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24.8.19

As boas sementes



(...) O caminho quase sempre é uma experiência incrível e muitas vezes supera os prazeres do destino. Essa eterna busca pela boa colheita que aflige quase todos pode ser um bom exemplo disso. Não é maldizendo as intempéries que se chegará à colheita  mais farta. Ao contrário, é melhor e mais prudente compreender os significados das adversidades, aprender com elas e precaver-se, para assim, usufruir melhor da lavoura que cuidamos. O mal e o bom fruto são  produzidos a partir da semente cultivada. Semear a melhor semente quase sempre resulta em colher bons frutos. (...)
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Publicado na Antologia Paulista Vol.12
Rumo Editorial - São Paulo - 2019

14.12.18

Ócio



I
Reservo meu ócio para coisas amenas, que não me tragam susto nem chateação. Busco lugares que me surpreendam, gente e coisas que me apeteçam e que não me tragam problemas. Basta os do quotidiano, quando quase definho nessa coisa de sobreviver. Então pesco. Insisto. Penso, logo existo. Lanço engodos e me dá prazer, pois os peixes atendem a esses chamados mesmo sabendo que são armadilhas. (Tenho uma tese boba que sustenta que todo peixe fisgado, não sabe o que são armadilhas) Assim mesmo se entregam. Lutam nervosos e imprevisíveis, mas raramente escapam. Acabam em minha mão, que os solta de novo... Seu destino é buscar engodos.
II
Brinco de garimpeiro, em certos momentos de ócio. Afundo bateias nos riachos de minhas planícies, faísco pepitas, despejo rejeitos. Refino o que reluz. Quantas águas haverei de vasculhar nesses meus parcos momentos de ócio? Mas os reservo apenas para coisas assim, maiores que a mesquinharia do repetir-se da maioria dos meus dias.
III
E é assim que gosto de olhar horizontes, especialmente em oceanos. Sento-me a bisbilhotar com o binóculo. Procuro veleiros insuspeitos, amigos aguardados com ansiedade, na expectativa de que voltem do mar e aportem. Então os vislumbro nos horizontes desse oceano de meu ócio. Tiro as sandálias de meu dia-a-dia e os recebo para que me contem as novidades dos lugares em que não fui, e venham se refestelar nessas areias em que eu os esperei. E não há pressa nesse meu momento de ócio, pois o reservo para coisas amenas, como o chegar de um barco. Um barco que saiu do horizonte que eu adivinhei, que veio do nada que eu pensava que havia e que aflorou das espumas distantes que eu avistava.
 IV
Meu ócio é mais ou menos assim, pleno de novidades que surgem desse nada que é. Não quero empatar meu tempo, pois não sei quanto dele resta. E é por isso que eu, nos meus momentos de ócio, me aventuro em cavernas de pensamento, escalo morros imaginários, inatingíveis, reviro as amplidões de minhas planícies, cavalgo, rumino existências e cravo conquistas. Fecho os ouvidos aos ecos indecifráveis. Não permito que em meus momentos de ócio existam coisas mesquinhas. Só o indispensável me basta. E sempre pesco, pois existo!

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Menção Honrosa no Prêmio Flerts Nebó (prosa) 2017/2018 - Sobrames-SP



27.1.17

Reflexões casuais ao raiar do ano



BORBOLETAS AZUIS
“Tem dias, que nem sei de onde, surge uma borboleta azul enorme e linda em minha manhã. Ela entra pela fresta duma janela, pelos vãos da cortina, e displicentemente se instala em mim. Sobrevoa meu dia, borboleteando no seu jeito desajeitado de ser borboleta. Ela se insinua e logo escapa, como quem não quer nada com nada e não está nem aí com seu jeito efêmero de ser uma borboleta grande e azul. Com ela eu me divirto, eu sorrio novamente, eu volto a viver. Borboleteio com ela nessas horas, pois nada melhor que a despretensão desses voos desajeitados. Borboletas azuis aparecem sempre que sabem que são necessárias, isso sim!”
02.01.2013

DESINVENÇÕES
Hoje me deu de pensar em coisas meio esquisitas.  Naquelas meio estrambólicas e surreais que de vez em quando nos vêm na cabeça. Aí pensei em desinventar uma das que foram feitas só para atormentar nosso juízo. Tentei desinventar a saudade. Um pacote vindo da Oceania, uma ligação no Skype, uma voz distante, tudo pode ser motivo para desinventar a saudade. Mas logo vi que a saudade é mesmo uma desinvenção meio à toa, pois ela é aquela coceira que dá por dentro da gente, difícil demais de coçar.  Aí desisti. Prefiro essa comichão que vem lá do fundo e que nunca a gente coça direito, por mais que tente. Mas uma hora qualquer eu dou um jeito nela. Deixa estar.
04.01.2013

ÁGUAS
É que muitas vezes somos teimosos, mas não deveríamos insistir tanto com certas coisas improváveis. Seria útil refletir sobre o exemplo da sabedoria das águas dos rios, que nunca passam novamente sob a mesma ponte, que contornam obstáculos ao invés de evitá-los, que percorrem os caminhos de seu destino ora com a mansidão de quem desfruta o momento, ora com a volúpia frenética de quem tem certeza de onde quer ir. E assim vão se avolumando e se fazendo poderosos, se agigantando... Até que um dia viram oceano.  
 07.01.2013 (com saudades da visão do Velho Chico virando mar em Piaçabuçu).

CRENÇAS
O mundo é movido por uma porção de coisas, em primeiro lugar, pela mão onipotente e poderosa do Grande Arquiteto do Universo. Para alguns tudo é fruto do acaso. Para outros, este simplesmente não existe. Há os que creem em destino, e há os que abominem essa ideia. Há quem espere pelo óbvio, que nem sempre acontece. E há também quem acredite no impossível, que de repente... Pronto! É a vida seguindo sua trajetória e são os que vivem buscando entender todo esse mistério de ganhar e perder. Seguir em frente. Conquistar. Um mistério e tanto a ser desvendado se pensarmos que há muitos que não têm sequer um pouco de fé. É preciso acreditar na vida e no jeito próprio que ela encontra para tomar conta de tudo. Eu acho.

16.01.2013
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Publicado na "Antologia Paulista" - Vol.9
Rumo Editorial - SP - 2013 

3.9.16

Três breves reflexões sobre a vida



AGRADECIMENTO E RESPEITO
Há que se ter a consciência de que o novo também será tão efêmero e breve quanto o que já se foi. Daí a razão de tentar ser justo e perfeito com cada segundo de nossa existência. A tudo é preciso dar valor e tratar com respeito, pois cada breve segundo pertenceu ou pertencerá à fração de vida que nos cabe. Agradecer e respeitar, ao velho que nos proporcionou o que já tivemos. Agradecer e ter esperança que possamos merecer o novo que se espera. E assim vai a efemeridade do tempo. Quanto às coisas perenes ainda temos muito a aprender.


CRENÇAS
O mundo é movido por uma porção de coisas, em primeiro lugar, pela mão onipotente e poderosa do Grande Arquiteto do Universo. Para alguns tudo é fruto do acaso. Para outros, este simplesmente não existe. Há os que creem em destino, e há os que abominem essa ideia. Há quem espere pelo óbvio, que nem sempre acontece. E há também quem acredite no impossível, que de repente... Pronto! É a vida seguindo sua trajetória e são os que vivem buscando entender todo esse mistério de ganhar e perder. Seguir em frente. Conquistar. Um mistério e tanto a ser desvendado se pensarmos que há muitos que não têm sequer um pouco de fé. É preciso acreditar na vida e no jeito próprio que ela encontra para tomar conta de tudo. Eu acho.


SIMPLES ASSIM

Quase sempre estamos buscando encontrar algo que nos surpreenda e nos traga felicidade. E nem sempre percebemos que é na simplicidade que se encontram as coisas mais grandiosas e fantásticas. Então deixamos passar pequenas maravilhas e minúsculos encantos sem dar a eles o devido valor. O que tanto buscamos passa sem nos darmos conta. Por isso é preciso olhar ao redor com atenção e cuidado, pois a felicidade da vida está continuamente por perto, em pequenas sutilezas. Tenha momentos simples e felizes!

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima terceira fornada"
Rumo Editorial - S.Paulo - 2014

8.5.16

Divagações um tanto repentinas


Acerca de mudanças
Talvez não seja muito saudável pensar nas mudanças olhando apenas o que se perde com elas. Quem sabe o mais prudente seja olhar no horizonte dessa perspectiva e tentar vislumbrar no longínquo porvir, lá na fímbria mais distante, a parte positiva que possa existir. Ainda que seja uma quimera, enxergar um passo adiante em nossa vida é uma virtude e faz um bem inimaginável. Pensar com otimismo talvez seja uma das melhores coisas que nos possa acontecer.  O resto será como tem que ser.

Sobre a efemeridade das borboletas 
O Ser humano é mesmo uma eterna incógnita. Tem uma trajetória tão efêmera como a de uma borboleta azul pairando aqui e acolá. A diferença é que borboletas azuis têm uma leveza natural, o que as tornam belas aos olhos de quem as conheça. Já o Ser humano costuma ter uma prepotência e uma ignorância quase inatas do que pode ou não pode ser, o que o torna um fardo pesado e desajeitado em muitos momentos. Borboletas amadurecem e completam seu ciclo com dignidade. Já o Ser humano, nem sempre. “Nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe", disse Saramago em "A Caverna". A falta dessa consciência é que torna o Ser humano tão distante das borboletas azuis, pois ele sempre pretende ser o que não é de verdade. Já as borboletas azuis são sempre autênticas e belas, por mais efêmeras que sejam.

Coisas do vento e da solidão
Haverá horas que você precisará de alguma reclusão para sobreviver.  Vai ser só você e tua clausura. E talvez algum sussurro da brisa que penetre pelas janelas de teu ser. No mais, será apenas o silêncio da tua alma. Todo pensamento será indigente nessa hora. Vagará sem rumo e medroso, como se em toda fresta do reboco da parede de teu templo inconcluso houvesse o pior dos monstros, faminto e à espreita para te devorar. Mas o medo dessa fósmea insana  será uma questão de tempo, pois certamente chegará aquele sopro mais forte que fará remexer a poeira de teus dias, derrubar teus utensílios inúteis, bater as folhas de todas as portas e janelas entreabertas em tua vida.  Você então despertará da letargia, se espreguiçará e talvez até se assuste um pouco, sem saber exatamente onde está. Mas logo tomará de novo o prumo, o esquadro, o compasso, a régua, a alavanca, o maço e o cinzel, instrumentos de tua existência, e voltará ao trabalho eterno.  E tudo voltará a ser justo e perfeito novamente. Que assim seja!

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima terceira fornada"
Rumo Editorial - São Paulo - 2014
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18.1.15

Algumas coisas quase sem explicação













A vida
O sol que nasce e se põe. A respiração. Uma flor se abrindo. Cores. Uma onda esmorecendo para ressurgir. Um abraço. O espreguiçar e a maciez de um gato. A luz de uma manhã de primavera. Fome. Um abandono qualquer. Gratidão. Uma lágrima. Nó na garganta. Serenidade. Justiça que (não) acontece. Uma nuvem solitária no céu. A imensidão de uma paisagem. O vazio de uma solidão. A tessitura de um amanhecer.  
O poente. O choro incompreendido de uma criança. Desapegos. Os matizes da aurora. Ingratidão. A intensa agonia do sofrimento. Morte. O gozo. A irrepreensível agonia da morte. Uma delicadeza qualquer. A incompreensão da morte. A incompreensão da vida. A incompreensão. Um silêncio interminável. A sabedoria. Um azul intenso. A efemeridade do azul. A efemeridade ainda maior de uma borboleta azul.  Um sono sem sonhos. Um céu nublado. Pesadelos. A urgência. A brevidade. A volúpia dos acontecimentos. O insulto. O perdão. A inversão de valores. Uma queda livre.  A culpa. Um pouso suave. Arrogância. Chegar. Partir. Julgar. Voltar. A complexidade do regresso. A brevidade de uma brisa. Uma rachadura no solo árido. A mentira. Degeneração. A possibilidade de voar dos pássaros e borboletas. A verdade. A agonia da falta de asas. A fome. Começar uma desavença. Odiar. Incompreensão. Um perfume inesquecível. O arrependimento. Todas as cores de um camaleão. Saudades. Perfume de pão. Pele. Falsidade. Reencontros. Uma nota dissonante. Uma melodia inebriante.  Um toque suave. O beijo.  Aroma de banho. Sinceridade. Compreensão. Infinito. O paraíso. Et cetera.

Eclesiastes 12; 1 e 7
1. Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento; (...)
7. E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.

A morte
Tudo nos levará à morte. Comer demais, comer de menos. Não comer. Praticar exercícios ou o ostracismo. Prever ou remediar. Dançar ou apenas apreciar a dança. Rir ou chorar.  Praticar o bem. Ou não. Humildade ou soberba. Cumprimentar ou dissimular. Ostentar ou compartilhar. Osteoporose. Cirrose. Deficiência cardíaca. Infarto. Degeneração hepática. Câncer. Males em geral. Atrofias. Atropelamento. Assalto. Acidente. Benevolência. Conluio. Traição. Crime passional. Qualquer banalidade. Tudo nos levará à morte. Nariz empinado. Rejeição. Tolerância ou não. Benevolência. Empáfia. Arrogância. Empatia. Dignidade ou falta dela. Ética ou podridão.  Qualquer atitude nos levará à morte. Ser ou não ser. Talvez seja  essa a questão. Disciplina ou anarquia. Aceitar ou rejeitar. Conluio, trama, degeneração. Tudo certamente nos levará à morte. Ter. Não ter. Trabalho. Roubo. Tudo. Nossa ganância e nossa insuficiência. Nossa soberba e nossa intolerância. O bem e o mal. A dualidade e a falta de opção. Qualquer dessas coisas nos levará à morte.  Qualquer uma. E o tempo é tão curto... Imensamente curto.

Além
A felicidade é o encontro certeiro, quando alcançada a compreensão da real fraternidade. O amor é dádiva suprema, concessão do Grande Arquiteto do Universo, quando alcançamos a graça de o recebermos. A vida é enigmática e paradoxal: é ao mesmo tempo efêmera tanto e quanto eterna. Já o Criador espera nosso retorno em algum lugar, além, muito além de nossa compreensão.

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima terceira fornada" 
Rumo Editorial - São Paulo - 2014
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30.11.14

Reflexão outonal














Pequena reflexão digitada com um dedo só por quem foi surpreendido de asa partida no primeiro dia de uma nova estação sem estar ocupado com coisa mais útil.


Outonos
(...) Tempo de mudanças ou apenas da monotonia e silêncio com que caem as folhas e deixam os galhos nus. Renovação é o que se quer e espera, quase compulsoriamente. Como se fosse obrigação. E ainda há todo o interstício do tempo em que, depois da queda, virá uma fria hibernação.  Os casulos da alma estarão fechados, silenciosos e frios.  É preciso deixar ir o que não serve mais para proteger o essencial. Sacrificar para preservar. Viver é paradoxal assim mesmo. (...)

Paradoxos
(...) Sempre é preciso um argumento chocante e inusitado para se refletir o absurdo em que está imersa a existência humana. Amputar pode ser a única forma de preservar e sobreviver.  Plantar não é a única prerrogativa para colher. A ignorância e o desconhecimento de verdades impedem  o bem e fazem da existência um tormento. Estas as razões de duras batalhas e terríveis refregas. E também das vitórias raras e circunstanciais. Por isso há muitas baixas entre as almas menos maleáveis ou pouco municiadas de resignação e persistência. É a cruel sina de ser uma flecha imóvel.  E assim vai, um dia depois do outro e depois do outro... E depois? (...)

Quedas
(...) Tão imprevisíveis quanto a própria vida. Porém, há de se convir, só cai o que está de pé e só quebra o que é inteiro. Depois é ver o que fazer. Erguer-se, curar feridas, estancar o sangue. Remendar pedaços e solidificar fraturas. Restaurar. Renovar. Não importa quanto tempo leve, a imobilização decorrente sempre proporciona o tempo justo de traçar rotas e estabelecer metas. E tocar de novo a vida, mesmo antes de estar totalmente em pé outra vez. De baixo para cima, é preciso um bom impulso. Isso é o que há de se levar em conta. (...)

Amanhã
 (...) Logo mais, quando amanhecer, tudo pode acontecer de forma renovada. Aquilo que você nem acreditava mais pode estar chegando com a luz do dia que clareia. Até o projeto velho, esquecido no fundo da gaveta de tua vida, pode criar novo impulso e finalmente acontecer. Por isso é preciso acreditar em cada manhã que chega e esperar pela luz que sempre clareia nosso caminho. Toda manhã é um novo impulso para nossa vida. É preciso acreditar! (...)

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima terceira fornada" 
Rumo Editorial - São Paulo - 2014
Publicado na "Antologia Paulista" Vol.10
Rumo Editorial - São Paulo - 2015
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25.9.14

Obviedades e constatações
















Para toda vida
Há algum tempo atrás o meu conceito para coisas que deveriam durar ad perpetuam rei memoria era bem diferente do que constatei hoje, enrolando uma mangueira de jardim, logo pela manhã. Minha mulher, comandando a operação, dizia: “Se a gente enrolar como estou falando, esta mangueira vai durar para sempre”. Eu não disse nada, mas pensei: “Claro! Afinal, o nosso ‘para sempre’ já está bem mais plausível para se acreditar hoje em dia do que há algum tempo. A maioria dos produtos que temos atualmente, com toda sua obsolescência planejada, há de durar bem mais do que nós.”   Eles é que hão de durar para sempre, já que não os veremos sucumbir.

Tudo igual
Quase todas as coisas materiais que eu pretendia preservar, por algum motivo: a) já se acabaram; b) estão jogadas e esquecidas em algum canto; c) ou, em boa dose, estão irremediavelmente  se deteriorando  e indo embora aos poucos. Estão virando trastes inúteis, findando, voltando ao pó preconizado no Eclesiastes. É por isso que estou começando a ficar preocupado com minhas dores na coluna, com a compressão neurológica de pernas e membros superiores, com os 160 mg. de losartana ingeridos diariamente e com outras pequenas novidades que estão aparecendo cada dia. Mas... Toca o barco!

Pior
Às segundas-feiras meu compromisso com um grupo de amigos muito querido é inadiável. No início da manhã desta segunda voltei do litoral para me preparar adequadamente para o encontro. No meio da tarde recebi uma ligação para confirmar a presença. Confirmei. Ainda no meio da tarde liguei para o “mecânico da família”, pedindo para que viesse ver meu carro no dia seguinte, pois ele (o carro) não andava lá essas coisas. No fim da tarde entrei no carro e fui para o trânsito já meio carregado de Sampa. No meio do caminho, o bandido do carro resolveu confirmar o que eu temia. Espumou, roncou, ferveu, fumegou. Quase não consegui levá-lo de volta para casa, após uma parada “à espera de um milagre”.  Encarei o congestionamento de volta. Cheguei em casa. No começo da noite meus amigos me ligaram para me cumprimentar pela gastura que o tempo vem causando em mim e nas coisas à minha volta.  Agradeci aos que iam pegando no celular de um de meus amigos e dando sua mensagem. Até que a linha caiu. Definitivamente, não é fácil lidar com coisas velhas!

Carpe Diem! (só para variar)
Muitos amigos sabem que não curto muito esse lance do meu aniversário, o que aliás, parece extremamente antipático para boa parte das pessoas. Peço desculpas. Mas não é história para contar agora. Afirmo, no entanto, que isso não é pela consciência de saber das coisas que a idade nos impõe, pois gente feliz, e gente feliz sempre, não importa onde esteja doendo ou o que “esteja pegando”. Eu sempre topo um CARPE DIEM, em qualquer circunstância, e meus verdadeiros amigos também sabem muito bem disso. Então eu reverencio minhas razões e me recolho.  Alimento algumas de minhas esperanças e agradeço, sempre, ao Grande Arquiteto do Universo e também aos amigos que sempre me recordam que estou vivo, apesar de tudo que houve ou vier! E percebo que, isto sim, é que vale a pena!  E que assim seja! 

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Apresentado na Pizza Literária da SOBRAMES-SP
18.09.2014
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21.12.13

O velho, o novo e a efemeridade do tempo




















Refugos
Nem tudo o que é velho é imprestável ou desprezível de per si. De quase tudo se pode fazer algo novo, reciclando utilidades, refazendo percursos e recriando expectativas. Só acaba de vez o que nunca teve qualquer serventia. Mas se tudo tem um propósito, isso é muito difícil de acontecer, já que tudo tem sua serventia. Por isso eu tento renovar a minha vida diariamente. A intuição me confere discernimento. Cultivo a serenidade diante da transitoriedade. Planto persistências. Depuro e capino o mato daninho do desprezo e do isolamento. E tudo isso para tentar fazer do eventual traste inútil que amanhece em meu pensamento um voto de resiliência. Que seja para um talvez, para um amanhã possível, para alguma conquista, mesmo que distante... Seja para uma quimera qualquer. Por isso eu digo que velho não vira refugo. Na verdade ele virará pó, quando chegar sua hora. 

Horizontes
Certa vez perdi o medo de horizontes. Então passei a sentar-me na beirada dos dias e a ficar mirando o decote das tardes. Imaginava o lá longe. Tinha dias que era mar, mas eu nunca cheguei a ouvir o chiado do sol mergulhando nele.  Mas ele se alaranjava e lá mergulhava, num silêncio de nada se ouvir. Só depois é que vinha a voz de alguma estrela. E tinha outros dias que era no vão dos seios das montanhas, bem no lá longe, que o sol ia dormir.  Que haveria por lá? Eu mirava aquilo tudo que não entendia direito. Mas já não tinha medo. Pois se era para lá que o sol ia toda tarde e sempre voltava no dia seguinte, para que ter medo de horizontes? 

Passagem
Não há perenidade nas questões de tempo. Daí as coisas eternas serem às vezes incompreensíveis. Tempo é o que existe entre o começo e o fim de um ciclo. A vida dura a fração exata entre nascimento e morte.  E sempre haverá tempo justo para semear e colher, matar e curar, nascer e morrer, rir e chorar, abraçar e se afastar de abraçar. Assim, não há razão para que seja preciso usar a hipocrisia para enganar com o riso, quando for o tempo de chorar, nem de abraçar efusiva e falsamente apenas quando houver algum momento de passagem.

Agradecimento e respeito
Há que se ter a consciência de que o novo também será tão efêmero e breve quanto o que já se foi. Daí a razão de tentar ser justo e perfeito com cada segundo de nossa existência. A tudo é preciso dar valor e tratar com respeito, pois cada breve segundo pertenceu ou pertencerá à fração de vida que nos cabe. Agradecer e respeitar, ao velho que nos proporcionou o que já tivemos. Agradecer e ter esperança que possamos merecer o novo que se espera. E assim vai a efemeridade do tempo. Quanto às coisas perenes ainda temos muito a aprender.

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Apresentado na Pizza Literária da SOBRAMES-SP
19.12.2013 
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27.11.13

Algumas reflexões avulsas














Pensamentos
(...) Os dias se arrastam quando os pensamentos divagam e se perdem no vazio do impossível e na fragilidade do proibido. Então ficamos reféns do tempo que nos impõe seu jugo melancólico e esperamos que os rumos de nosso pensamento se concentrem nos desejos mais escondidos de nossa alma. (...)

Partidas
(...) Aí eu fico pensando em quando a gente for embora de uma vez por todas. Não haverá tempo para despedidas ou adeus, nem para o último beijo. Simplesmente iremos e pronto! Fico pensando em quantas pessoas tão queridas já partiram de repente, sempre desse jeito. Poderiam ter esperado ao menos para um até breve para depois partir. Acho que é por isso que o inesperado nos agonia tanto. (...)

Privilégios
(...) Foram raros os momentos de minha vida em que não fui imensamente privilegiado em muitas coisas, embora eu não tenha me dado conta disso na maioria das vezes. E assim fui deixando passar as oportunidades de agradecer pelo que eu vinha usufruindo. E também por isso fui permitindo que de mim sempre surgissem algumas tristezas, frustrações, insatisfações e carências... A maioria sem qualquer sentido ou razão, já que o culpado era eu, por não perceber que já tinha tudo e nem prestava atenção. Estou exercitando esse aprendizado para recuperar o tempo perdido. (...)

Simples Assim
(...) Quase sempre estamos buscando encontrar algo que nos surpreenda e nos traga felicidade. E nem sempre percebemos que é na simplicidade que se encontram as coisas mais grandiosas e fantásticas. Então deixamos passar pequenas maravilhas e minúsculos encantos sem dar a eles o devido valor. O que tanto buscamos passa sem nos darmos conta. Por isso é preciso olhar ao redor com atenção e cuidado, pois a felicidade da vida está continuamente por perto, em pequenas sutilezas. Tenha momentos simples e felizes! (...) 

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Publicado na "Antologia Paulista" 
Rumo Editorial - São Paulo - 2013

10.11.13

Sobre o tempo
















Olhares
Quanto mais olho nos olhos do tempo para tentar entendê-lo, mais ele me encara severamente, confirmando que vai me devorar.

Rugas
As minhas ainda estão reticentes, mas as vejo insinuantes sempre que vou pentear os cabelos embranquecidos. Olho para algumas expressões enrugadas de outras pessoas que há bem pouco tempo tinham tanto vigor. Vislumbro algo de sofrimento, algo de complacência e muito, muito mesmo, de uma misteriosa sabedoria que ainda não descobri qual seja. Os olhos vão se tornando baços, os sorrisos vão se enfraquecendo pela flacidez que o tempo nos inflige. Isso tudo é um disfarce que a sabedoria usa para não se revelar tão facilmente. Eu acho. Ninguém vai galgar degraus rumo a essa sabedoria senão um de cada vez e cada qual a seu tempo, por mais que cada um de nós tente se adivinhar na hora de pentear os cabelos. Isso eu já aprendi.

Pecados
Para todos nós que nos julgamos tão santos e tão bons. Para todos nós que nos vemos tão melhores em atitudes e fazeres. Para todos nós que nos queremos tão superiores. Para todos nós que nos entendemos tão isentos de culpas. Para todos nós que egoisticamente nos ensimesmamos. Para todos nós que indiscriminadamente nos impomos. Para todos nós que sabidamente nos aproveitamos. Para todos nós haverá um pecado num momento qualquer. Desses tais capitais, mortais, veniais, sei lá... Sabidamente pecaremos durante nossa passagem pelo tempo de nossas vidas. Eternamente seremos tentados e nos entregaremos a esse desígnio que temos de ser simplesmente humanos.

Maturata
É uma pena que só começaremos a entender certas coisas desse eterno mistério que é a vida quase no apogeu das nossas. Não sei ainda a razão disso, mas cada dia mais me dou conta de que é bem assim que tudo acontece. A tal busca da verdade absoluta e da felicidade plena nos aflige e nos flagela durante todo o nosso percurso neste mundo. Somos confundidos na juventude, quando tudo flui vigorosamente, e afrontados na maturidade, quando de quase tudo já temos uma ideia muito mais bem formada, mas quase nenhum vigor para colocar em prática. Ou seja: quando finalmente achamos que já aprendemos como fazer certas coisas já não temos qualquer condição para tal. Que merda é essa?

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Publicado na "Antologia Paulista" 
Rumo Editorial - São Paulo - 2013
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13.9.13

Pios














(...) Simplesmente ignore a lamúria de um ou outro sabiá, principalmente se for setembro. Feche seus  ouvidos para os sabiás, caso seja primavera. Eles gostam de se impor com insistência, muito antes da luz do dia e dos aromas de flores e das campinas que podem chegar com a luz do sol. Sabiás podem ser mais tristes do que se imagina, pois gorjeiam e piam ali por volta de setembro, quando a primavera chega ou apenas se insinua. E é este, mais ou menos, o tempo em que a morte se prenuncia. Todos os sabiás gostam de estar por ali nessa época, muito antes da luz do sol, dos pios dos outros pássaros, dos aromas de todas as flores e da luz das cores do dia. Mas chegarão infalíveis, sempre perto do tempo em que algumas tristezas teimam em aparecer também. (...)

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(Trecho da crônica “Novo dia”  escrita em 2005 e publicada originalmente nos 
Anais da IX Jornada Médico-Literária Paulista - Jundiaí - SP - 2007) 
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19.7.13

Curativos emergenciais para a alma - sem efeitos colaterais - sem contraindicação

















Carrega Dores
Cada um tem seu próprio fardo nesta vida. E cada um sabe o peso que ele tem. Sempre que encontrar alguém à sua frente, com a carga de sua vida nos ombros, repare no tamanho e pense no peso que esse fardo pode ter. E só então pense no que vai dizer a respeito do teu.

Bálsamos
Um lenitivo pode amenizar dores e propiciar conforto para um lapso de sofrimento que alguém não esperava sentir.  O alívio dado à aflição é sempre bem-vindo. Não porque o consolo seja, em si, o bálsamo que se esperava nesse momento angustiante que a dor contém. Mas simplesmente pelo gesto de apreço que se pressupõe.  A diminuição da fadiga que esse gesto infringe à dor é por si o grande alívio imediato que se possa querer. Muitas vezes essa cura mágica está em pequenos momentos em que se pode ouvir alguém desabafar suas dores, extravasar seus sentimentos aflitivos ou chorar algumas poucas lágrimas que só quem verte sabe a razão. Bálsamos são assim mesmo. Quase sempre se confundem aos placebos. Só que são efetivamente muito mais eficazes e valiosos.

Evidências
Você descobre algumas verdades incontestáveis quando se encontra em situações um tanto diferentes da normalidade de teu dia a dia. Seja lá por que motivo for: doença, desemprego, baixo astral, depressão, angústia ou carência emotiva... É muito provável que nesses momentos, que são os que você mais precisa de apoio, ajuda ou apenas de uma conversa motivadora, você veja as pessoas se distanciando, te evitando e sumindo. Seja lá que motivo ou desculpa elas tenham para isso é essa a impressão que você terá.  Contudo, em situação oposta, se você estiver dando uma festa, por exemplo, é bem possível que de você se aproximem muitas pessoas, até mesmo as que estiveram ausentes em teus momentos de necessidade. Por essas constatações acho que é muito prudente você não contar ou catalogar amigos ou pessoas queridas nos momentos de exceção, pois nos dois picos você estará vulnerável e sujeito a julgamentos precipitados e normalmente errados. Espere tudo voltar ao normal. Mas em qualquer caso, sempre considere que as pessoas que realmente te querem bem hão de estar por perto e disponíveis em qualquer circunstância. Para o que der e vier.

Voluntariado
Você já pensou em dedicar teu pensamento positivo para alguém que esteja sofrendo? Dizem que os bons pensamentos são condutores de extremas benquerenças, que têm o poder da cura e do milagre. Então tente e deseje que teu pensamento de bondades e com poderes milagrosos seja decisivo no avanço  e engrandecimento da vida das pessoas que você ama. Só isso já bastará para que os degraus desta vida sejam menos aporrinhadores e dolorosos.

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Publicado na "Antologia Paulista"
Rumo Editorial - São Paulo - 2015
Vencedor  do desafio SUPERPIZZA com tema Saúde
Sobrames-SP - 16.05.2013
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Veja tradução para o espanhol clicando AQUI 

28.5.13

Brevíssima teoria sobre a desimportância
















Pode não acontecer nesta ordem ou proporção, mas um dia acordaremos atrasados e não daremos conta do significado de alguns minutos a menos em nossa rotina. Lapso involuntário. Noutro dia notaremos que nosso bom dia dito numa sala cheia virou apenas um eco da nossa própria voz.  Rotina desconfortável. Mais além, nos sentiremos praticamente invisíveis, pois ninguém mais notará nossa presença ou nossa ausência. É o limbo do tanto faz.  Um pouco adiante poderemos constatar que ninguém mais tem tempo para nos ouvir ou para nos dar alguma atenção. É a consciência tardia.

É nesse instante que não nos custará nada perceber outras tantas coisas que revelam nossa total desimportância. É justamente nesse tempo que talvez pensemos em nos recolher à nossa insignificância e tentar rebobinar o filme de nossas vidas em busca das falhas de continuidade da película em que fomos protagonistas ou coadjuvantes.

Talvez possamos acreditar que ainda dá tempo de remasterizar, reciclar, cortar e editar o que for possível dos rolos de nosso filme para tentar um final menos melancólico. Mas logo chegaremos à conclusão que finais felizes só existem no cinema e dependem de bons roteiros, bons atores, boa trilha sonora, bons diretores e um monte de etecéteras... Então pensaremos, ao refletir sobre nossa completa desimportância: “Quem sou eu para querer tanta coisa e ainda por cima um final feliz? Corta!”. Então talvez nos ocorra que, apesar de tudo, ainda poderemos fazer de nossa película “B” um verdadeiro cult movie. “Gravando!”

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima segunda fornada" 
Rumo Editorial - São Paulo - 2012
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7.5.13

Felicidade






















(...) Aí teve um tempo em que eu acreditei na felicidade. Sabia exatamente onde ela estava. Fui lá. Certeiro. Disseram que ela tinha saído. Não demorava. Esperei. Demorou mais do que prometeram. Desisti? Não! Dei um tempo. Tinha outras coisas pra fazer.

Aí teve um outro tempo em que eu me lembrei da felicidade. Achei que sabia onde ela estava. Fui lá, quase certo de que estava lá. Disseram que havia um bom tempo que não a viam por ali. Não desisti, mesmo assim. Refleti profundamente. Mas tinha outras coisas pra fazer.

Aí teve ainda outro tempo em que achei que acreditava na felicidade. Não tinha nenhuma certeza de onde ela poderia estar. Mas fui lá, assim mesmo. Disseram que era uma lenda muito antiga. No entanto, que eu não me empolgasse. Fui lá. Cadê? Tornei a refleti, mas já achava pura perda de tempo. Tinha ainda muita coisa pra fazer.

Aí o tempo já não interessava mais. Ainda pensava na felicidade: ora como uma esperança, ora como uma crença, ora como uma quimera, ora como uma mentira, ora como uma dança, ora como um louvor, ora como um impulso, ora como uma alavanca. Em tudo isso e em muita coisa mais eu pensei, como se tudo fosse a pura e simples FELICIDADE.

Acho que nesse tempo eu já estava feliz (...)

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Publicado na "Antologia Paulista" 2011
Rumo Editorial - São Paulo - 2011
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19.12.10

Fragmentos e Abstrações















Inutilidades
(...) Vejo como completamente inúteis certas coisas que pretendemos que outros percebam em nós. Por exemplo, nossas demonstrações de indignação, seja lá com o que for. Normalmente alteramos feições e tom de voz para passar a impressão, o que pode não significar nada além de um teatro, e sempre soará falsa e hipócrita a teatralidade demonstrada, pois, mais cedo ou mais tarde, verão que não é bem assim nossa postura real no dia a dia. (...)

Carpe Diem
(...) Numa definição simplista, é mais ou menos como se o mundo real deixasse de existir. Ou melhor: é como se o mundo real pudesse e fosse realmente aproveitado como deveria ser. Sempre foi assim. Desde sempre. Os dias se abrem para que possamos fazer dele o melhor que quisermos e pudermos. Mas nem sempre acordamos de bom humor. E lá se vai uma parcela de nosso tempo, despejado pelo esgoto de nosso egoísmo de pensar que o mundo é que deveria girar em torno de nós. (...)

Sofrimento
(...) Eu diria que talvez seja essa a razão do sofrimento e da angústia: de repente a importância que damos a certas coisas, situações, ocasiões e pessoas é extremamente desimportante, uma vez que, simples e resumidamente, essas coisas, situações, ocasiões e pessoas não dão a mínimaimportância para o que pensamos a respeito e ao que queremos. É como pretender que as nossas prioridades e importâncias sejam também as alheias, e isso é sabidamente impossível, a não ser que se empreguem métodos de imposição. A individualidade deve sobrepujar qualquer tentativa egoísta de equiparação e de domínio. Da essência do exercício pleno e livre das prerrogativas individuais é que advém o singelo gesto de conviver em harmonia. Tudo que se pretender, além disso, poderá se tornar uma aberração. Sofrem e se angustiam os que pretendem gerir pessoas, coisas, situações e ocasiões apenas norteados pelo “seu” parâmetro de valores, sem levar em conta as individualidades. (...)

Justiça
(...) Tudo aquilo que o ser humano acha que sabe exatamente o que é, mas nunca consegue fazer plenamente. (...)

Morte
(...) Nunca pensamos na morte com alegria. Que estigma é esse que a morte carrega de ser o ápice amargo de uma existência, que nem bem sabemos como é realmente em sua plenitude? A morte é a única certeza da vida? É nada! A grande certeza que todos têm e temem confessar é a da própria vida. Nada sabem sobre a morte e por isso dela apenas fantasiam. A vida sim é finita enquanto dura. E a morte? Até quando? (...)

Vida
(...) Nunca se pensa na vida no tempo justo em que ela precisa ser pensada. Quando a estamos planejando, não temos ainda a bagagem suficiente para discernir. Quando já pensamos saber dela o suficiente para discernir, ainda temos muito a aprender e nem conseguimos dela, a vida, o suficiente para nos satisfazer. E, por fim, quando julgamos que a encontramos com total discernimento, quase em nosso apogeu, já é um pouco tarde para desfrutar tudo quanto dela achamos que discernimos e que ela tinha a nos oferecer. Que merda! (...)

Deus
(...) Basta olhar ao lado. (...)

Amor
(...) A dificuldade de saber como deve ser o amor é a mesma de interpretar o que o mundo ao nosso redor pensa dele. Há que se levar em conta nessa análise o tipo de amor que se quer analisar. O intangível, que percorre a alma de certas pessoas, vive da gratidão pela possibilidade de se dedicar a ele. O profano, que trafega nas veias dos eufóricos, vive da gratidão pelo momento vivido, ainda que efêmero. E tudo é amor do mesmo jeito e sabor. Tudo depende do ponto de vista. (...)

Ódio
(...) Palavra a ser abolida. (...)

Olhares
(...) Os olhos são o espelho da alma. Eu sempre penso que poderia me aperfeiçoar na análise dos olhares com que as pessoas nos contemplam nos momentos cotidianos. Penso também que poderia saber interpretá-los melhor, pois isso seria extremamente útil para todos, mas sempre percebo que é muito complicado fazer essas coisas. No entanto, sempre olho na alma das pessoas, através de seus olhos, mesmo semo pleno domínio dessa interpretação. Com isso sempre sei um pouco mais do que elas pensam que não sei e que nunca gostariam de me revelar. Muito mais do que elas pensam que sei. E sempre, invariavelmente sempre, consigo entendê-las um pouco melhor. Mesmo que elas nem suspeitem disso. (...)

Reciprocidade
(...) Aprendi que nunca se deve esperar nada como troca justa por qualquer coisa que fazemos, seja ela boa ou ruim. Primeiro porque seria muito egoísta esperar que as coisas boas que eventualmente fazemos, deveria gerar algo igual como recompensa. E depois, porque percebo que as coisas ruins que sempre fazemos raramente nos punem com igual rigor. O que é muito sensato. (...)

Cumplicidade
(...) Dividir segredos, que por isso, deixam de ser segredos. Dividir o corpo e a alma em confissões. Apropriar-se do alheio em surdina. Aprimorar-se na decifração de sons, sensações, palavras, trejeitos e coisas afins que não lhe são de direito. Saber e não confessar. Confessar sem saber. Querer sem poder. E ter. Tudo isso exalta os sentidos e aprisiona a alma na mais completa cumplicidade. É pecado mortal, capital ou apenas uma (a)normalidade permissiva? Quem não é cúmplice de si mesmo? (...)

Rotina
(...) A impressão que tenho é que a mesmice das coisas acaba encurtando o tempo de forma muito acelerada. Quando estamos no alvorecer de um dia supostamente de rotina, cada minuto tem no mínimo, uns dez segundos a menos. A previsibilidade do que vai acontecer no instante seguinte diminui o tempo. Não podemos interferir no processo. Talvez por sabermos exatamente como vai ser o próximo segundo, deixamos de contá-lo. Daí, o subtraímos de nossa vida de forma inconsciente, mas inexorável e irreversivelmente.

Apesar disso, acho que foi pelo desarranjo dessa consciência de perda de tempo decorrente do ritual de minha vida, que acabei encontrando tempo para pensar em coisas tão inúteis quanto esta tese que agora me ocorreu. Assim, pensei também nas formas de driblar a mesmice, de dar um tombo nos inexoráveis segundos iguais de cada um de meus dias, e de contá-los todos, como se não os tivesse perdido. Talvez eu só quisesse com isso prolongar minha existência, que vinha sendo subtraída covarde e rudemente de preciosos momentos.

Mas não deu certo. No segundo dia em que eu vinha pensando nessa complexa equação, enquanto dirigia para o meu trabalho, pelas mesmas ruas de sempre e parando no mesmíssimo e eterno engarrafamento de meus dias iguais, me distraí completamente. Minha abstração advinda dessa mesmice me fez perder a noção de qual era o pedal do freio. Assim, permiti que batesse o pára-choque da frente de meu carro no pára-choque traseiro do carro que ia à minha frente. O pior de tudo, é que a mulher que o dirigia era brava demais. Custou um tempão para me desvencilhar da situação.
E lá se foi toda a minha tese. Por fim, concluí que se a mesmice pode acelerar o tempo, a falta de freio pode recuperar muito do tempo perdido, embora não seja ainda a melhor forma de resolver o problema. Preciso pensar um pouco mais nessa profunda questão filosófica. (...)

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima primeira fornada" 
Rumo Editorial  - São Paulo - 2010
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