei que gatos e pessoas pudessem conviver muito bem nos propósitos dados pelo Ser superior que nos criou e nos conduz, quais sejam: um faz companhia ao outro até que, em algum dia, incerto e inesperado, um deles se vai. E aí, pronto! Acabam-se os desígnios da providência divina e deixam de existir deveres e obrigações, acabam as amarras e interrompe-se a cumplicidade entre gatos e pessoas. É nesse momento que gatos e humanos se separam, pelo menos temporariamente. Tanto quanto sucumbem as pessoas, assim há de acontecer com os gatos, que se entregam ao desígnio final, que é a morte, apenas ressalvando-se a questão do tempo em que isso ocorre.

Naquele sábado eu não me lembro como estava me sentindo: se obrigado ou desatento pela rotina do filho que visitava a velha e solitária mãe e seu velho gato; se saudoso do gato e de minha mãe; se simplesmente mecanizado pela insistência do tempo e da obrigação; se apenas cumprindo um ritual sem sentido e enfadonho, imaginando alguma punição ou consequência por minha eventual omissão, num possível dia do juízo que possa haver... Sinceramente não sei.  Naquele sábado eu só fui visitar minha mãe, como sempre fazia.

Ela não me pareceu tão bem naquela visita, como aliás poderia não estar tão bem em outros tantos sábados que a visitei antes, e eu nada percebera, talvez porque eu não tivesse prestado tanta atenção como naquele dia... Também não sei. O gato continuava, como sempre, num canto qualquer da casa, atento e vasculhando apenas as minúcias do silêncio, espreitando a solidão de cada móvel que permanecia estático, alheio à poeira do tempo que se insinuava. Lançou-me aquele olhar sábio e displicente e, com sua alma ingenuamente felina, cerrou novamente os olhos. Ele reinava em sua casa, na casa de minha mãe e que era dele também.

Aparente e rotineiramente tudo andava bem naquela visita de sábado à tarde. Contudo, houve um infarto naquele dia. Gaguejando ao telefone, chamei o SAMU. Eles vieram rapidamente, mas não o suficiente para que pudessem fazer algo. Não havia mais tempo para quase nada. A viatura nos levou ao pronto atendimento de um hospital. Nada mais a fazer. Minha mãe tinha partido, e o gato ficou na casa, solitário e sem saber que sua única companheira não estaria mais disponível.
            
Lembro-me que nesse dia eu me ajoelhei para rezar e pedi a Deus que não levasse embora, bem naquele momento, a minha querida mãe. Foi então que eu me dei conta que já fazia algum tempo que eu deixara em segundo plano o hábito de ajoelhar e rezar. Fosse para pedir ou agradecer, a oração me acompanhara por um bom tempo de minha vida, até que, provavelmente, tornara-se uma rotina e eu a relegara ao esquecimento. Não que eu houvesse perdido minha fé no Criador. Talvez tenha sido apenas o meu comodismo de achar que Deus tivesse obrigação de fazer tudo por mim. Então eu me senti frágil e infiel naquele momento em que temia a perda iminente e me ajoelhei. Como eu deveria pedir algo a um Deus que ficara esquecido num canto da minha vida? Por que eu deveria esperar d'Ele alguma coisa?

A partir daquele dia, hoje eu sei, fui instado a refletir um pouco mais sobre determinadas coisas. Era apenas o curso da existência, mas eu havia sido pego totalmente distraído. Num átimo, perdi minha mãe, o velho Gordo perdeu seu referencial. Desapareciam alguns laços e vínculos que antes me pareciam inabaláveis. A vida mudava para todos, indelevelmente. O Gordo perdeu sua provedora e companheira. E eu perdia naquele dia algo que não me dava mais conta de que um dia perderia.    
            
Esta não fora a primeira vez e nem seria a última em que me era dada a oportunidade de, ao menos por alguns instantes, poder refletir um pouco mais sobre o significado das coisas que não dependem apenas de ajoelhar, rezar e deixar tudo para que Deus resolva. A primeira vez foi quando perdi meu pai. Tudo muito parecido, pois a morte é sempre muito igual em seu propósito de tentar romper vínculos. Enfim, são desses fatos marcantes que se acaba tendo um aprendizado precioso. É isso o que me leva a transmitir a quem puder se interessar nas lições daquilo que recebemos sem ficar esperando sempre pela Providência Divina. Não que possamos, com isso, mudar os desígnios misteriosos da Grande Arquiteto do Universo. Na verdade, o mais precioso que possa haver seja entender o silencioso trabalho da maturidade na medida em que vai lapidando a nossa pedra bruta interior. Assim que houver oportunidade eu lhes direi sobre outras coisas. Por enquanto fica apenas um convite à reflexão.
            
Ah! Apenas para constar: o velho e pacato Gordo também se foi, só que numa manhã de segunda-feira e muito tempo depois. Após a morte de minha mãe nós o trouxemos para nossa casa, onde ele também reinou, sempre silencioso e retribuindo com gratidão e fidelidade à companhia de seus novos parceiros de jornada. Até naquele dia onde o propósito de sua presença também já havia sido cumprido.   

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Publicado nos Anais do XXVI Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
realizado em São Paulo, de 22 a 24 de setembro de 2016.
Rumo Editorial - São Paulo - 2016
Terceiro lugar no Concurso de Prosas do evento

1.5.16

Uma janela para o jardim



I
Eu estava com febre alta. Levaram-me para o hospital. Não sei quem me atendeu, nem como cuidaram de mim. Eu estava doente, muito doente. Quando se está doente não se sabe bem o que acontece com a gente. Fui internada, eu acho, pois todo mundo que está assim é internado.

II
A enfermeira do meu quarto era loira. Os cabelos eram lisos como os de minha avó. Só que os de minha avó eram brancos. Estranhei os cabelos da enfermeira que cuidava de mim por causa da cor. E minha febre era alta, a maior das febres. Não entendi muita coisa em volta de mim: a cama alta, as paredes azuis, a enfermeira bonita de cabelos lisos e loiros, diferentes dos de minha avó... E tinha aquele tubo que pingava, pingava, pingava...

III
Escutei um passarinho. Vi uma janela. Era tão pouco o que eu podia fazer... Quase nada. Não sentia mais o calor da febre. Não sabia direito onde estava. Não sabia direito o que acontecia comigo. Ouvi um passarinho. Sabia que havia uma janela.

IV
Nem sei quanto tempo passou. O tempo passa esquisito nessas ocasiões. Às vezes ele acelera tanto que nem dá pra ver nada direito. Às vezes ele vai tão lento, tão lento... Nem sei bem como é que ele passa. Mas passa! Tempo foi feito para passar.

V
Ouvi a voz de um menino! Tenho certeza que ouvi! Parecia tão perto... Acabei brincando com ele. Brinquei de qualquer coisa, só pra passar o tempo. Não importava muito. Brinquei. Brinquei de ver uma janela e de ouvir um passarinho. Brinquei de alisar os cabelos de minha avó. Brinquei de ver minha avó de cabelos loiros, com uma seringa na mão. Brinquei que estava morrendo de medo. Imagina se eu ia ter medo de minha avó? Era só brincadeira com aquele menino que eu ouvi. Menino? Cadê você?

VI
Minha avó trouxe um monte de amigos. Os amigos de minha avó olharam meus olhos lá no fundo. Os amigos de minha avó mandaram eu botar a língua pra fora. Ahhhh! Minha avó não estava sendo muito legal. Tinha algumas coisas que doíam muito.

VII
Hoje não ouço quase nada. Talvez os passarinhos. E aquele menino, sabe aquele menino? Sumiu! Mas ainda posso ouvir passarinhos e a voz do menino que sabia brincar. Só não consigo enxergar nenhum deles. Onde estão meus passarinhos? Cadê o menino? E essa luz? Será que vem da janela que eu já sei que não existe mais?

VIII
Hoje não quero dizer nada. Minha avó não veio, fecharam minha janela.

IX
Acho que dormi demais. Que horas são? Os passarinhos continuam cantando do lado de fora de minha janela. Oi, vó! Oi, Deus!
                         
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Prêmio Flerts Nebó – 2013/2014
Publicado na "Antologia Paulista" - volume 10 - Rumo Editorial - SP
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21.2.16

Atiraram no Lorival











Dona Zulmira, vizinha de frente:
         "Olha, Deus que me perdoe o que eu vou dizer! Não tenho nada com a vida dos outros. Eu não sou de me meter, mas eu acho que essa tal de Dedé não é flor que se cheire, viu, doutor! É um entra e sai naquela casa, que... Olha! Vou te falar um negócio! Parece um nãoseiquê... Sábado passado mesmo, você viu né, Olavo? Sábado passado foi um movimento danado na casa da Dedé... E cada tipo mais esquisito, Deus que me perdoe! Eu não gosto muito de ficar falando essas coisas, porque senão o Doutor vai pensar que eu sou fofoqueira como umas e outras por aí... Eu não! Eu só falo do que eu vejo e do que eu tenho certeza! O resto não é da minha conta! O Olavo me conhece bem, não é, Olavo? Eu não vou fazer queném a inchirida da Ca­tarina, do 32, que vive se metendo com a vida dos outros. Eu não! Então, doutor... Como eu estava falando, no sábado passado eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, uma zanzação de gente lá na porta da casa da Dedé, que dava até medo! Era carro que chegava, carro que saía, roncando os pneu, gente que entrava, gente que saía... E um barulhão, que só vendo! Sabe essas música americana, que ninguém en­tende nada? Então... no último volume, o senhor tinha que ver! Parecia um... Deus que me perdoe! Deixa pra lá, vai. Eu já disse que não gosto de ficar falando da vida dos outros. Então! Mas aí, né, quando foi lá pelas duas da madrugada... Já era mais que duas, né Olavo? Sabe como é, a gente deita cedo, mas fica a noite inteira acordada quando tem uma bagunça dessas, que não deixa a gente pregar os olhos... Pois é! Lá pelas duas da madrugada, ou um pouco mais, eu ouvi uma gritaria, um zumzumzum que dava até medo! Eu me assustei... Eu nem quis olhar pela janela, porque fiquei com medo. Chamei o Olavo, mas o Olavo parece que não liga quando eu falo! Ou não liga ou tá ficando surdo, porque com a bagunça que estava, e ele não me ouvir nada!... Só surdo mesmo pra não ouvir. Bom...Eu sei dizer que passei a noite inteira acordada. Mas eu não vi nada, não senhor. Se eu falar para o senhor que eu vi quem atirou, eu vou estar mentindo, e mentira comigo não tem vez! Desconfiar a gente desconfia, sabe como é, né, doutor.. Eu até acho que foi um cabeludo, que estava de calça rancheira desbotada e com um rasgo no joelho... Mas entre eu achar e ter sido ele mesmo... Eu não vi nada. Só o entra e sai, e assim mesmo até na hora em que eu fechei a janela e fui deitar. Depois só ouvi a barulheira que eu estou falando para o senhor. Não é, Olavo? Se eu tivesse visto, eu falava. Mas como não sou de ficar  conchetando como umas e outras por aí, que só abre a boca pra falar da vida dos outros... E depois, foi bem feito o que aconteceu! Isso é praquela cretina da Catarina não ficar se metendo com a vida dos outros..."

Binho, amigo da escola:
"Eu tava lá sim, ó. A Dedé convidou a galera toda, tá ligado? Tava o maior barato, doutor. Tinha que ver!  Altos sons, tá ligado? A Daysinha levou uma pá de CD importado que o velho dela trouxe dos Isteits, tá ligado? O velho dela vai pra América todo mês. Meu! Maior son­zão, cara... Putz! Pauleira mesmo! Mas não rolou nada lá não, sacou? Só tinha um whiscão e umas cerva que o pessoal fez vaquinha e comprou, tá ligado? A galera tava maneira porque a mãe da Dedé deixou tudo recomendado, sabe como é? Nada de sair pra umas diferentes, tá ligado? A gale­ra topou, senão não ia dar festa. E aí rolou tudo maneiro... Tinha uns caras que não era do pedaço, mas tudo gente boa. Convidado da Taninha e do Kiko. E se é convidado de alguém da galera, é gente nossa, tá ligado? E depois, essa de o pessoal aí estar dizendo que tava uma zoeria não tá com nada, tá sabendo? O som nem tava no último volume! Se puser o aparelho da Dedé no último... Meu!...Nem te falo, cara... Tava tudo muito maneiro, tá ligado? Só quando rolava um musicão que a galera curte mesmo de montão é que a gente aumen­tava um pouco... Depois, não! Tudo no comporta­mento, tá ligado.  Eu fiquei curtindo um som o tempo todo. Não sei quem atirou, não senhor. Acho que não foi ninguém da galera, tá ligado? O pessoal só curte uma... Não é de fazer esse tipo de zueira não, tá ligado? Pô! Maior roubada, meu! Só fiquei sabendo o que tinha rolado no dia seguinte, quando a Dedé falou. Aí eu fiquei injuriado, ó!  Agora, o senhor vê aí... Eu tava lá, mas não fiz nada! O senhor que vê aí, tá ligado?"

 Olegário, tio de Dedé e vizinho do lado direito:
"Eu não me incomodo que os meninos fiquem até as tantas se divertindo. Já estou acostumado. Eu gosto muito da juventude. Já fui de fazer minhas farras, quando era mais moço. Hoje em dia, não! Mas nos bons tempos... O que mudou foi o ritmo, os aparelhos de som mais potentes... No meu tempo se dançava muito bolero, daqueles de dançar de rostinho colado, o senhor co­nhece... Perfumes de Gardênia... Tinha samba-can­ção... Quando começava um samba-canção, não tinha par que ficava sentado... Depois que eu conheci a patroa, a gente ia junto nos bailes. Até casar. Mas de­pois que nós casamos, não saímos muito mais... Só de vez em quando... E depois tem outra: o senhor acha que ficava bem eu impli­car com a garotada, com minha sobrinha? Deixa eles que se divirtam, enquanto são jovens... Depois que começa a responsabilidade, os coitados não vão ter mais tempo pra isso... E depois, a Dedé é uma menina boa, estudiosa... Merece se divertir... A mãe dela, minha irmã Ana, pediu pra que eu tomasse conta da meninada, desse uma olhada de vez em quando... Mas eu não ia ficar lá no meio deles o tempo todo, né, doutor! Não tinha nem cabimento, numa festa da juventude, eu lá metido... Eu não vi quem atirou. E nem podia ver, se não fiquei lá o tempo todo. Mas tenho quase cer­teza que não foi nenhum dos amigos da Dedé. Eu acho que alguém fez essa safadeza para por a culpa nos meninos, só por causa do barulho. Eu acho que quem fez isso é alguém que não aproveitou a juven­tude, o senhor não acha, doutor?"

Dedé:
"A gente só tava comemorando. A Jujuba entrou em odonto na USP. Não é pra comemorar? O Tio Olegá­rio viu que não tinha nada de mais. Foi minha mãe mesmo quem pediu pra ele olhar. O senhor acha que a gente ia ficar zuando na minha própria casa?  E de­pois, atirar logo no pobre do Lorival, que nunca fez mal pra ninguém! Sem essa! Eu até já falei com a Dona Catarina, que me conhece, conhece minha mãe e conhece o meu pai... Mas ela está tão revoltada com o que aconteceu com o Lorival, que não quis nem saber de conversa. Disse que era pra eu me entender com o delegado. E eu juro para o senhor, doutor, por tudo quanto é sagrado: jamais eu ia fazer ou admitir que alguém fizesse isso com o pobre do Lorival. Foi pura coincidência atirarem nele justo no dia da festa lá de casa. Mas não foi ninguém de lá não senhor. Isso eu juro por tudo quanto é sagrado. Se o senhor quiser me responsabilizar pelo barulho do sábado passado, eu até assumo, apesar de não achar que estava isso tudo... Meu pai já me comeu a alma... Minha mãe já me falou um monte... Ainda mais quando a Dona Catarina veio tomar satisfação por causa do Lorival. Quem atirou no Lorival deve ter sido alguém sem alma... Acha? Fazer isso com a pobre criatura, que não incomoda ninguém..."

Olavo, marido de Dona Zulmira:
"O Doutor Delegado vai me desculpar, mas não tenho muito a dizer. Só sei que teve uma festa na casa da frente, e que acabou tarde. Não sei quem foi ou quem deixou de ir, porque isso não é da minha conta. Tam­bém não vi quem atirou ou quem deixou de atirar. Não conheço nenhum Lorival... A minha mulher é que fica mais em casa e sabe mais coisas da vizinhança. No sábado dessa festa, eu me deitei cedo e dormi. Não vi nada..."

Ana, mãe de Dedé:
"Eu bem que avisei a Dedé que não queria bagunça lá em casa. Ainda mais bem no dia em que eu e o pai dela não íamos estar em casa. Fomos no jantar anual da firma em que o meu marido trabalha... Mas ela insistiu tanto, pobrezinha! Disse que só iam comemorar porque a Jujuba tinha entrado na faculdade. E eu só concordei quando o meu irmão Olegário disse que vigiava, que eu podia sair tranqüila. E agora, veja o senhor, que vergonha... Ter que vir até aqui na delegacia dar explicação. Também, a Dona Catarina precisava ter dado queixa? Atiraram no Lorival, sim, mas... E daí? Se o senhor quer saber, não é a primeira vez que atiram no Lorival. No mês passado, aconteceu a mesma coisa, e a Dona Cata­rina não veio dar queixa... Desta vez, só porque tinha uma festinha dos meninos lá em casa, ela já achou que foi um deles... E da outra vez? Quem atirou no Lorival da outra vez? Também aconteceu numa noite de sábado, e não tinha ninguém na minha casa! Isso é que me deixa indignada com a Dona Catarina. Ela devia ter prova primeiro, antes de acusar os outros... Olha a confusão que fica agora: todo mundo tendo que vir aqui dar explicação... E, de mais a mais, lá em casa não tem criança de fralda... E na festa da Dedé tam­bém não tinha, pois isso eu  já averigüei direitinho..."

O Doutor Delegado:
"Da outra vez que atiraram no Lorival, foi com a mesma, digamos, com a mesma arma? Sei, sei...Está bem! É só!"

Dona Catarina, a do Lorival:

"Está bem, doutor. Eu retiro a queixa contra a família da Ana, vou pedir desculpas pra ela, pra Dedé, pra todo mundo... E caso encerrado... A menina dela foi falar comigo no dia seguinte, mas eu estava tão ner­vosa com o que aconteceu com o meu Lorival, que não quis nem saber. Acho que fui um pouco precipi­tada em ter vindo dar queixa. As duas vezes acerta­ram em cheio o coitado do Lorival. Se o senhor sou­besse a catinga que ficou... O pobrezinho tava todo melecado e arrepiado. Tive que dar banho nele com a loção de barba do meu marido, e ainda assim não saiu o cheiro. Ainda hoje, se o senhor for lá em casa, vai ver o coitadinho como ficou... Agora que o senhor tá me falando que quem atirou foi o filhinho do casal que mora no quarto andar do prédio ao lado, eu não sei nem o que dizer... Eu só acho que os pais deveriam prestar mais atenção na criança... Deixar o menino ficar atirando cocô pela janela... Onde é que já se viu? Quantos anos tem esse menino, doutor? ...Três? Quatro?... Que coisa! Mas, doutor, me diga o senhor que é mais experiente nessas coisas de investigação: será que não foi o pai ou a mãe do menino quem atirou o cocô do menino pela janela? Pra acertar bem na cabeça do meu papagaio!... Acha que o menino ia ter uma pontaria dessas? Olha, não sei não, heim doutor! Não é melhor o senhor investigar mais um pouco, doutor?
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*Premiado no II Prêmio Escriba de Contos - Piracicaba - 1999 - 11º lugar
*Publicado no livro "II Prêmio Escriba de Contos" - Secretaria da Ação Cultural de Piracicaba - SP -1999
*Publicado no livro "O Encantador de Passarinhos e outras histórias" - Rumo Editorial - SP - 2011
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3.10.15

Aportes















Minha fuga é nesses andaimes cibernéticos,
Alicerces na beira-mar
Efêmeros sustentáculos que as ondas beijam
Incertamente,
De quando em sempre,
Quase ao acaso.

Néscio que sou dos meus versos
Não achei lugar melhor para aportar.
Aqui deposito minhas palavras,
Arroubos de mim e do mundo,
Clarividências, assombros,
Tudo.

Fiquei nesse vai e vem que se arrasta
E carrega, cavouca sem pressa
O meu túmulo,
Coisa pra se resolver com o mar
Com a onda, com o vagar que sou.

Meu porto é aqui, nesses andaimes

Ancorado à beira de mim, num todo.
__________________________________________
Primeiro lugar no VII Concurso Literário Nacional
Sobrames-BA - julho de 2002
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18.9.15

Visitando la Chascona















Foi no ano em que nasci que eles começaram a construir aquela casa cheia de escadas, passagens secretas, portas pequenas e teto baixo, lembrando o interior de um navio. Por aquele tempo Pablo ainda mantinha em segredo o acalorado romance que iniciara com Matilde na primavera de 1946, quando se encontraram pela primeira vez em um concerto no Parque Florestal de Santiago.

Certo dia, caminhando de mãos dadas pelas ruas do bairro Bellavista eles se depararam com aquele terreno à venda, aos pés do cerro San Cristóbal. Ficaram encantados com a água que corria pelo terreno, "escrevendo em seu idioma entre a folhagem das framboesas que guardavam o lugar com sua ramagem sanguinária", como disse Pablo algum tempo depois. Compraram o lote de terra e encomendaram a construção a Germán Rodríguez Arias. Quando olhou para aquele terreno tão inclinado e íngreme, o arquiteto catalão imaginou o castigo que teriam os habitantes daquela casa, condenados a subir e descer escadas. Ele imaginou a casa orientada para o sol, mas Pablo a preferiu com vistas para a Cordilheira. Ao final, foram tantas as intervenções do poeta, que do projeto inicial pouco restou.

Quando ficaram prontos o living e o pequeno dormitório, ali foi morar Matilde, sozinha e extremamente zelosa pelo ninho de amor secreto que aos poucos se instalava, cavando com as próprias mãos o chão onde agregava ao jardim novas mudas de paixão em forma de árvores e flores. E assim foi até fevereiro de 1955, quando Pablo colocou um fim em seu casamento com Délia e mudou-se definitivamente para La Chascona, que aos poucos ia ganhando novos cômodos. Estes surgiam de forma pouco convencional, segundo a sensibilidade e a inspiração dos amantes. De uma simples janela, uma poltrona e um quadro que gostava especialmente, Pablo fez surgir um novo cômodo, lembrou certa feita o arquiteto Carlos Martner, que dedicou-se à casa a partir de 1958.

Enquanto caminhava vagarosamente e em silêncio pelos cômodos eu ia me deparando com a presença dos amantes em cada objeto e em cada obra cuidadosamente dispersos pelos ambientes. O quadro em que Diego Rivera perpetuou a imagem dupla do rosto de Matilde e sua cabeleira ruiva e volumosa onde está também o perfil de Pablo, parece lembrar a todos a razão do nome daquela casa tão peculiar. Por todo canto e sobre cada móvel a poesia está presente, ora num arranjo, ora num verso rabiscado pelas mãos de Pablo. O enorme urso de pelúcia ainda guarda silenciosamente a intimidade do leito dos amantes. A sala de jantar com sua louça colorida permanece pronta e à espera de convidados. Assim também está o bar de verão, com o imenso leque cheio de retratos e recordações na parede atrás do balcão e o enorme e debochado par de sapatos displicentemente deixado no chão.

Em 23 setembro de 1973 Pablo morreu, dias depois do golpe militar que depôs Alliende. Foi velado por Matilde e alguns poucos amigos no living com vidros quebrados de La Chascona, a casa que o poeta tanto amou, e que naquele momento se encontrava lamentavelmente saqueada e vandalizada pelos ecos da revolução. Para que saísse o féretro foi preciso colocarem tábuas sobre a lama que encharcava tudo. Contudo, La Chascona, que parecia ter morrido também naquela ocasião, ressurgiu como Fênix, graças à persistência, paixão e dedicado trabalho de Matilde, que ali continuou morando até sua morte, em 1985.

Minha rápida e efêmera visita também já estava terminando. Depois de deter-me alguns minutos mais apreciando obras de arte, uns poucos livros, além de inúmeras medalhas e prêmios, dentre eles o Nobel de Literatura de 1971, guardados cuidadosamente numa estante, deixei a última sala de La Chascona.

Com alguma melancolia atravessei a porta de saída que dá acesso à sossegada e bucólica calle Fernando Marquez de la Plata. O silêncio parecia dizer-me que os vizinhos do casal ainda dormiam àquela hora da manhã. Caminhei mais alguns passos e votei-me para olhar ainda uma vez para a fachada de La Chascona. Pablo Neruda e Matilde Urrida, abraçados numa das sacadas, acenaram-me sorridentes e felizes. Acenei de volta. Depois ajeitei o cachecol, meti as mãos nos bolsos do casaco e desci até a Plazuela Camilo Mor de onde enveredei novamente pelas ruas geladas e inundadas pelas avermelhadas folhas dos plátanos de Bellavista.

Santiago, 11 de julho de 2015

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"Embora isto não interesse a ninguém, somos felizes (...) Matilde canta com voz poderosa as minhas canções. Eu dedico-lhe quanto escrevo e quanto tenho. Não é muito, mas ela está contente. Vejo-a agora a enterrar os sapatos minúsculos na lama do jardim e, em seguida, a enterrar também as suas minúsculas mãos na profundidade da planta. Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores, todos os frutos fragrantes da felicidade."
Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"

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Apresentado na XIII Jornada Médico-Literária Paulista - 27 a 29.08.2015 - SP
Terceiro lugar no Concurso de Prosas do evento
Publicado nos Anais do Evento. Baixe aqui:
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19.7.13

Curativos emergenciais para a alma - sem efeitos colaterais - sem contraindicação

















Carrega Dores
Cada um tem seu próprio fardo nesta vida. E cada um sabe o peso que ele tem. Sempre que encontrar alguém à sua frente, com a carga de sua vida nos ombros, repare no tamanho e pense no peso que esse fardo pode ter. E só então pense no que vai dizer a respeito do teu.

Bálsamos
Um lenitivo pode amenizar dores e propiciar conforto para um lapso de sofrimento que alguém não esperava sentir.  O alívio dado à aflição é sempre bem-vindo. Não porque o consolo seja, em si, o bálsamo que se esperava nesse momento angustiante que a dor contém. Mas simplesmente pelo gesto de apreço que se pressupõe.  A diminuição da fadiga que esse gesto infringe à dor é por si o grande alívio imediato que se possa querer. Muitas vezes essa cura mágica está em pequenos momentos em que se pode ouvir alguém desabafar suas dores, extravasar seus sentimentos aflitivos ou chorar algumas poucas lágrimas que só quem verte sabe a razão. Bálsamos são assim mesmo. Quase sempre se confundem aos placebos. Só que são efetivamente muito mais eficazes e valiosos.

Evidências
Você descobre algumas verdades incontestáveis quando se encontra em situações um tanto diferentes da normalidade de teu dia a dia. Seja lá por que motivo for: doença, desemprego, baixo astral, depressão, angústia ou carência emotiva... É muito provável que nesses momentos, que são os que você mais precisa de apoio, ajuda ou apenas de uma conversa motivadora, você veja as pessoas se distanciando, te evitando e sumindo. Seja lá que motivo ou desculpa elas tenham para isso é essa a impressão que você terá.  Contudo, em situação oposta, se você estiver dando uma festa, por exemplo, é bem possível que de você se aproximem muitas pessoas, até mesmo as que estiveram ausentes em teus momentos de necessidade. Por essas constatações acho que é muito prudente você não contar ou catalogar amigos ou pessoas queridas nos momentos de exceção, pois nos dois picos você estará vulnerável e sujeito a julgamentos precipitados e normalmente errados. Espere tudo voltar ao normal. Mas em qualquer caso, sempre considere que as pessoas que realmente te querem bem hão de estar por perto e disponíveis em qualquer circunstância. Para o que der e vier.

Voluntariado
Você já pensou em dedicar teu pensamento positivo para alguém que esteja sofrendo? Dizem que os bons pensamentos são condutores de extremas benquerenças, que têm o poder da cura e do milagre. Então tente e deseje que teu pensamento de bondades e com poderes milagrosos seja decisivo no avanço  e engrandecimento da vida das pessoas que você ama. Só isso já bastará para que os degraus desta vida sejam menos aporrinhadores e dolorosos.

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Publicado na "Antologia Paulista"
Rumo Editorial - São Paulo - 2015
Vencedor  do desafio SUPERPIZZA com tema Saúde
Sobrames-SP - 16.05.2013
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Veja tradução para o espanhol clicando AQUI 

2.2.13

Meditações acerca de alguns valores e princípios






















Ontem participei mais uma vez de um plenário do Tribunal do Júri, onde atuo há alguns anos. Como sabem, são levados a júri popular os réus acusados de crime contra a vida. Por ali desfilam personagens que habitam um mundo que muitas vezes sequer são imaginados pelos cidadãos comuns, assim entendidos aqueles que estejam num patamar aceito como de razoável normalidade dentro da convivência social.

Estes personagens a que me refiro ora são réus, ora são vítimas. Contudo, e não importa de que lado estejam, o revelar de suas histórias e de suas trajetórias de vida ou de morte durante os debates que se desenrolam entre defensores e acusadores sempre envolvem de forma contundente, com seus dramas, os tais cidadãos ditos comuns, aqueles de ilibada conduta e acima de qualquer suspeita que estão do outro lado dessa realidade sempre muito triste e cruel. Ali, sem dúvida nenhuma, é possível exercitar de forma intensiva a consciência e meditar longa e profundamente sobre qual é, afinal, o papel de cada ser humano no mundo e em relação à sociedade onde convive.

Por definição, o tribunal é o local onde um conjunto de magistrados ou pessoas administram a justiça. Trata-se da tentativa de fazer juízo sobre questões éticas, morais e sociais e por fim dizer onde está a culpa, se de fato ela existe, ou se o agente que atentou contra a vida de outrem tem ou não algum direito de merecer complacência. Trata-se de definir se o réu ali presente deve ou não ser privado de sua liberdade. Se ele é digno ou não de algum gesto de solidariedade por parte dos jurados que receberam a incumbência de condená-lo ou inocentá-lo. Aos membros do júri, tanto acusação quanto defesa pedem uma só coisa: que seja feita justiça no seu mais amplo sentido.

Para os ditos cidadãos comuns e de ilibada conduta que estão ouvindo pela primeira vez o drama horroroso e torpe em que se envolveram réus e vítimas, e do qual são coadjuvantes ativos ou passivos as suas famílias, as pessoas de seu círculo de relacionamento, suas células mais próximas, e de uma forma muito mais ampla, toda a sociedade onde estes interagem, há muitas sutilezas sobre as quais se deve refletir. Ao reviver essas tragédias que todos os dias se empilham nos tribunais à espera da famigerada justiça, acusadores e defensores esperam um hercúleo esforço da consciência daqueles a quem delegam sua realização. Cabe a esses ditos cidadãos comuns e de insuspeita conduta que exercitem todos os seus princípios morais, que incitem seu caráter de forma a dizer o que, afinal, é justo e direito em sua maneira pessoal de perceber e de avaliar tal situação específica.

Que justiça seria a "mais justa" para quem perdeu um familiar quando do atentado contra a vida, perpetrado pelo réu que está sendo julgado? A condenação deste a extensas penas satisfaria o desejo de justiça dessas pessoas? Ou será que esperam que a pena aplicada apenas vingue a morte já consumada de algum ente querido? Por outro lado, que tipo de justiça espera o próprio réu? Na certa a complacência dos cidadãos de ilibada conduta a quem, de certa forma, atingiu com seu ato. O perdão e a absolvição seriam a melhor caracterização da justiça para estes.

Se de um lado é grande verdade que a sabedoria humana esbarra ante as dificuldades de usar a liberdade, sem negá-la a seus semelhantes, por outro lado também é verdade que nem toda a sabedoria humana, por mais que se exercite as virtudes e os meandros da consciência, será capaz de distinguir os tênues limites entre o certo e o errado, entre o justo e o injusto. E no caso específico, entre prender ou soltar, entre condenar ou perdoar. Em suma, a sabedoria poderá ser a melhor conselheira, mas nunca dará a certeza de que tenha havido justiça.

Daí a importância de tentar aprimorar, em cada oportunidade e em cada minuto que a vida nos permitir, o brilho daquilo que seja considerado correto e desejável, quer seja do ponto de vista da moral, da religião, do comportamento social e do dever. Daí ser imprescindível exercitar tais elementos em cada ação, por menor que seja, e enaltecer todas as virtudes que possam nos distinguir como os tais cidadãos de ilibada conduta.

É preciso que se tenha em mente que todos nós pertencemos ao tribunal do júri quotidiano na medida em que cada pequena ou grande circunstância de nossa vida e de nosso dia a dia nos compele ao exercício dos princípios morais, éticos ou religiosos dos quais estamos imbuídos. Seja no momento de representar oficialmente a sociedade perante os que atentam diretamente contra a vida, assassinando a um semelhante, seja na hora de definir ações justas para os que, da mesma forma, atentam contra o seu semelhante por ações sub-reptícias de desvio de conduta, mesmo que destas não haja cadáveres aparentes.

E muito mais que isso, é preciso que não nos permitamos ser tão hipócritas a ponto de nos convencermos que realmente somos cidadãos tão comuns assim e de tão ilibada e irrepreensível conduta assim. Seria muita pretensão imaginar que também não precisamos da complacência e da solidariedade de nossos semelhantes em muitos momentos de nossas vidas em que ansiamos pela justiça. Não é verdade?
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Primeiro lugar no concurso de prosa do 
XXIV Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
11 a 13 de outubro de 2012 - Curitiba - PR
Publicado nos Anais do Congresso - Editora Nouvelle
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25.1.12

Cabeça de cachorro



















Tinha dias que ele ficava olhando o horizonte lá longe, um tempão. Cismava com o que haveria pra lá daquela fímbria que quase não se via. Imaginava grandiosidades e porcarias, tudo ao mesmo tempo. Besteira... Quando cansava da pasmaceira de olhar o longe que mal enxergava, tocava o rumo do pensamento pra outro canto. Sem querer, esfregava a palma de uma mão com o dedo indicador da outra e sentia a textura dos anos saltando. Calos duros, rachados alguns. De que adiantou tanto muque, tanta “bateção” de cabeça, tanto sofrimento? Mas não deixava marejar os olhos, pois disso já se cansara em tantos dias iguais a este, de pensar no distante. Então desviava o rumo do pensamento de novo, que era pra não embilolar o cucuruto com pensamento tão sem propósito.

Queria coisa melhor pra pensar. Coisa de maior importância e serventia do que ficar naquele terententém do dia inteiro e de todo dia, de toda hora e de um dia depois do outro, depois do outro e depois do outro. Muita coisa pra fazer, pra esquentar o juízo, pra responder sozinho, sem ninguém pra dividir prosa ou trabalho. E uma porção de gente pra dizer cadê isso, cadê aquilo, por que é que você não viu aquilo outro... Queria era coisa melhor pra pensar e pra se ocupar.

Mas então a caraminhola da cabeça já nem sabia que rumo tomar, pois vinha um gosto amargo subindo pela garganta e fazendo água azeda na boca. Saliva grossa que ele engolia, como fazia quase todo dia com tanto desaforo, tanta mal-querença e falta-de-jeito no trato, tamanha desavergonhice no procedimento, tanto fanatismo desmiolado, destramelice da boca, destemperança do juízo e falta de respeito, tudo coisa de engrossar saliva com gosto ruim. E era só desse tipo de coisa que um filho de ninguém tinha resolvido ocupar seu tempo, todo dia e toda hora.

Mas daí então passava a mão de calos e torturas na cabeça do cachorro que dormitava a seu lado. Fazia um carinho meio desajeitado, pois rudeza e carinho às vezes combinam. O cão abria um olho agradecido e deixava o outro continuar sonhando com suas coisas de cachorro. Pensava outra vez no longe que seus olhos não alcançavam. Desviava o olhar. A fímbria do horizonte continuava lá, na sua distância, e ao seu lado havia um cão que dormitava, indiferente à tarde.

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*Apresentado na 258a. Pizza Literária da SOBRAMES-SP
19.01.2012 
*Prêmio Flerts Nebó 2011/2012 - Melhor prosa
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31.5.09

Pequena Alegoria sobre a Miséria dos Homens















Não adianta apenas fechar os olhos se não formos surdos. Os gritos da tragédia formarão imagens muito mais aterradoras. E ainda que cegos e surdos, outros sentidos captarão a catástrofe. O ser humano caminha pelo perigoso arame suspenso sobre o vale abissal da ignorância, da pobreza espiritual e da miséria absoluta. Não há mais limites nem parâmetros. A realidade é um show de horrores. A decadência da espécie parece inevitável. O caos alastra-se com sofreguidão e instala-se com audácia. Cada vez mais acuada e temerosa, a sociedade se retrai e se aquartela em trincheiras cada vez mais inseguras.

Há um grito parado no ar. Há medo e sofrimento. Há revolta. Há pavor. É preciso puxar as rédeas do tempo e refrear esse turbilhão avassalador. É imperioso reagir com urgência à miséria que parece ser a causa de tudo e dizer não à falta de atitude de governantes corruptos, incompetentes e omissos que a tudo assistem com complacência. É impreterível não fomentar a mediocridade de big brothers. É premente deixar de alimentar os usurpadores de chapa branca. É absolutamente essencial lutar para acabar com todas as carências que se avolumam sobre nossas cabeças. É fundamental começar a educar. É indispensável começar a punir exemplar e adequadamente. É indeclinável estancar a hipocrisia. E é imprescindível nos precavermos com afinco e zelo, pois ainda assim não teremos certeza de poder evitar que a cada dia, a cada minuto, estejamos sujeitos a que nos arranquem de nossos frágeis e silenciosos esconderijos e arrastem nossas cabeças pelos campos.

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Menção Honrosa - Prêmio Flerts Nebó - 2006/2007
Publicado no Jornal "O Bandeirante" - n.168 - Maio de 2008
Publicado na "Antologia Paulista 2009" 

Rumo Editorial - São Paulo - 2009
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30.4.09

Moto-manhã























Há uma manhã
que preciso lembrar
e que me foge.
Busco e rebusco no meu agora,
no escondido do meu antes,
no claro de outras manhãs;
mas me escapa,
escorre pelos vãos da memória
e se dilui.

Há essa manhã,
no mais longe do meu eu,
que passou como um sopro morno
e que sem deixar pegadas
se perdeu,
ou se alojou n’algum canto escuro de mim.

Há essa manhã,
que não transparece
e que talvez por estar oculta
impulsiona o meu dentro,
e lubrifica engrenagens velhas
que a ferrugem do tédio comeu.

***

Palavras de Austregésilo de Athayde - Presidente da Academia Brasileira de Letras naquele ano, e um dos jurados do concurso:

"Rio de Janeiro, 23 de julho de 1981

Prezados Senhores:

Foi para mim uma satisfação o convite que a MESBLA me fez para julgar um concurso de poesia realizado entre seus funcionários.
Devo dizer também que tive uma surpresa, pois todos os concorrentes, sem exceção de nenhum, apresentaram merecimentos literários que me levam a incentivá-los na continuação dessa privilegiada atividade intelectual.
Dir-se-ia que, pelo gênero de trabalho que realizam em funções ligadas a interesses de outra natureza, não houvesse numa casa de comércio tantos poetas bem inspirados, cujos trabalhos são até mesmo dignos de colaborar numa antologia da mais rigorosa escolha.
Foi difícil chegar a uma classificação entre os concorrentes, embora cinco deles, pela necessidade de distribuição de láureas, merecessem figurar nos primeiros lugares.
É de justiça dizer que os competidores dessa justa literária estiveram todos à altura das suas esperanças e a mim cabe dar-lhes uma palavra de estímulo para que prossigam servindo às musas, na expectativa de que venham amanhã a publicar livros, enriquecendo, assim, o patrimônio poético do Brasil."

Austregésilo de Athayde
Presidente da Academia Brasileira de Letras


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Publicado em Mesbla Notícias - Ano 2 nº 8 - Julho/Agosto 1981
Premiado no I Concurso de Poesias de Mesbla Notícias - 3º lugar
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