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19.3.20
30.11.18
A haste quebrada
Quero narrar este
fato como um dever de ofício. Não há outra razão, senão a obrigação a que a consciência nos remete em certos momentos. E que fique claro que não haveria
necessidade de eu estar aqui contando este caso, não fosse um tantinho de
nostalgia que me bateu noutro dia, ao tentar escrever uma crônica na minha
velha e saudosa "máquina de escrever", a que foi adquirida antes de qualquer
outra modernice de hoje em dia. Então raciocinei: nada de informática! Nada das
facilidades da Microsoft! Nada das comodidades oferecidas hoje em dia. Nada de
Bill Gates e seus seguidores.
Muito bem!
Retirada a tênue terra seca de cima da velha máquina de escrever, decidi levar
adiante o meu saudosismo, e escrever estas linhas. Na mesma máquina que causou
a história que lhes conto! Consigo lembrar quantidade ínfima dos fatos, mas
mesmo assim tentarei dar uma idéia do que significou em minha vida uma haste
quebrada. Que haste? - questionarão todos com razão. E eu lhes digo: a haste de
sustentação de uma certa letra de minha velha e saudosa máquina de escrever.
Uma consoante, diga-se! Fosse uma vogal, e esta narrativa sequer existiria.
Inimaginável conceber estas linhas sem qualquer das vogais. Mas, voltemos à
história! Essa tal haste se quebrou um dia, e a tal consoante que essa
milagrosa haste sustentava sumiu, sem que eu me desse conta do fato... E é esse
fato insignificante sobre a consoante sumida que lhes narro agora.
Foi assim: Eu era
um ‘foca’ de um certo jornalzinho desconhecido de qualquer bairro desta cidade,
nos idos de 1978. O nome do jornal eu vou omitir, justamente em razão da falta
daquela mesma consoante de que falei, e já que a máquina em que agora escrevo é
a mesma, até hoje não consertada. Muito bem! Foca, é bom que saibam os
senhores, é o iniciante no jornalismo, aquele que tem que encarar qualquer
trabalho com o objetivo de obter conhecimento no ofício que almeja exercer. Eu
era um deles, naquele ano de 1978, na busca de meu canudo de curso
universitário. E assim, eu era obrigado a concretizar qualquer ideia maluca do
editor do tal jornalzinho, escrevendo sobre o que ele imaginasse.
Só que eu fui um
foca de muita sorte, e só agora eu entendo o significado disso em minha vida. E
mais: a mesma sorte seguiu minha tênue carreira, de maneira que, em razão
disso, eu nunca necessitei suar tanto a camisa como acontece a qualquer
outro foca ou mesmo a alguns veteranos. E, dessa forma, graças a essa sorte
teimosa, eu acabei ganhando uma coluna semanal de crônicas no tal jornalzinho desconhecido,
o que me levava a crer numa vida muito cômoda e tranquila, uma vez que não
necessitaria sair atrás da notícia. Bastaria utilizar um tanto de criatividade
e outro tanto de correção gramatical e tudo estaria resolvido.
Ledo engano,
entretanto! Foi só quando conquistei essa invejável colocação de cronista,
almejada até entre os mais veteranos no jornalismo, que eu me dei conta da
quebra irremediável da haste daquela bendita letra na minha máquina de
escrever. Uma mísera haste, de uma mísera letra! Uma insignificante consoante!
Uma só entre tantas outras que integram o alfabeto e o teclado de minha
“vermelhinha”, que era como eu chamava, carinhosamente, a minha velha
máquina de escrever, objeto de tantos sonhos de estudante. E a falta desta
haste, acabou me custando caro, confesso!
O motivo é
singelo, entendo, hoje que sou dono de tecnologia mais avantajada, sem omissão
de vogal ou consoante. Naqueles dias, dinheiro eu não tinha que consertasse a
haste! Estudante, sabem todos os que estudaram, vive de lanche, dinheiro curto
e ônibus lotado! Consertar a tal haste eu não saberia, e nem teria condições de
fazê-lo, já que além da haste estar quebrada, a letra estava sumida. Então? Que
fazer? Como sustentar a confortável colocação de cronista já conquistada, num
mero acaso da insistente sorte, sem a tal letra?
Claro! A solução
se me afigurou tão clara como a luz do sol! Já que não era necessário atender
nenhuma determinação do editor quanto ao que escrever, já que tudo sairia de
minha cabeça, uma vez que crônica é crônica, e já que minha obrigação era
entregar um texto semanal que recheasse a coluna a mim reservada no
jornal, eu solucionaria a questão escrevendo somente artigos sem o
uso da tal letra que faltava na minha máquina. Adeus, inútil consoante!
Genial! Estava
resolvido! Nada de termos com aquela tal letrinha. Nada de florear e inventar,
senão o risco de necessitar da tal letra da haste quebrada seria uma ameaça.
Somente o trivial bastaria, e garantiria o que já havia sido conquistado: um
lugar ao sol como cronista! E assim foi na edição seguinte, e na outra, e na
outra, até que um dia o editor ligou lá em casa: “Escuta aqui, ô foca! Já
encheu o saco a sua crônica, sabia? Não tem nada que interesse! Tanta coisa
acontecendo em Brasília, e você me escreve sobre amenidades? Cadê aquela
“fleuma” do jornalista? Cadê a novidade? Cadê o fato do momento? Tem tanta
coisa acontecendo, e você fica aí com essa lenga-lenga, com essa água com
açúcar? Mais um texto e eu me defino: ou fica ou sai!”
Engoli um nó
formado em minha garganta, com muito custo. Quando desliguei o telefone, senti
não ter dado ao editor uma justificativa adequada, mas enfim, já tinha
desligado! Já que eu iria deixar de lado o status conseguido até então, decidi
colocar um fim honroso à minha breve carreira como cronista. Não entraria em
detalhes, já que coisa íntima deve-se guardar somente na intimidade, e se agora
lhes conto estes fatos é somente um gesto de confidência, uma iniciativa minha.
E assim, só
me resta lhes contar que encerrei minha curta carreira de cronista com um texto
breve, que jamais foi divulgado naquela jornalzinho de bairro no qual a
iniciei. O editor certamente o leu, mas nunca manifestou seu juízo sobre o que
leu. E hoje, raciocinando melhor, confesso dar razão ao editor. Como falar do
Congresso, da Assembleia e da Câmara, sem a tal consoante? Quase todos os que
ali flutuam levam a tal letra no nome, ou senão no cargo, ou então na fama,
qualquer que seja a razão...
Foi só então que,
entre indignado e frustrado em minha iniciativa de continuar batalhando e
escrevendo com uma máquina onde faltava só uma letra, enviei ao editor o que
escrevi naquela minha coxa maquininha vermelha:
“Sr. Editor:
Esqueça Brasília! Esqueça a “fleuma” do jornalista! Esqueça a novidade! Esqueça
o Congresso! Esqueça esses tais lá do momento! Me esqueça, isto sim! Quer saber
o que acontece comigo? Ai, ai, ai, senhor editor! O que acontece comigo é que eu “_ erdí” a letra “_ ê” da minha máquina
de escrever, “_ôrra” !
***
Publicado na coletânea "Por que comigo" - Editora PerSe - 2018
Projeto Apparere
***
Publicado na coletânea "Por que comigo" - Editora PerSe - 2018
Projeto Apparere
26.5.18
Naquela hora em que não choveu
Aos poucos as pessoas foram
recolhendo suas cadeiras e a areia foi se revelando, quase nua, salpicada
apenas por alguns detritos, restos da manhã. Aqui e ali um guarda-sol reticente
e com preguiça de fechar suas cores vivas. Nuvens escuras, que a princípio
apenas esgarçavam o céu, ainda a pouco radiante de luz e azul, se avolumaram
sorrateiras. Uma névoa espessa se formou
ao longe, disfarçando a paisagem distante naquela bruma que eu já conhecia. Os
primeiros pingos foram mal percebidos pelos meninos indiferentes ao céu que se
fechava rancoroso. Então choveu, e a tarde ainda ia pela metade nessa hora. Um
aguaceiro e tanto, generoso, amainando um pouco do calor intenso e quase
sufocante. Os retardatários ou incrédulos de que chovesse, correram em busca de
algum abrigo. Outros, no entanto pouco se incomodaram, pois tinham urgência em
aproveitar aquele dia e lugar.
Não era a primeira vez que eu via
esta cena ou dela participava. Tudo isso me veio aos olhos como se pertencesse
a um filme que se repetia, quadro a quadro. Recolhi-me, diante daquela falta de
novidades, e da porta aberta de meu trailer
fiquei vendo os pingos saltitando nas poças. Soldadinhos. Lembrei-me de uma
velha tia. São soldadinhos pulando, ela dizia. Mas não atinei até hoje porque
razão os pingos de chuva seriam soldados e porque cargas d’água soldados
haveriam de pular daquele jeito. Aí, uma coisa foi puxando outra no pensamento,
e cargas d’água parecia ter certa lógica naquele momento. Aquilo era uma carga
d’água, jorrando ininterrupta, como se saísse de uma grande esponja espremida
entre os dedos. E me diverti pensando que tamanho deveria ter a mão que a
espremia daquela maneira, e quanta água havia na esponja, certamente sugada do
mar lá fora, que nem mais se ouvia, tamanho era o barulho da chuva.
Assistir a chuva criar suas poças e
enxurradas foi ficando monótono demais e acabei cochilando na cadeira de praia
em que eu havia me recostado comodamente. Então o mar, erguendo-se de uma só
vez num grande redemoinho, começou a subir e subir, até que todos os seus
abismos e entranhas ficassem expostos como as vísceras de um animal abatido. E
tamanha era a força daquele turbilhão, que as árvores foram arrancadas com
todas as suas raízes e também subiram com a água daqueles oceanos que agora
pairavam sobre minha cabeça. Estranhamente não havia relâmpagos ou trovões, mas
somente um barulho rouco e interminável, como somente o turbilhão de todos os
mares poderia ser capaz de fazer. E então toda aquela gigantesca forma plúmbea,
depois de girar em grande velocidade naquela altura incomensurável que
alcançara, desabou novamente, num único movimento. E cada árvore que caía
ficava com suas raízes para cima, enquanto as águas dos mares que despencava
arrancavam-lhes ou últimos torrões da terra que nelas ficara presa.
De repente, acordei de um pulo e
demorei alguns segundos até perceber que ainda não era a hora do apocalipse.
Suspirei aliviado e me acomodei melhor na cadeira quando me certifiquei que
apenas a chuva se intensificara lá fora, que as árvores estavam firmes e
fincadas ao solo, e especialmente que ninguém percebera minha aflição naquele
momento. Já não estava tão claro e uma luminosidade artificial tremulava
refletida na imensa poça que eu podia vislumbrar. A tempestade teria tornado a
tarde mais escura ou já era noite? Nesse momento percebi que alguém se
movimentava a poucos metros de minha porta, como se puxasse algo da imensa
moita de bambu que oscilava sob a chuva abundante. Era o administrador do camping, tentando consertar um cabo
elétrico. Ergui-me e ofereci ajuda. Depois fiquei sabendo que algumas barracas
foram inundadas pelas águas. Numa delas havia senhoras e crianças. Procurava-se
acender as luzes de um trailer
desocupado, logo à frente, para acomodar os náufragos daquele dilúvio.
Com a solidariedade comum a todo
campista, em poucos minutos formara-se um mutirão de socorro. Lanternas,
alicates, cabos, vassouras, pás, tudo foi aparecendo como que por encanto e as
luzes do trailer vazio se acenderam,
sob a angustiante expectativa das encharcadas vítimas e do não menos encharcado
grupo de socorro. Minutos depois,
curiosamente, a chuva cedia e apenas alguns pingos ralos estalavam nos telhados
de lona. As pessoas voltaram a circular, cada vez em maior número, desviando
das poças de lama e água. Animadas, falavam em voz alta. Quase todas traziam
uma garrafa debaixo do braço e rumavam para o portão que levava à praia. Só
então eu fui me dar conta que faltava muito pouco para o fim do último dia do
ano.
Fomos todos esperar que algo
acontecesse lá fora, na praia. Era inacreditável, mas havia alguma estrela
teimando em luzir em meio a nuvens esparsas que ainda tomavam conta do céu. As
areias fervilharam de gente, indiferentes às estrelas ou ao que mais houvesse
no céu. Mas era para o céu que olhavam e era dele que esperavam alguma coisa,
os olhos faiscando. Em dado momento, cada qual em sua própria cronologia contou
os segundos. Espocaram os primeiros fogos, que logo inundaram de cores e sons toda a orla. E cada olhar refletiu pontos luminosos, de
inúmeras cores e anseios. A fumaça da festa pirotécnica começou a esconder as
luzes mais distantes, vagarosamente, imitando a bruma daquela mesma tarde. Em
pouco tempo voltou a chover e logo tão intensamente quanto antes. Custei a
dormir na primeira noite de ano novo, toda ela debaixo de novo aguaceiro.
Talvez com receio de voltar a sonhar com o fim do mundo. Afinal ele não
aconteceu, exceto pelos muitos náufragos daquele camping e pelas inúmeras famílias que começaram o novo ano sem ter
onde morar. Também me pareceu um filme já visto aquelas cenas de casas
destruídas por enchentes e desmoronamentos que a televisão mostrava nos
primeiros dias deste ano que mal começava.
***
Publicado nos livros:
Antologia Paulista - vol.2 - Legnar Editora - SP - 2000
Pipas no Caminho - e outros escritos guardados no tempo - Rumo Editorial - SP - 2018
19.12.17
Meus novos olhos
Hoje fui
buscar meus óculos, encomendados segundo a indicação de um profissional da
medicina que me lembro ter visitado apenas cinco vezes em toda minha vida. A
primeira foi num longínquo dia de exame obrigatório nos meus tempos de curso
primário. Depois, em três renovações da carteira de habilitação de motorista, e
na quinta-feira passada, pela primeira vez, por iniciativa própria.
Como eu
não conseguia ver direito as placas indicativas do Túnel Ayrton Senna, por onde
passo todo fim de tarde, fui lá testar minha acuidade visual. E deu no que deu.
Meu olho direito tem uma deficiência de 0,75 para longe, e existe um pequeno
problema no esquerdo quando precisa ver de perto. Ou algo parecido com isso,
sei lá. Na verdade, nunca me preocupei muito com essas questões oculares, pois
sempre tive a tal visão de lince, até dois meses atrás. Nem me preocupei com as
minhas prováveis deficiências visuais, nem com as dos outros, até quinta-feira
passada e por isso não posso ficar dando detalhes mais precisos acerca de
graus. Também não entendo nada de miopia, hipermetropia ou astigmatismo, ou
seja lá aquilo que for que eu agora tenho.
Mas, como
eu dizia, fui buscar meus óculos, em decorrência disso tudo. Confesso que
estava ansioso pelo momento, e até saí mais cedo do trabalho, com medo de
chegar na ótica e encontrar as portas fechadas.
Cheguei em tempo, felizmente, e fui recebido com cumprimentos e balas
pela simpática dona do estabelecimento, que até me chamou pelo nome. Não há
nada mais normal do que alguém te chamar pelo nome. Um pouco menos normal é te
oferecerem balas, suco de laranja e cafezinho. Muito menos normal, descobri
depois, é a tática desses simpáticos donos de óticas.
Fui logo
convidado a sentar-me em cômoda cadeira, diante de um espelho circular. Normal,
entendi. Dona Irene, a que me vendeu a armação cinco dias antes, me informou:
como é a primeira vez que você usa óculos, ele vai ter que te dar algumas
instruções. "Ele", era o outro simpático especialista que, desde que
fui lá pela primeira vez, me atendeu com grande cortesia. Comecei a ficar
preocupado. Afinal, óculos não é apenas uma simples armação com lentes de vidro
que se coloca sobre o nariz e que fica entre nossos olhos e o mundo? Pra que
então as instruções?
Estava
para começar o rosário de recomendações que eu nunca imaginei poderem existir,
pelo simples fato de ter que usar óculos. O meu, pra que fique mais claro,
deveria ter lentes multifocais, que em resumo é uma dessas inovações
introduzidas pela tecnologia, para eliminar o incômodo causado pelas antigas e
superadas bi-focais. Aquelas que
salientam tuas olheiras para o resto da população, pois trazem bem visíveis as
dificuldades do usuário em ver de longe e de perto ao mesmo tempo, através de
um semi-círculo na parte inferior das lentes.
As
indispensáveis recomendações do especialista para quem usa óculos pela
primeira vez me assombraram. Especialmente se forem com lentes do tipo
multifocais, pois estas exigem uma série de exercícios muito complexa e um
aprendizado bem amplo, fiquei sabendo. Descobri, logo na primeira recomendação,
que as tais lentes multifocais têm uma certa zona, à direita e à esquerda, e
abaixo da linha do horizonte, que não servem absolutamente para nada. São zonas
neutras. Através dessa zona nebulosa não conseguirei ver nada, além de borrões
distorcidos. Soube então qual a razão da
tática de oferecer balas, sucos e cafezinho. Os donos de ótica deveriam
conceder um desconto de pelo menos uns trinta por cento no preço dos óculos, em
virtude dessa inútil zona neutra das lentes. Ao invés disso, oferecem balas.
Desfeito o mistério.
O
principal alerta quanto a isso, frisou bem o especialista, é que você não vai
mais poder apenas virar os olhos para olhar para os lados. Vai ter que virar a
cabeça, pois assim seus olhos não são submetidos à brusca deformação que a área
neutra proporciona. Virando a cabeça, ao invés dos olhos, o seu cérebro
assimila logo o foco do objeto que você pretende ver. Gente! Vocês já pensaram
na consequência desse alerta? Como é que eu vou conseguir olhar , digamos, com
o rabo do olho, para aquela dona bem formada de corpo e feição, que passa ao
meu lado? Seja pela direita ou pela esquerda, o problema será o mesmo. Como disfarçar a olhadela indefectível para o "mulherão" que passa ao lado? Me danei! Ou entorto o pescoço, ou então todas as
bundas que passarem por mim ficarão definitivamente desfocadas pela tal zona
neutra da minha lente. Lamentável!
Mas não
era só isso. Disse-me o simpático especialista, que oferece balas e sucos
durante a visita à loja, que eu deveria me habituar com o novo jeito de subir e
descer escadas. Epa! Fiquei extremamente preocupado quando ele tocou nesse
assunto. Escada é escada, em qualquer lugar do mundo, tanto para quem usa
óculos quanto para quem não usa. Esse cara tá valorizando os óculos que me
vendeu, pensei. Mas, como marinheiro de primeira viagem utilizando as tais
lentes multifocais de última geração, ouvi a explicação, tintim por tintim.
Em
resumo, agora devo fazer muitas coisas que não fazia antes quando subia ou
descia uma escada. Olhar para o primeiro degrau, baixando a cabeça, e não os
olhos, calcular uma bissetriz entre o corrimão
e a altura de cada degrau. Colocar primeiro o pé direito, que é pra dar
sorte. Erguer a cabeça, e não só os olhos. Lembrar quantos degraus existem até
o topo ou o chão, e pronto... Conseguirei subir ou descer qualquer escada
usando óculos com lentes multifocais. Até as rolantes, me garantiu!
Outro ponto
que me chamou atenção naquela preliminar do especialista foi quanto à direção
de veículos automotores. Acho que vou ter que me inscrever numa auto-escola e
começar tudo de novo, pois as coisas mudam radicalmente quando se passa a ser
portador de óculos com lentes multifocais. Descobri que não devo olhar para os
retrovisores externos, seja do motorista, na esquerda, ou do passageiro, na
direita. Também vai ficar tudo fora de foco, como quando se olha para as bundas
com o rabo de olho, através da tal zona neutra. Já pensou? Eu, que sempre fui
bom em fazer manobras para estacionamento, aquelas tais balizas dos exames de
motorista! Como eu vou me virar, não sei.
Pra
encurtar a conversa, depois de cerca de meia hora de conselhos e recomendações
para usuários da primeira multifocal, dentre estes o de comer pipocas vendo
televisão, o gentil e simpático especialista da ótica me deu importantes dicas
de como lavar e conservar meus óculos com as discriminatórias lentes
multifocais. Sabãozinho e água aqui, lenço de papel ali, até que finalmente ele
me aconselhou a já sair da loja com o tal óculos, "pra ir
treinando". Agradeci, ganhei mais
algumas balas, uma flanelinha pra limpar
as lentes com muito cuidado e um estojo de feliz novo proprietário de um óculos
com lentes multifocais.
E lá fui
eu, óculos sobre o nariz, em direção ao meu carro. Logo de cara fui tropeçando no primeiro degrau da saída da
loja, e quase cai. A impressão que eu tive era a de estar dentro de um daqueles
aquários redondos. Cheguei relativamente bem até o meu carro, mas só acertei o
buraco da fechadura na terceira tentativa. Dei a partida, e antes de sair, fui
conferir o alerta sobre os retrovisores laterais. Santo Deus! Era verdade!
Sei dizer
que demorei um tempão pra chegar em casa, pois não passei dos quarenta
quilômetros por hora. Estava assustado demais com mudanças tão radicais e
repentinas. Custei a achar a fechadura da porta de meu apartamento. Custei a
localizar e tatear minha mulher antes de lhe dar o beijo de boa noite.
"Ah, agora sim! Você está parecendo um intelectual", me disse ela.
Creio que vou ter que conviver por algum tempo com esse tipo de coisas.
Paciência!
__________________
Publicado no livro "Para bem existir - e outros escritos guardados no tempo"
ISBN 978-85-60380-52-7
Rumo Editorial - SP - 2017
29.3.17
A fertilidade, a divagação e o desejo de novos tempos
Quando tudo parece caminhar para
becos sombrios e sem saída e para um total descrédito nas ações dos seres
humanos, demonstradas em atitudes cada vez mais desprovidas de qualquer
resquício da anima divina, do nada eu me peguei a pensar na romã, aquela
frutinha cheia de grãos justapostos, feito uma colmeia vegetal. E logo divaguei
por outros pensamentos não menos longínquos e quase abstratos, como a proporção
áurea e outros "que tais".
Quem sabe, resultado de alguns brindes em excesso, resultado de algumas ações também
desmedidas deste período dedicado às tais "festas".
De tudo o que já ouvi dizer e do
quanto já provei da fruta, concordo com algumas coisas e discordo de outras,
claro. Pela grande quantidade de sementes, a romã é considerada como um símbolo
da fertilidade, cuja origem se atribui a uma relíquia vegetal da velha Pérsia
ou do Irã, tanto faz, mas lá daqueles lados onde tudo o que é profano toma a
forma de sagrado e vice-versa. Lá, pela também longeva Grécia, a fruta era um atributo
de Hera, poderosa deusa feminina que zelava pelos casamentos e nascimentos dos
rebentos, tanto quanto à deusa Afrodite, aquela da beleza, do amor e da
sexualidade.
Nunca contei, mas dizem que a romã
tem 613 sementes (!), assim como 613 são os mandamentos ou provérbios judaicos
chamados de "Mitzvotz",
presentes em seu livro sagrado, a Torá, algo em que ainda pretendo me
aprofundar. Dessa forma, na tradição judaica, no feriado chamado “RoshHashanah”,
dia em que começa o ano judaico, é comum consumir romãs, símbolo de renovação,
fertilidade e prosperidade. Na Índia, dizem, as mulheres tomam o suco da fruta
para precaver-se da infertilidade. Os romanos antigos, especialmente os
recém-casados, usavam coroas de ramos da romanzeira, pois havia a crença de que
a forma e a cor da fruta se assemelha ao útero materno e ao sangue vital.
E vamos além: na maçonaria a fruta
tem uma forte simbologia, representando a união dos maçons e presente com
destaque em seus templos, no alto das colunas basilares da instituição, a
lembrar-lhes sobre os objetivos de solidariedade, igualdade, humildade, prosperidade e fraternidade, além da força e
da beleza. No cristianismo, há várias passagens da Bíblia onde a romã aparece
como fruta divina, como símbolo da perfeição, do amor cristão e da virgindade
de Maria, mãe de Jesus. Muitas vezes associada ao templo de Salomão, a romã é
consumida pelos cristãos no dia de Reis.
Todas essas conjecturas sobre a
mística fruta, me fizeram lembrar que, quando criança, morei numa casa onde um
pé de romã era como uma espécie de árvore da vida (ou do bem e do mal) bem no centro
do pequeno quintal. No entanto, dali colhíamos os frutos, quando era o tempo e
a hora, consumíamos os seus grãos, com simples deleite e sem qualquer preocupação
com significados a ela atribuídos. E, glória(!), nunca fomos expulsos do
paraíso por causa ou apesar disso.
Então eu fico pensando também nas
inúmeras vezes em que, depois de adulto e sem um pé de romã no meu quintal, eu
me sujeitei a pagar um preço quase sempre elevado por um simples fruto de romã
na feira ou no supermercado, apenas para cumprir alguma dessas crendices de
passagem de ano. Juntamente com algumas ondas do mar puladas a custo, a cor da
roupa íntima, lentilhas, folhas de louro, e outras baboseiras, a romã quase
sempre estava metida na história... Inconscientemente (ou não), mas lá estava a
romã.
Agora, revendo um pouco melhor todos os
significados dessa fruta, que particularmente sempre admirei e gostei, independente
de credos, deusas, raças, cores e o que seja, eu até entendo a presença dessa
infrutescência em algumas de minhas comemorações de passagem de ano. Acho que
sou um eterno crédulo do amor, da vida, da união, da paixão, do sagrado, do
nascimento, da morte e da imortalidade. Creio ainda, por menos que seja
razoável, na possibilidade de que a barbárie humana possa ter cura, que o ser
humano não é assim tão bestial quanto se revela diariamente, e etc.. Creio.
Acho que creio na simbologia da
fruta, uma maçã com sementes, pomogranate,
uma promessa de sabor, fertilidade e vida. Também não desacredito de que com
três grãos na carteira, dinheiro nunca há de me faltar, apesar do entra ano e
sai ano correndo atrás da grana. Opa, vai
saber! Mas no que acredito,
principalmente, é na força que a união dos grãos representa. Força da qual
poderemos, quem sabe, esperar pela força, fertilidade, pureza, beleza e pela
geração de um novo tempo, mais justo e perfeito, mais fraterno e muito, muito
mais feliz.
____________________________
Apresentado na Sociedade Brasileira de Médicos Escritores em 16.02.2017
22.2.17
A praia e a democracia
Alguém já disse que a
praia é o lugar mais democrático que existe.
Confesso que sou da mesma opinião. Em que outro lugar é possível entrar
e sair quando bem se entende, vestindo - ou não vestindo - o que der na telha,
fazendo - ou não fazendo - o que der vontade? Eu acho que é só na praia.
Não
consigo pensar em outro lugar em que isso seja possível. Nem mesmo no
Congresso, alardeado como uma casa essencialmente democrática. Se não me
engano, foi lá que construíram um tal espelho d’água. Será que é para distanciar
o povo da democracia que se faz lá dentro? Não pretendo me enveredar nesse
assunto, pois para isso existem os especialistas. Limito-me a falar das coisas
mais ao alcance da minha compreensão.
Por isso, volto a pisar na areia.
Entendo, porém, que há pequenas restrições à plenitude democrática que se
apregoa existir na praia. E há de se convir que é preciso observá-las, sob pena
de acabar convergindo para regimes, digamos, mais anárquicos. Não se pode
querer, por exemplo, que uma praia de nudismo seja frequentada pacificamente
por seminus, ou vice-versa. Mas isso ocorre apenas por uma questão de igualdade
de direitos e deveres. Havendo a sutil adaptação que o caso requer, de pronto
fica restabelecida a democracia. É questão apenas de uma peça a mais ou uma a
menos.
Também acho muito compreensível que
os amantes das praias busquem lugares ou grupos de frequentadores onde possam
se sentir mais à vontade ou enturmados. Cada um tem sua praia, como
também se diz por aí. Mesmo assim, pode-se perceber facilmente que a praia é
inimiga da maioria dos preconceitos. Pobres e ricos convergem para as mesmas
areias e abrem o guarda-sol lado a lado. Gordinhas branquelas e morenas
bronzeadíssimas caminham com a mesma naturalidade pela orla, cada qual na sua
mais completa liberdade de ir e vir. Nenhum preconceito: nem cor, nem raça, nem
classe social, nem religião...
A praia é um espaço que tanto serve
aos visitantes de um dia, que normalmente chegam em turmas numerosas e
barulhentas, quanto aos que ficam uma temporada inteira. Depois que se pisa na
areia da praia, todo mundo é igual. Convivem pacificamente os que cortam as
águas com seus poderosos jet-skis e os que pagam cinco reais para um
giro num banana-boat, com direito a tombo e tudo. Servem-se do mesmo
mar.
Ao chegar à areia, estender sua
esteira, abrir seu guarda-sol e sentar-se comodamente na cadeira, o indivíduo
perde todos os indícios de sua origem. A partir desse ritual, não importa mais
saber de onde a pessoa veio ou onde está hospedada, se é que está hospedada em
algum lugar. Tanto pode ter vindo num carro do ano, importado, quanto num
ônibus de excursão. Tanto pode estar se hospedando num caríssimo apartamento de
cobertura, quanto numa barraca de camping, numa casa alugada ou naquele
apartamento emprestado pelo cunhado e disputadíssimo nas temporadas... Que
importância tem isso quando se está à beira-mar?
Outra coisa que notei, é que pouca
diferença faz o tipo de petiscos que chegam às praias. Vale quase de tudo,
desde o amendoim torrado ou camarão sete barbas no espetinho, até o tão
decantado frango com farofa que, aliás, acaba dando margem a um dos poucos
preconceitos que ainda persistem nas areias. Noutro dia, por exemplo,
experimentei bucho frito à milanesa, que o Capivari trouxe para a roda na praia
que eu frequento. Como gosto não se discute, eu gostei e recomendo a iguaria.
Ainda mais se o acompanhamento for aquela cervejinha bem gelada, tirada da
inseparável caixa de isopor que também costuma estar sempre à mão. Para os que
preferem uísque, saibam que não faço a mínima restrição.
Na minha modesta opinião, a praia
tem todo esse ar de democracia, sim senhor, e seja lá onde for. Fico observando
o que as pessoas fazem enquanto estão na praia, e cada vez mais me convenço de
que uma aura democrática paira sobre ela. Os que jogam pelada sabem bem disso.
Quando a bola vai para longe, basta gritar “bola” que alguém gentilmente a
devolve. O mesmo ocorre com os que preferem o voleibol. Os que ficam se
empanando na areia, sabem que também poderiam empinar pipas, com a mesma
liberdade. Os que se deitam na esteira para tostar ao sol sabem que poderiam
apenas sentar-se à sombra usando protetor solar. E assim vai. Cada qual fazendo
o que bem lhe interessa fazer, com total liberdade.
Não estou me referindo a nenhuma praia em
especial, pois acredito que ao longo dos mais de oito mil quilômetros da costa
brasileira, a coisa seja mais ou menos parecida, com pequenas variações. Com
certeza você também já notou coisas desse tipo na praia em que costuma fincar
seu guarda-sol, mas talvez nunca tenha analisado quão simples pode ser a
democracia, se bem praticada.
Mas,
como tudo o que é bom tem seu preço, é preciso que se tenha sempre em conta
que, para chegar lá, às vezes é preciso enfrentar pequenos problemas indesejáveis.
A disputa por um lugar ao sol, talvez tenha que vencer antes algumas horas de
estrada entupida. E, certamente, com alguns mais apressados tentando
ultrapassar pelo acostamento. Acho que esses entendem que os fins justificam os
meios.
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Publicado no livro "O Encantador de Passarinhos e outras histórias" -
Rumo Editorial - SP - 2011
21.1.17
Estudos nada científicos sobre a temperança
Tenho sido um eterno aprendiz. Em todos
os sentidos e em tempo integral. Contudo, e em vários momentos, a vida me diz
algo intrigante, ou pelo menos desconfortável. É mais ou menos assim: "você
ainda não aprendeu isso direito, rapaz!". E lá vou eu, buscar os motivos, analisar prós
e contras, reaprender, enfim, ver onde foi que errei para que algo não tenha
dado certo antes. Fui rever alguns conceitos pessoais e lembrei-me da velha e
boa temperança.
Refletir
a temperança hoje em dia é um baita de um desafio. A palavra é quase uma
incógnita, pois desapareceu do vocabulário do homem médio moderno, assim como
do vocabulário da tal de “elite” intelectual, além daquela que se diz laica e,
surpreendentemente, daquela que se autodenomina religiosa. Acho que temperança ERA
uma virtude, pelo que cheguei a ler, estudar e apurar. Hoje em dia já não sei
mais do que se trata, e que Deus nos ajude daqui pra frente!
Temperança significava ter moderação, equilíbrio
e parcimônia em nossas atitudes. Pelo que já
apurei anteriormente, a palavra deriva do latim “temperantia”, que quer
dizer “guardar o equilíbrio”. (Que o Grande Arquiteto do Universo me ilumine
deste ponto em diante, para que eu não me destempere!) Quem faz isso hoje em
dia? Esse substantivo feminino que nomeia a qualidade ou virtude de quem atua
comedidamente, com prudência, sem a prática de exageros, está em pleno desuso.
Senão, completamente extinto. Quem, hoje em dia, tem controle sobre as paixões,
tem sobriedade em suas atitudes e decisões, evita os excessos em seus apetites,
seus desejos e vontades? Vade retro, temperança, que isso não
te pertence!
Ela, que já chegou ao nobre status
de virtude, pertencendo inclusive à nobilíssima classe das cardinais, com o fito de enaltecer a prudência, a fortaleza e a
justiça, encontra-se atualmente prostrada no porão do império de malfeitores
dissimulados e impolutos, insensíveis mandatários dos reinos de por aí afora.
Um bando de usurpadores e assassinos tratou de dar-lhe uma sepultura nada decente
nas masmorras do vício em que eles, os indignos mandatários, estão metidos. Ah,
Senhor! Dai-me o auxílio da temperança para que eu não blasfeme de agora em
diante!
Temperança é o autocontrole, a
renúncia e a moderação. A temperança precisa domesticar os instintos, sublimar as paixões,
moderar os impulsos e apetites. Agir com temperança é abrir caminhos para a
sobriedade e o desapego. A temperança leva ao caminho para o cumprimento dos
deveres e para a maturidade. E esses filhos de (...) ninguém que se dizem
mandatários não percebem isso... (Ah, Grande Arquiteto do Universo, ensinai-me
novamente, pois da temperança acho que quase nada aprendi. Ando sem paciência,
sem tolerância e praticamente sem esperança... Querendo dar porrada nos
usurpadores, embora sentindo-me sem forças para isso. )
Sinceramente, eu não gostaria de parecer
apenas um símbolo, tal qual um arcano do Tarô, passando a água de um vaso para
outro, como a querer purificá-la com esse gesto de vai e vem perpétuo. Sempre, quando
tiver que exercer a temperança e praticá-la, eu gostaria muito que a simbologia
do Tarô e a virtude todinha que a temperança representa se materializasse. Especialmente
em mim e também em certas outras coisas e pessoas.
Não vejo relação alguma, exceto a
lógica anteposição, entre certas virtudes e certos vícios, mas de pronto
acredito piamente que, por exemplo: vaidade, ganância e avareza são dejetos,
sujeiras, merda mesmo e não combinam nunca com qualquer virtude, muito menos
com a temperança, que eu pessoalmente tenho como uma das boas virtudes. Como
pode o avarento e ganancioso ser piedoso, generoso ou caridoso? Como pode o
egoísta e vaidoso ser gentil e complacente com os que estejam brilhando mais
que eles? Entende qual é ponto? É meio sutil, mas existe. Pois é.
Eu não tenho a mínima intenção de
ser dono de qualquer verdade, pois meu aprendizado é parco e insuficiente. Só
quero que me seja permitido ir para a praia no próximo fim de semana, e que
haja sol em alguns momentos, e que as pessoas que eu encontrar estejam felizes
e convencidas de que o melhor que têm a fazer é tomar uma caipirinha bem feita,
com o pé na areia, sem culpa e sem a neurótica necessidade de ter apitos de alarme para as ameaças que nos
afligem no dia a dia. E que o Senhor, Grande Arquiteto do Universo, seja sempre
justo e perfeito com tudo e com todos, cada qual no seu pensar e cada qual no
seu modo de agir! E que cada um faça sua parte na construção de seu templo
pessoal e especialmente no templo da humanidade da qual ele faz parte e pela
qual tem que lutar. E que cada um pague pelo seu vício, na legítima proporção
de suas faltas. E que cada um receba suas benesses da forma que lhe couber. E
que assim seja!
***
Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima quarta fornada"
Rumo Editorial - SP - 2016
28.11.16
Razão e emoção
A palavra equilíbrio contém uma gama de
significados que muitas vezes passam despercebidos e não permite entendê-la
perfeitamente. Envolve noções de igualdade, proporcionalidade,
estabilidade, distribuição harmoniosa entre partes, moderação de gestos,
palavras, sentimentos, estabilidade mental e emocional, comedimento,
autocontrole e tantas outras. Uma grande abrangência para palavra tão
corriqueira e, paradoxalmente, pouco praticada.
É bastante comum que em momentos de crise, palavra
esta também de amplos significados, alguém reivindique a necessidade de doses
de equilíbrio como solução, dando a este último o poder da cura de muitos
males. Há, no entanto, muitos fatores adjacentes e também necessários para que
haja uma terapia eficaz em momentos de situação econômica ou social
repleta de problemas, de momentos indefinidos e plenos de riscos,
dúvidas, tensões, desgastes e desajustes que acabam interferindo também, e
especialmente, no corpo e na mente das pessoas envolvidas.
O pretendido
equilíbrio entre razão e emoção é uma árdua tarefa na busca do restabelecimento
de situações mais amenas. Não é fácil manter a serenidade para um melhor
desempenho no trabalho, nas relações com a família e com a sociedade de modo
geral. Não é algo simples não se deixar influenciar pelas ameaças de uma
sociedade cada dia mais violenta, competitiva e menos tolerante. Não será fácil
ter atitudes ponderadas se não impusermos a nós mesmos alguma dose de
tolerância, paciência e boa vontade. Mesmo que não se perceba nos governantes
qualquer indício de vontade de fazerem sua parte para sair da crise, sempre
caberá a cada um de nós uma iniciativa pessoal em prol do equilíbrio de
atitudes e perseverança na busca de soluções.
________________
26.10.16
Abaixo as calcinhas
Não é raro ouvir alguém dizer: “puxa, como o tempo passou depressa!”. Como se tivesse criado asas, fato é que o
tempo tornou-se uma preocupação constante das pessoas quando estas se dão conta
da velocidade com que ele transcorre. Ou voa mesmo, quase literalmente.
A ansiedade tem boa parte da culpa nesse processo. De modo
geral, temos nos tornado cada dia mais ansiosos. Mal uma semana começa, e já
estamos logo pedindo: “chega logo, sexta-feira, sua linda!”. Mal começou um
domingo e já estamos lamentando: “que merda! Já é segunda-feira de novo!”. Acho
que nos encarregamos de dar pressa ao tempo, isso sim.
O que me fez pensar nessa baboseira e acabou me deixando
meio puto da vida, foi ter passado diante de uma loja de lingerie no último dia
30 de setembro, mal iniciada a primavera, e ver um cartaz mais ou menos assim:
“Antecipe seu reveillon e compre hoje
mesmo sua calcinha! (sic)”. Ora vão se catar, isso sim! Abaixo as calcinhas,
pois de 30 de setembro até 31 de dezembro ainda tem chão, e muita vida pela
frente! Depois não querem que o tempo voe!
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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima terceira fornada"
Rumo Editorial - SP - 2014
Compre o livro aqui: LIVRARIA VIRTUAL RUMO EDITORIAL
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25.9.16
Em três palavras
Contarei
algumas histórias. Apenas frases curtas. Em três palavras. Serão histórias
rápidas. Somente três palavras. Serão histórias felizes? Quem saberá dizer? Talvez
não sejam. Uma aventura apenas. Uma singela brincadeira. Pode ser perigosa. Ou
apenas divertida. Vamos ao ponto.
Maria amava João. Poderia começar
assim. Mas não será. Então começo diferente. João amava Maria. Ela não ligou.
João ficou triste. Ela nem aí. Maria sem coração. João sem esperança. Esse amor
acabou. Fim desta história.
Mais uma história. Olhei pela
janela. Chovia lá fora. Tudo muito molhado. Eu olhando goteiras. Apreciando
aquela molhadeira. Por dentro, diferente. Apenas meio frio. Talvez muito seco.
Precisando uma companhia. Sozinho neste aconchego. Precisando um cobertor. Uma
triste solidão. Fim d'outra história.
Uma nova tentativa. Somente três
palavras? Sim, somente três. Insólito desafio, ameaçador. Como contar algo? Há
história assim? Tão poucas palavras? Um enorme desafio! Como ser feliz? Como
ser triste? Missão muito complicada. Impossível contar assim. Que faço agora?
Desistir do desafio? Tentação: eu resisto!
Mesma história anterior. No mesmo
cenário. Abri minha janela. Há luz agora. Um dia ensolarado. Pássaros cantam
felizes. Cores são radiantes. Continuo sem
companhia. Na mesma solidão. Que adianta amanhecer? Chuva ou sol. É
mesma coisa. Sempre será assim? Apenas três palavras? Não dá certo! Assim não
vai. Nenhuma história aguenta. Ninguém se sustenta. Não há felicidade. Busco
final feliz. Vou tentar novamente. Será última vez.
Maria amava João. João amava Maria. Foram
eternamente felizes. Eu amo chuva. Ela é necessária. Ela é companheira. Chuva
me alimenta. Agradeço por chover. Eu amo sol. Ele é agasalho. Ele me aquece.
Agradeço pelo sol. Não estou sozinho. Tenho quase tudo. Aliás, tenho tudo.
Escreverei minha história. Será muito simples. Só preciso palavras. Mais que
três? Menos que três? Ainda não sei. Quero apenas felicidade. Apenas isso
basta. Com quantas palavras? Com quantas quiser! Felicidade é viver. Lá vai ela! Então, Carpe Diem!
Pronto, ai está! Uma história feliz! Em três palavras. Muito obrigado, Senhor!
Marcos Gimenes Salun. (Autor desta heresia). Dez de junho. Dois mil dezesseis.
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Publicado nos Anais do XXVI Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
realizado em São Paulo de 22 a 24 de setembro de 2016.
RUMO EDITORIAL - SP - 2016
Segundo lugar no concurso de prosas do evento
Algumas coisas sobre ajoelhar e rezar
Cumprindo
uma rotina que há muito eu realizava, fui visitar minha mãe numa tarde de sábado. Ela, já viúva e morando sozinha,
exceto pela presença do Gordo, um velho e sossegado gato, tão velho quanto
minha mãe poderia desejar que fosse, sempre esperou minha visita nas tardes de
sábado. Na medida do que eu entendia ser "possível", eu cumpria o
ritual das visitas. Obrigação de filho. Quando não dava para ir, lá ficava
minha mãe, apenas com a companhia do velho gato.
Sempre achei que gatos e pessoas
pudessem conviver muito bem nos propósitos dados pelo Ser superior que nos
criou e nos conduz, quais sejam: um faz companhia ao outro até que, em algum dia,
incerto e inesperado, um deles se vai. E aí, pronto! Acabam-se os desígnios da
providência divina e deixam de existir deveres e obrigações, acabam as amarras
e interrompe-se a cumplicidade entre gatos e pessoas. É nesse momento que gatos
e humanos se separam, pelo menos temporariamente. Tanto quanto sucumbem as
pessoas, assim há de acontecer com os gatos, que se entregam ao desígnio final,
que é a morte, apenas ressalvando-se a questão do tempo em que isso ocorre.
Naquele sábado eu não me lembro como
estava me sentindo: se obrigado ou desatento pela rotina do filho que visitava a
velha e solitária mãe e seu velho gato; se saudoso do gato e de minha mãe; se
simplesmente mecanizado pela insistência do tempo e da obrigação; se apenas
cumprindo um ritual sem sentido e enfadonho, imaginando alguma punição ou consequência
por minha eventual omissão, num possível dia do juízo que possa haver...
Sinceramente não sei. Naquele sábado eu só
fui visitar minha mãe, como sempre fazia.
Ela não me pareceu tão bem naquela visita, como aliás poderia não estar
tão bem em outros tantos sábados que a visitei antes, e eu nada percebera, talvez
porque eu não tivesse prestado tanta atenção como naquele dia... Também não
sei. O gato continuava, como sempre, num canto qualquer da casa, atento e vasculhando apenas as minúcias do silêncio,
espreitando a solidão de cada móvel que permanecia estático, alheio à poeira do
tempo que se insinuava. Lançou-me aquele olhar sábio e displicente e, com sua
alma ingenuamente felina, cerrou novamente os olhos. Ele reinava em sua
casa, na casa de minha mãe e que era dele também.
Aparente
e rotineiramente tudo andava bem naquela visita de sábado à tarde. Contudo, houve
um infarto naquele dia. Gaguejando ao telefone, chamei o SAMU. Eles vieram
rapidamente, mas não o suficiente para que pudessem fazer algo. Não havia mais
tempo para quase nada. A viatura nos levou ao pronto atendimento de um
hospital. Nada mais a fazer. Minha mãe tinha partido, e o gato ficou na casa,
solitário e sem saber que sua única companheira não estaria mais disponível.
Lembro-me que nesse dia eu me ajoelhei
para rezar e pedi a Deus que não levasse embora, bem naquele momento, a minha querida
mãe. Foi então que eu me dei conta que já fazia algum tempo que eu deixara em
segundo plano o hábito de ajoelhar e rezar. Fosse para pedir ou agradecer, a
oração me acompanhara por um bom tempo de minha vida, até que, provavelmente,
tornara-se uma rotina e eu a relegara ao esquecimento. Não que eu houvesse perdido
minha fé no Criador. Talvez tenha sido apenas o meu comodismo de achar que Deus
tivesse obrigação de fazer tudo por mim. Então eu me senti frágil e infiel
naquele momento em que temia a perda iminente e me ajoelhei. Como eu deveria
pedir algo a um Deus que ficara esquecido num canto da minha vida? Por que eu
deveria esperar d'Ele alguma coisa?
A partir daquele dia, hoje eu sei,
fui instado a refletir um pouco mais sobre determinadas coisas. Era apenas o
curso da existência, mas eu havia sido pego totalmente distraído. Num átimo, perdi
minha mãe, o velho Gordo perdeu seu referencial. Desapareciam alguns laços e vínculos
que antes me pareciam inabaláveis. A vida mudava para todos, indelevelmente. O
Gordo perdeu sua provedora e companheira. E eu perdia naquele dia algo que não
me dava mais conta de que um dia perderia.
Esta não fora a primeira vez e nem
seria a última em que me era dada a oportunidade de, ao menos por alguns
instantes, poder refletir um pouco mais sobre o significado das coisas que não
dependem apenas de ajoelhar, rezar e deixar tudo para que Deus resolva. A
primeira vez foi quando perdi meu pai. Tudo muito parecido, pois a morte é
sempre muito igual em seu propósito de tentar romper vínculos. Enfim, são
desses fatos marcantes que se acaba tendo um aprendizado precioso. É isso o que
me leva a transmitir a quem puder se interessar nas lições daquilo que recebemos
sem ficar esperando sempre pela Providência Divina. Não que possamos, com isso,
mudar os desígnios misteriosos da Grande Arquiteto do Universo. Na verdade, o
mais precioso que possa haver seja entender o silencioso trabalho da maturidade na
medida em que vai lapidando a nossa pedra bruta interior. Assim que
houver oportunidade eu lhes direi sobre outras coisas. Por enquanto fica apenas
um convite à reflexão.
Ah! Apenas para constar: o velho e
pacato Gordo também se foi, só que numa manhã de segunda-feira e muito tempo
depois. Após a morte de minha mãe nós o trouxemos para nossa casa, onde ele
também reinou, sempre silencioso e retribuindo com gratidão e fidelidade à
companhia de seus novos parceiros de jornada. Até naquele dia onde o propósito
de sua presença também já havia sido cumprido.
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Publicado nos Anais do XXVI Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
realizado em São Paulo, de 22 a 24 de setembro de 2016.
realizado em São Paulo, de 22 a 24 de setembro de 2016.
Rumo Editorial - São Paulo - 2016
Terceiro lugar no Concurso de Prosas do evento
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