Encontre o que quer ver

Mostrando postagens com marcador *MINI CONTO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador *MINI CONTO. Mostrar todas as postagens

12.5.18

Sabedoria



Juventino era bom de prosa, cheio de querer palpitar em tudo que era assunto, fosse futebol, política, medicina, agricultura, economia, astrologia. Só não falava nada quando o caso envolvia mulher. Mas ouvia, muito atento, toda conversa que o pessoal puxava, meio de propósito, só pra ver a reação do ajudante de pedreiro. Mas sempre permanecia calado nesse assunto. Vai daí que o povo, que não é bobo nem nada e não precisa de muito pra tirar conclusão, falava coisas, sabe como é. Tudo meio na surdina, que ninguém era besta nem de insinuar o que quer que fosse na frente de Juventino, que só de muque tinha um tanto assim. Mas sabe como é fofoca, né? Um fala, outro fala, mais outro aumenta e outro lá adiante inventa e a coisa vai indo, vai indo, até que um dia chega no ouvido do sujeito.
           
E chegou. Diferente do que meio mundo achava que fosse acontecer, Juventino não cobriu ninguém na porrada. Fechou a cara, meio desenxavido e não disse nem a, nem b. No dia seguinte não apareceu para o jogo de bocha do fim de tarde. No outro dia também não, nem no outro e nem no outro, até que alguém cismou de perguntar. "Diz que foi pra Minas", alguém insinuou. A casa ficou fechada por uma semana, que foi o tempo de Juventino voltar. No domingo seguinte fez a feira de braço dado com uma morena vistosa, calça justa, cabelos quase pela cintura. Na segunda-feira pela manhã despediu-se da morena no portão, com um beijo e um aceno. e à tardinha foi para a pista de bocha e palpitou em tudo quanto foi assunto, menos mulher. Ninguém abriu a boca pra falar sobre a morena.

***
Publicado na coletânea "A Pizza Literária - sexta fornada"
Legnar Editora - SP (2000)

Publicado no livro "Pipas no caminho e outros escritos guardados no tempo"
Rumo Editorial - SP (2018)


6.11.16

Passagens


Certa vez foi marinheiro, daqueles de navio de longo curso. Aportou em tanto lugar que nem sabia mais. Desse tempo guardou apenas as calmarias, embora tivesse juntado um pouco da angústia de uma ou outra tempestade no fundo de um porão qualquer. E um dia foi também um seixo que vigiou caminhos, pois foi levado por viajantes e abandonado em outros lugares algumas vezes. Dessa existência pétrea guardou apenas o silêncio, que já era grande demais para que outra coisa coubesse. De outra feita foi apenas uma rajada de vento e, de tão breve, quase nada guardou. Mal teve tempo de juntar um pouco da ansiedade, pois de repente, já havia passado.


Quando lhe avisaram que seria menestrel soube ser taciturno o suficiente para que as paredes medievais não se impregnassem de tédio. Guardou somente alguns vazios e um pouco de melancolia, pois talvez viesse precisar. Bem depois, quando foi anjo, guardou apenas serenidade. Mas em grande quantidade, pois era imensa sua falange e abundantes demais os eflúvios que dela emanavam. E ainda foi muito mais: foi outonos e uma cotovia, foi um cajado de eremita e também pétala de orquídea. Até que se cansou de ser e foi deixando pelos caminhos tudo o que tinha guardado. Passou a esperar. Ora com a alma serena e silenciosa, ora com um pouco de aflição. E assim foi toda sua espera, até que um dia não foi mais nada.  

_____________________________
Publicado na coletânea "A Pizza Literária - sexta fornada"
Legnar Editora - São Paulo - 2000

13.3.16

Olhares



Gastava seus dias olhando a rua que se repetia, mesma. Eternamente igual em seus muros e pessoas. Trancado num silêncio imóvel, entrevado na mesma poltrona. Somente os olhos iam e vinham de um lado a outro da mesma paisagem. A não ser quando chovia, pois então tinha outras coisas para olhar. As gotas escorrendo pelos vidros, arredondando as formas costumeiras. Caleidoscópio. Cada caminho pingo seguia sua gravidade em rabiscos diversos. E seu olhar seguia o caminho vertical das gotas que renasciam com destino já traçado. Ah! Em dias de chuva é que era bom olhar a rua, pois havia encanto e magia nos cogumelos que brotavam na calçada e nos córregos que surgiam murmurejando melodias suaves.

Mas nem sempre chovia para que pudesse existir esse encantamento. Na maioria do tempo, aconteciam aqueles dias compridos e cheios do tédio modorrento da rua sempre igual. Os raros automóveis que riscavam a paisagem não tinham graça nenhuma. Eram traços muito ligeiros e repentinos que os olhos nem sempre conseguiam acompanhar. Não valiam o tempo da espera. Não eram como as gotas no vidro da janela em dias de chuva, pois estas podiam ser aprisionadas e mantidas como reféns de seus olhos. Tudo o mais eram imagens que fugiam, zombando de seu silêncio e de sua imobilidade, algozes de sua paralisia. Não sabia ao certo se odiava esses dias sem chuva. Talvez não, pois já se resignara com seu destino. Mas ficava o tempo todo esperando que o céu escurecesse para poder aprisionar suas gotas no vidro da janela.


***
Publicado na coletânea "A Pizza Literária - sexta fornada"
Legnar Informática e Editora - SP - 2000
ISBN - 85-86556-32-7


28.2.16

Pipas no caminho














Há tempos havia se esquecido como eram certas coisas, ainda que todo dia soubesse delas pelo jornal e pela televisão. Era como se pertencessem a um mundo distante. Por isso surpreendeu-se quando as ruas foram se tornando mais estreitas, como se quando criadas não tivesse havido espaço nem pressa. Largavam-se em traço torto, ora esgueirando-se de buracos que pareciam sempre ter existido, ora insinuando-se, corajosas e íngremes, por encostas e abismos intermináveis. Sempre bordejadas por milhares de paredes de tijolo aparente, estampando os sonhos inacabados de tanto zé e de tanta maria que um dia precisou se pendurar por ali, desafiando a caótica gravidade.
            
Percorreu aqueles caminhos com medo e ansiedade, ainda que fosse uma manhã de sábado e as ruelas e portas de comércio fervilhassem de gente. E olhava o rosto de cada homem e mulher, todos prenhes de simplicidade, como tentando adivinhar-lhes a intenção e os gestos. Temia que em determinado momento não houvesse mais saída daquele labirinto intrincado que teimava em serpentear à sua frente. Esperava por uma nova paisagem após a próxima curva. Mas os tijolos pareciam os mesmo, as antenas se repetiam e os varais tinham sempre roupas da mesma cor. No céu impo e claro, pias se contorciam desenhando arabescos de rabiolas e fios cortantes. Já se sentia sufocar dentro do carro quando avistou uma placa indicando para o centro. Alívio. Nem se apercebeu em que ponto as ruas começaram a se alargar de novo. Mas viu que ainda havia pipas no ar.

***
Publicado na coletânea "A Pizza Literária - sexta fornada"
Legnar Informática e Editora - SP - 2000

ISBN - 85-86556-32-7 

26.1.14

Chocadeira











Desde pouco depois que o sol esticava sua luz sobre o lugar e até quando a treva comia tudo de novo para dentro de suas profundezas de negritude abissal. Esse era o tempo que ela usava para ficar acocorada no gramado, chocando os ovos do cramulhão. E era esse também o tempo que ela ficava a destilar seu veneno por todo vivente que se acercasse do ninho insólito onde os ovos do canhoto iam se aquecendo no intuito de eclodir. 

E era ainda mais: quando sentia um calorzinho nas partes de aquecer os ovos do tinhoso, ela se arrepiava e remexia, para melhor ajeitar a prole pestilenta que se avizinhava. E assim ficava, ninhada após ninhada, sempre com o mesmo objetivo de chocar os ovos do coisa-ruim. E quando finalmente eles bicavam o ovo e se espalhavam para exercitar suas maldades, aí era a vez da chocadeira se eximir, resguardar, santificar e espalhar seu riso esganiçado pelo gramado, até que o acinzentado pusesse novos ovos para ela chocar.

________________________________________________________________________

Apresentado na "Pizza Literária" da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
16.01.2014
___________________________________________________________________

9.6.13

Realejo do periquito azul
















Hoje vi um homem tocando realejo na porta de uma churrascaria. Nada de mais, exceto pela raridade. Difícil ver realejos hoje em dia. Só me chamou a atenção, o fato de ser o periquito azul e não verde como todo periquito de realejo. Tem que ser verde! Mas esse não, e parece que tinha consciência disso, pois se engalanava todo no pequeno poleiro. Divergia, e muito, do homem que manejava o instrumento sonoro. O tal dono do realejo tinha uma febril e corcunda aparência. Espiava pela porta da churrascaria enquanto virava com vagar a manivela da engenhoca. Olhos baços e famintos.

Parou uma mocinha, e ficou olhando o periquito. Ele, acho que por ser azul, esticou ainda mais o pescoço e inclinou a cabecinha soberba para o lado, com desdém. A ladainha fanhosa e modorrenta do realejo, e um aroma de baby beff. O homem curvo e baço não tirava os olhos da porta. A mocinha quis tocar os dedos na ave, que incontinente se afastou. E a manivela girando, lentamente. Juntaram-se mais uns dois ou três espectadores e aí então a fanha musiquinha parou. Sem tirar os olhos da porta, o homem bateu com os dedos uma ou duas vezes na caixa com os bilhetinhos e o bico do periquito buscou um da cor azul. A moça sorriu, largo. Desdobrou, ansiosa. Mas logo trancou o sorriso aberto. Um mal prenúncio, quem sabe. Ainda olhando o papelucho, a moça entregou uma moeda. O homem guardou  no bolso e voltou a girar a manivela, olhando novamente para dentro da churrascaria. O periquito azul trincou no bico uma semente de girassol, embalado pela ladainha. Só isso.  

_________________________________________________

Publicado no livro "Trilogia Paciente"
Editora Casa do Novo Autor - São Paulo - 2000
_________________________________________________

4.6.13

A lua e o mendigo













Era um começo de noite dessas qualquer e o sol já se recolhia, os passarinhos já se recolhiam e todas as coisas que costumam ser da luz do dia foram procurar seu lugar de repouso e descanso. Só aquele homem sujo, vestido da cor dos andrajos que a vida lhe designou, decidiu ficar por ali. E olha que já fazia muito tempo que ele era do dia, e da luz do sol e de tudo o que há nessas horas de luminosidade em que parece que a vida é mais vida que em outras horas, mesmo a gente sabendo que não é bem assim. E foi naquele final de dia, onde o sol já se guardara de velho e toda a passarinhada tinha ido dormir, e tudo o que se dizia que fosse do dia tinha já se acocorado pra dormir, e só o mendigo velho e andrajoso persistia em ficar desperto, que veio uma lua bem lua mesmo, dessas grandonas de encher o céu. E foi se enluarando e se enluarando, com muita claridade e muita brancura, e foi se enchendo e se fazendo maior, tão bestamente e sem prestar atenção em nada, que ficou no céu todinha, a clarear o mendigo errante, que ainda insistia em revirar os sacos de lixo sem saber que o sol tinha ido embora.
   
___________________________________________________________

Publicado na "Antologia Paulista - Vol.VI" 
Rumo Editorial - São Paulo - 2007
____________________________________________________________
******************

17.1.09

A incrível mulher que flutuou
















Um carro novo e caro. Um olhar de desprezo. Uma viagem ao exterior. A comida melhor que as outras, que todas as outras. Ingredientes importados. Um olhar de desdém. Cílios implantados, sobrancelhas postiças, pretas, pintadas na carne, infinitamente melhor que as outras. Definitivamente. Lipoaspiração. Quem poderia? Depilação a laser. Coisa pra durar pra sempre. Danem-se! A melhor comida, muito, mas muito melhor que as outras. Ingredientes importados e de primeira qualidade. Tentem! Os olhos com aquele ar de desdém.

Até que um dia ela já estava tão cheia de si que flutuou. Começou devagarzinho, numa manhã de névoa, e foi flutuando mansamente. E nem havia ninguém por perto para testemunhar sua proeza. Levitou, primeiro aos poucos, depois mais intensamente. Um cão latiu, lá longe. O sol ainda tinha preguiça. E ela flutuou um pouco mais sobre as cabeças mesquinhas e imprevisíveis de suas vizinhas, que dormiam na sua mesmice e na sua pobreza, mesma de sempre. Pairou, e nesse instante as nuvens já não faziam favor nenhum em beijar seus pés. Sentiu-se a verdadeira dona de tudo.Então olhou para os quintais, e viu que suas vizinhas abanavam lenços brancos de algodão.

____________________________________________________________

Publicado na coletânea "A Pizza Literária - oitava fornada" - 2004
____________________________________________________________

19.10.08

Enterro


















O moleque era mesmo da pá virada. Impertinente e teimoso. Coisa de tirar a paciência e o sossego de qualquer um. Estava com a mãe no velório de dona Ganzá, lugar pouco recomendável para se levar uma peste de um moleque igual a ele. Bulia nas margaridas junto ao pé da defunta no caixão, sob o olhar choroso de meia dúzia de carpideiras. A mãe sapecou-lhe um beliscão no braço. O peste esfregou o local e rapidamente mudou de posição. Foi ter perto de uma das velas na cabeceira do caixão. Olhava para os lados, e com o canto da boca, tentava soprar a vela. Foi a vez de um meio parente da falecida chamar sua atenção. O tranqueira do moleque não se fez de rogado, e só saiu dali, meio corrido, quando conseguiu apagar a vela.A mãe já não sabia se continuava a chorar pela velha e morta vizinha ou se dava uma tunda no pirralho, ali mesmo. Foi demovida de seu intento de surrar o fedelho pela chegada solene do padre. Instalou-se o ofício fúnebre. As rezas eram interrompidas, de quando em quando, por um "fica quieto" dito entre-dentes. A coisa já passava da conta. O padre parou o ofício e perguntou de quem era o menino. Sem saber onde enfiar a cara, a mãe se aproximou do pentelho, e arrastou-o pela orelha para fora do velório. Foi um berreiro só, ouvido mesmo apesar da distância que a mãe carregara o moleque. Nisso já o féretro deixava a sala do velório em direção à cova aberta.O endiabrado moleque, ao ver o cortejo, desvencilhou-se da mãe e correu em direção ao caixão. "Abre essa porcaria", gritava o impertinente, esmurrando o caixão. "Abre essa porcaria, senão eu derrubo a velha com caixão e tudo no chão, e aí eu quero ver!" As pessoas estavam pasmas. Algumas se benziam. A mãe, em desespero, quase desmaia. O padre segurou o moleque pelo braço, horrorizado com o comportamento. O menino se debatia, e continuava bradando para que abrissem o caixão de dona Ganzá. Instalou-se uma balbúrdia incontrolável, cada qual tentando acalmar o moleque a seu jeito. Finalmente o peste foi contido, agarrado por forte abraço do coveiro. Sentindo-se o único em condições de contornar a situação, o padre aproximou-se do menino, que soluçava. Com paciência, e buscando acalmá-lo, tentou saber por que ele queria que o caixão fosse aberto. Soluçando ainda, e com voz que beirava uma súplica, o menino explicou-se. "É que eu quero de volta o meu chiclete que eu botei no nariz da velha".

___________________________________________________
Publicado em "Trilogia Paciente"
Casa do Novo Autor Editora (São Paulo-2000)








Vida Torta














Há um cruzamento no meu trajeto diário a caminho do trabalho, onde invariavelmente sou obrigado a parar no semáforo. E como na maioria deles nas grandes cidades, logo se espera que alguém se aproxime da janela do carro, pedindo ou vendendo. Às vezes assaltando, mas isso é um pouco menos rotineiro. Nessa esquina onde tenho que parar todo santo dia, não é tão é diferente. De dois anos para cá, reparei que há sempre uma única e mesma pessoa parada. É um senhor, negro, idade incerta, muito mal revelada por fiapos brancos na carapinha. Roupas razoavelmente limpas. A mão esquerda, retorcida para dentro e quase fechada, sempre rente ao corpo, na altura da cintura. Com a direita, ele acena para os ocupantes de todo veículo que pára naquele semáforo, e abre um largo sorriso. Alguns retribuem o aceno.Lembro-me dele ter se aproximado uma única vez da janela do meu carro. Foi no dia 31 de dezembro do ano passado, e eu estava a caminho da Rodovia Anchieta, para o reveillon na praia. Apesar de nunca tê-lo visto fazer isso antes, logo pensei: vai pedir. Baixei o vidro e apanhei algumas moedas. Então eu o vi caminhando, pela primeira vez. Arrastou a perna esquerda e manquitolando aproximou-se do carro. Estendi a mão para que ele pegasse as moedas. Ele inclinou-se um pouco, abriu aquele sorriso que eu já conhecia. Olhou para todos dentro do carro e com extrema dificuldade falou: "Feliz Ano Novo." Sequer reparou nas moedas, e abanou a mão direita quando o carro arrancou. A viagem naquele dia foi imensamente demorada. O tempo todo eu fui pensando no homem daquela esquina.

_______________________________________

Publicado em "Trilogia Paciente"
Casa do Novo Autor Editora - São Paulo  - 2000
____________________________________________


Probabilidades

















Ele esperava com paciência e resignação pelo grandia dia, pois tinha certeza que acabaria acertando. Trazia decorados os números que o fariam abandonar definitivamente o macacão respingado da tinta das muitas casas que já pintara na vida. Costumava pensar sua vida mudando, como mudavam as cores sob o rolo de tinta. Tudo seria novo, limpo e luminoso. Nas paredes tornava palpáveis as visões do novo tempo.

Religiosamente às quintas-feiras à tarde apostava um real e colocava no bolso do macacão seu passaporte para a felicidade. Invariavelmente às segundas-feiras quedava-se por cinco minutos olhando a tabuleta com os números diferentes dos seus. Então voltava para suas paredes, onde se deliciava com a projeção de seu futuro, como numa película.

Até que numa segunda-feira de chuva, aconteceu. Ele nunca suspeitara, em todos esses anos, que poderia estar chovendo no primeiro dia de seu novo tempo. Por isso não lhe ocorreu nenhum pressentimento diferente. Apenas a ansiedade de sempre, talvez um pouco mais acentuada pelo valor do prêmio, que há algumas semanas de acumulava. Tirou do bolso seu bilhete, e nesse dia demorou mais tempo olhando a tabuleta. Custou a assimilar aquela imensa coincidência, aquela total e inacreditável coincidência. Seus olhos pararam no vazio. Seu pensamento no nada absoluto. Com o bilhete na mão saiu para a calçada. Não sentiu a chuva encharcar seus ombros. Caminhou. Passos trôpegos. Na esquina, o olhar perdido no vazio dos primeiros instantes de seu novo tempo. A enxurrada. Uma freada brusca. Um corpo jogado a distância. Inerte. O sonho num pedaço de papel sendo tragado pelo bueiro.

________________________________________

Publicado em "Trilogia Paciente"
Casa do Novo Autor Editora São Paulo (2000)
_____________________________________________________

18.10.08

O Realejo do Periquito Azul























Hoje vi um homem tocando realejo na porta de uma churrascaria. Nada de mais, exceto pela raridade. Difícil ver realejos hoje em dia. Só chamou-me a atenção, o fato de ser o periquito azul e não verde como todo periquito de realejo. Tem que ser verde! Mas esse não, e parece que tinha consciência disso, pois se engalanava todo no pequeno poleiro. Divergia, e muito, do homem que manejava o instrumento sonoro. O tal dono do realejo tinha uma febril e corcunda aparência. Espiava pela porta da churrascaria enquanto virava com vagar a manivela da engenhoca. Olhos baços e famintos.

Parou uma mocinha, e ficou olhando o periquito. Ele, acho que por ser azul, esticou ainda mais o pescoço e inclinou a cabecinha soberba para o lado, com desdém. A ladainha fanhosa e modorrenta do realejo, e um aroma de baby beff. O homem curvo e baço não tirava os olhos da porta. A mocinha quis tocar os dedos na ave, que incontinente se afastou. E a manivela girando, lentamente. Juntaram-se mais uns dois ou três espectadores e aí então a fanha musiquinha parou. Sem tirar os olhos da porta, o homem bateu com os dedos uma ou duas vezes na caixa com os bilhetinhos e o bico do periquito buscou um da cor azul. A moça sorriu, largo. Desdobrou, ansiosa. Mas logo trancou o sorriso aberto. Um mal prenúncio, quem sabe. Ainda olhando o papelucho, a moça entregou uma moeda. O homem guardou no bolso e voltou a girar a manivela, olhando novamente para dentro da churrascaria. O periquito azul trincou no bico uma semente de girassol, embalado pela ladainha. Só isso.


_____________________________________________

Publicado em "Trilogia Paciente"
Casa do Novo Autor Editora (São Paulo-2000)
____________________________________________________________

Assobios























Quando via que a coisa apertava, fingia que não era com ele. Assobiava, disfarçando. Temia perder o emprego. Velho demais para conseguir outro. Inadequado, ouvira certa vez do capataz, e matutou no sentido da palavra. Só não entendia porque nos últimos tempos não mais o deixavam apenas anotar o número das placas dos caminhões na prancheta, como fizera no início. Era bem melhor do que ajudar a carregar as caixas pesadas. Com tanto rapaz mais forte. Mas assobiava, assim mesmo, fingindo que eram leves os fardos.

Insuficiente. De novo matutou e assobiou. Por que as caixas ficavam mais pesadas a cada dia? Talvez pelo peso dos olhos do capataz, sempre atento aos seus movimentos, mas disso ele não tinha certeza. Fardos que lhe curvavam os ombros doloridos e cansados. Mas assobiava ainda. Incompatível. De novo ficou sem entender a palavra. Por que usam palavras tão estranhas? No fim da tarde achava ter entendido. De novo sem trabalho, e naquela idade. Saiu pela porta assobiando, fingindo que não era com ele.


*

Publicado em "Trilogia Paciente"
Casa do Novo Autor Editora (SP - 2000)

*

Antes do fim do dia


















Precisava urgente marcar hora no oculista. Não conseguia ler direito o destino dos ônibus, a não ser quando já estavam muito perto. Mas cadê tempo? Tanta coisa pra fazer, tudo de uma vez. Olhava no relógio a cada segundo. Depois firmava a vista no trânsito. Lá adiante outro coletivo. Pra onde será que ele vai? Um vulto apenas, se aproximando, veloz e tortamente do ponto. Esse não serve. Os de tom azulado eram intermunicipais. Os urbanos tinham todos a mesma cor predominante. Ah, meu Deus! Que demora! Lá adiante mais outro, e era de admirar com que convicção as pessoas no ponto estendiam o braço, mesmo a grande distância.

Tanto por fazer, e nada do 612A. Olhava o relógio. Precisava visitar tia Joaninha, coitada, tão velhinha e entrevada. Precisava jogar um real na mega-sena acumulada. Então teria tempo e dinheiro de sobra pra consultar o melhor oculista, além de muito menos por fazer o dia inteiro. Só no bem bom. Precisava de um aumento. Depois de tantos anos, e ninguém reconhecia. A moça estendeu a mão. O ônibus bufou e parou a centímetros de seu nariz. A moça embarcou. Conhecia aquela moça! Não era a mesma que todo dia pegava a condução naquele horário? Lá se foi o 612A, todo torto e barulhento. Não teve tempo de embarcar. Precisava antecipar a visita ao oculista. Depois iria ver tia Joaninha. Já tão velha e entrevada, coitada...

_________________________________

Publicado em "Trilogia Paciente"
Casa do Novo Autor & Editora (SP - 2000)
_____________________________________________________

Hibisco
















Há um grande arbusto de hibisco defronte à janela de meu quarto. Quase uma árvore. Quase perenemente salpicado com grandes flores cor-de-rosa. Sempre um refúgio de pardais. Pode ser que haja pássaros de outras espécies, mas os pardais são mais freqüentes. Pelo menos mais numerosos, e por isso percebidos mais facilmente. Ora em bandos alvoroçados e barulhentos, ora em pousos solitários, estão sempre presentes. E assim esse arbusto, quase árvore, nunca está sozinho. Ele, que já se bastaria pela beleza rósea dentre a folhagem, ganha trinados e gorjeios, em nada dissimulados, e parece ficar mais feliz.

Vez por outra, com certa atenção e cuidado, é possível apreciar um idílio. Um desses pardais pousa e se mistura à folhagem. Incontinente, inicia uma melodia de três notas apenas. Lá, fá sustenido e sol. E repete a mesma linha melódica infinitas vezes, variando apenas na duração de cada nota. Entoa seu canto solitário e monótono repetindo-o como se fosse seu próprio eco. Lá, fá sustenido e sol. A cada frase um leve arfar, um tremor quase imperceptível. Lá, fá sustenido e sol. Durante toda a performance mantém-se no mesmo galho. Arfando e trinando. Lá, fá sustenido e sol. A melodia, assim entoada, pode durar vários minutos até que, surgido do nada, outro pássaro pousa no mesmo galho. Ambos trocam frêmitos gorjeios. Em seguida voam pra longe. Possivelmente por terem combinado fazer alguma coisa que o hibisco não precisa saber.

____________________________________

Publicado em "Trilogia Paciente"
Casa do Novo Autor Editora - SP (2000)
________________________________________________

31.3.06

Em cima da hora




















Diz que é coisa de brasileiro. Deixar para a última hora dá mais tesão. Hoje venceu o prazo de um monte de coisas. Para não perder a isenção de IPTU, ela precisou dar uma rebolada. Esqueceu a porcaria do papel em casa. Ligou para irmã. Quem disse que ela achou? "Mas é hoje, menina! Anda logo e acha essa droga!" Achou. Mas já estava em cima da hora. Talvez nem desse mais tempo. "Você tem meia hora pra chegar aqui, senão...!". Calçou o tênis, catou o papel e o cartão de passagens de ônibus. Correu para o ponto. Deu até mijaneira. Mas agora não dava tempo. Precisava chegar com o papel, senão... O ônibus a largou na avenida movimentada. Só precisava atravessar. Estava que não aguentava mais... Se parasse na padaria da outra esquina... O banheiro de lá era limpinho... Mas não daria tempo. Precisava entregar a droga do papel do IPTU, senão... Nem olhou antes de iniciar a corrida para atravessar a avenida. Mesmo porque, não daria tempo. Foi colhida em cheio pelo motoqueiro. Caiu quase dez metros depois. Sangrando. Toda mijada. Sua irmã acabava de perder a isenção do IPTU. E ainda teria uma multa para pagar. Que porcaria!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...