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19.3.20

O sonho e a probabilidade



Nem tanto à propósito, mas me ocorreu agora como o ser humano tem imensa capacidade de sonhar e acreditar no improvável. Quando não, no próprio impossível. Um exemplo: cada vez que uma dessas loterias de números acumula zeros à direita de qualquer algarismo, o fenômeno se manifesta com grande intensidade.

As filas que se formam diante dos guinches das casas lotéricas estimula as pessoas a trocarem ideias sobre o que fariam se ganhassem a bolada toda. O assunto vira até pauta de programas de rádio e televisão, tamanha a força que as cifras exercem na imaginação das pessoas. Confesso que não deixo de fazer minha “fezinha” nessas oportunidades.
            
Noutro dia, um homem à minha frente na fila para jogar numa dessas loterias acumuladas, alardeava a quem pudesse ouvir, de que maneira gastaria a grande bolada. Começou jurando que mandaria o seu patrão para algum lugar pouco recomendável, e que colocaria uma bomba debaixo de sua cadeira. Depois disse que compraria casas, carros, iates, fazendas, e tudo o mais que lhe viesse à cabeça. Em vinte minutos, gastou uma dinheirama absurda, com os sonhos de consumo mais estapafúrdios que lhe ocorreram, entremeando-os com vinganças pessoais sem qualquer propósito. E assim foi até que chegou a sua vez de fazer o jogo. A mocinha do guichê de apostas devolveu o volante ao gastador, e desejou boa sorte. E lá se foi ele, rindo à toa e acreditando que o seu jogo seria o ganhador.
            
Como a grande maioria, e como eu também naquele momento, o homem da fila nem se deu conta de que a chance dele vir a acertar o resultado pode beirar o absurdo de uma entre cinquenta milhões. Isso aumenta enormemente as possibilidades do seu patrão não ser atingido pela tal bomba. E já que estou falando em probabilidade, creio que ela seja muito grande de que eu veja o mesmo homem na fila da casa lotérica numa próxima loteria acumulada qualquer. Nesses casos, diria a velha sabedoria popular: a esperança é a última que morre, a fé é uma grande virtude, muito embora a vingança não seja propriamente um bom sentimento.

30.11.18

A haste quebrada














Quero narrar este fato como um dever de ofício. Não há outra razão, senão a obrigação a que a consciência nos remete em certos momentos. E que fique claro que não haveria necessidade de eu estar aqui contando este caso, não fosse um tantinho de nostalgia que me bateu noutro dia, ao tentar escrever uma crônica na minha velha e saudosa "máquina de escrever", a que foi adquirida antes de qualquer outra modernice de hoje em dia. Então raciocinei: nada de informática! Nada das facilidades da Microsoft! Nada das comodidades oferecidas hoje em dia. Nada de Bill Gates e seus seguidores.

Muito bem! Retirada a tênue terra seca de cima da velha máquina de escrever, decidi levar adiante o meu saudosismo, e escrever estas linhas. Na mesma máquina que causou a história que lhes conto! Consigo lembrar quantidade ínfima dos fatos, mas mesmo assim tentarei dar uma idéia do que significou em minha vida uma haste quebrada. Que haste? - questionarão todos com razão. E eu lhes digo: a haste de sustentação de uma certa letra de minha velha e saudosa máquina de escrever. Uma consoante, diga-se! Fosse uma vogal, e esta narrativa sequer existiria. Inimaginável conceber estas linhas sem qualquer das vogais. Mas, voltemos à história! Essa tal haste se quebrou um dia, e a tal consoante que essa milagrosa haste sustentava sumiu, sem que eu me desse conta do fato... E é esse fato insignificante sobre a consoante sumida que lhes narro agora.

Foi assim: Eu era um ‘foca’ de um certo jornalzinho desconhecido de qualquer bairro desta cidade, nos idos de 1978. O nome do jornal eu vou omitir, justamente em razão da falta daquela mesma consoante de que falei, e já que a máquina em que agora escrevo é a mesma, até hoje não consertada. Muito bem!  Foca, é bom que saibam os senhores, é o iniciante no jornalismo, aquele que tem que encarar qualquer trabalho com o objetivo de obter conhecimento no ofício que almeja exercer. Eu era um deles, naquele ano de 1978, na busca de meu canudo de curso universitário. E assim, eu era obrigado a concretizar qualquer ideia maluca do editor do tal jornalzinho, escrevendo sobre o que ele imaginasse.

Só que eu fui um foca de muita sorte, e só agora eu entendo o significado disso em minha vida. E mais: a mesma sorte seguiu minha tênue carreira, de maneira que, em razão disso,  eu nunca necessitei suar tanto a camisa como acontece a qualquer outro foca ou mesmo a alguns veteranos. E, dessa forma, graças a essa sorte teimosa, eu acabei ganhando uma coluna semanal de crônicas no tal jornalzinho desconhecido, o que me levava a crer numa vida muito cômoda e tranquila, uma vez que não necessitaria sair atrás da notícia. Bastaria utilizar um tanto de criatividade e outro tanto de correção gramatical e tudo estaria resolvido.

Ledo engano, entretanto! Foi só quando conquistei essa invejável colocação de cronista, almejada até entre os mais veteranos no jornalismo, que eu me dei conta da quebra irremediável da haste daquela bendita letra na minha máquina de escrever. Uma mísera haste, de uma mísera letra! Uma insignificante consoante! Uma só entre tantas outras que integram o alfabeto e o teclado de minha “vermelhinha”, que era como eu chamava, carinhosamente,  a minha velha máquina de escrever, objeto de tantos sonhos de estudante. E a falta desta haste, acabou me custando caro, confesso!

O motivo é singelo, entendo, hoje que sou dono de tecnologia mais avantajada, sem omissão de vogal ou consoante. Naqueles dias, dinheiro eu não tinha que consertasse a haste! Estudante, sabem todos os que estudaram, vive de lanche, dinheiro curto e ônibus lotado! Consertar a tal haste eu não saberia, e nem teria condições de fazê-lo, já que além da haste estar quebrada, a letra estava sumida. Então? Que fazer? Como sustentar a confortável colocação de cronista já conquistada, num mero acaso da insistente sorte, sem a tal letra?

Claro! A solução se me afigurou tão clara como a luz do sol! Já que não era necessário atender nenhuma determinação do editor quanto ao que escrever, já que tudo sairia de minha cabeça, uma vez que crônica é crônica, e já que minha obrigação era entregar um texto semanal que recheasse a coluna a mim reservada no jornal,  eu solucionaria a questão escrevendo somente artigos sem o uso da tal letra que faltava na minha máquina. Adeus, inútil consoante!

Genial! Estava resolvido! Nada de termos com aquela tal letrinha. Nada de florear e inventar, senão o risco de necessitar da tal letra da haste quebrada seria uma ameaça. Somente o trivial bastaria, e garantiria o que já havia sido conquistado: um lugar ao sol como cronista! E assim foi na edição seguinte, e na outra, e na outra, até que um dia o editor ligou lá em casa: “Escuta aqui, ô foca! Já encheu o saco a sua crônica, sabia? Não tem nada que interesse! Tanta coisa acontecendo em Brasília, e você me escreve sobre amenidades? Cadê aquela “fleuma” do jornalista? Cadê a novidade? Cadê o fato do momento? Tem tanta coisa acontecendo, e você fica aí com essa lenga-lenga, com essa água com açúcar? Mais um texto e eu me defino: ou fica ou sai!”

Engoli um nó formado em minha garganta, com muito custo. Quando desliguei o telefone, senti não ter dado ao editor uma justificativa adequada, mas enfim, já tinha desligado! Já que eu iria deixar de lado o status conseguido até então, decidi colocar um fim honroso à minha breve carreira como cronista. Não entraria em detalhes, já que coisa íntima deve-se guardar somente na intimidade, e se agora lhes conto estes fatos é somente um gesto de confidência, uma iniciativa minha.

E assim, só me resta lhes contar que encerrei minha curta carreira de cronista com um texto breve, que jamais foi divulgado naquela jornalzinho de bairro no qual a iniciei. O editor certamente o leu, mas nunca manifestou seu juízo sobre o que leu. E hoje, raciocinando melhor, confesso dar razão ao editor. Como falar do Congresso, da Assembleia e da Câmara, sem a tal consoante? Quase todos os que ali flutuam levam a tal letra no nome, ou senão no cargo, ou então na fama, qualquer que seja a razão...

Foi só então que, entre indignado e frustrado em minha iniciativa de continuar batalhando e escrevendo com uma máquina onde faltava só uma letra, enviei ao editor o que escrevi naquela minha coxa maquininha vermelha:

“Sr. Editor: Esqueça Brasília! Esqueça a “fleuma” do jornalista! Esqueça a novidade! Esqueça o Congresso! Esqueça esses tais lá do momento! Me esqueça, isto sim! Quer saber o que acontece comigo? Ai, ai, ai, senhor editor! O que acontece comigo é que eu  “_ erdí”  a letra  “_ ê”  da minha máquina de escrever, “_ôrra” !

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Publicado na coletânea "Por que comigo" - Editora PerSe - 2018
Projeto Apparere





26.5.18

Naquela hora em que não choveu



Aos poucos as pessoas foram recolhendo suas cadeiras e a areia foi se revelando, quase nua, salpicada apenas por alguns detritos, restos da manhã. Aqui e ali um guarda-sol reticente e com preguiça de fechar suas cores vivas. Nuvens escuras, que a princípio apenas esgarçavam o céu, ainda a pouco radiante de luz e azul, se avolumaram sorrateiras.  Uma névoa espessa se formou ao longe, disfarçando a paisagem distante naquela bruma que eu já conhecia. Os primeiros pingos foram mal percebidos pelos meninos indiferentes ao céu que se fechava rancoroso. Então choveu, e a tarde ainda ia pela metade nessa hora. Um aguaceiro e tanto, generoso, amainando um pouco do calor intenso e quase sufocante. Os retardatários ou incrédulos de que chovesse, correram em busca de algum abrigo. Outros, no entanto pouco se incomodaram, pois tinham urgência em aproveitar aquele dia e lugar.

Não era a primeira vez que eu via esta cena ou dela participava. Tudo isso me veio aos olhos como se pertencesse a um filme que se repetia, quadro a quadro. Recolhi-me, diante daquela falta de novidades, e da porta aberta de meu trailer fiquei vendo os pingos saltitando nas poças. Soldadinhos. Lembrei-me de uma velha tia. São soldadinhos pulando, ela dizia. Mas não atinei até hoje porque razão os pingos de chuva seriam soldados e porque cargas d’água soldados haveriam de pular daquele jeito. Aí, uma coisa foi puxando outra no pensamento, e cargas d’água parecia ter certa lógica naquele momento. Aquilo era uma carga d’água, jorrando ininterrupta, como se saísse de uma grande esponja espremida entre os dedos. E me diverti pensando que tamanho deveria ter a mão que a espremia daquela maneira, e quanta água havia na esponja, certamente sugada do mar lá fora, que nem mais se ouvia, tamanho era o barulho da chuva.

Assistir a chuva criar suas poças e enxurradas foi ficando monótono demais e acabei cochilando na cadeira de praia em que eu havia me recostado comodamente. Então o mar, erguendo-se de uma só vez num grande redemoinho, começou a subir e subir, até que todos os seus abismos e entranhas ficassem expostos como as vísceras de um animal abatido. E tamanha era a força daquele turbilhão, que as árvores foram arrancadas com todas as suas raízes e também subiram com a água daqueles oceanos que agora pairavam sobre minha cabeça. Estranhamente não havia relâmpagos ou trovões, mas somente um barulho rouco e interminável, como somente o turbilhão de todos os mares poderia ser capaz de fazer. E então toda aquela gigantesca forma plúmbea, depois de girar em grande velocidade naquela altura incomensurável que alcançara, desabou novamente, num único movimento. E cada árvore que caía ficava com suas raízes para cima, enquanto as águas dos mares que despencava arrancavam-lhes ou últimos torrões da terra que nelas ficara presa.

De repente, acordei de um pulo e demorei alguns segundos até perceber que ainda não era a hora do apocalipse. Suspirei aliviado e me acomodei melhor na cadeira quando me certifiquei que apenas a chuva se intensificara lá fora, que as árvores estavam firmes e fincadas ao solo, e especialmente que ninguém percebera minha aflição naquele momento. Já não estava tão claro e uma luminosidade artificial tremulava refletida na imensa poça que eu podia vislumbrar. A tempestade teria tornado a tarde mais escura ou já era noite? Nesse momento percebi que alguém se movimentava a poucos metros de minha porta, como se puxasse algo da imensa moita de bambu que oscilava sob a chuva abundante. Era o administrador do camping, tentando consertar um cabo elétrico. Ergui-me e ofereci ajuda. Depois fiquei sabendo que algumas barracas foram inundadas pelas águas. Numa delas havia senhoras e crianças. Procurava-se acender as luzes de um trailer desocupado, logo à frente, para acomodar os náufragos daquele dilúvio.

Com a solidariedade comum a todo campista, em poucos minutos formara-se um mutirão de socorro. Lanternas, alicates, cabos, vassouras, pás, tudo foi aparecendo como que por encanto e as luzes do trailer vazio se acenderam, sob a angustiante expectativa das encharcadas vítimas e do não menos encharcado grupo de socorro.  Minutos depois, curiosamente, a chuva cedia e apenas alguns pingos ralos estalavam nos telhados de lona. As pessoas voltaram a circular, cada vez em maior número, desviando das poças de lama e água. Animadas, falavam em voz alta. Quase todas traziam uma garrafa debaixo do braço e rumavam para o portão que levava à praia. Só então eu fui me dar conta que faltava muito pouco para o fim do último dia do ano. 

Fomos todos esperar que algo acontecesse lá fora, na praia. Era inacreditável, mas havia alguma estrela teimando em luzir em meio a nuvens esparsas que ainda tomavam conta do céu. As areias fervilharam de gente, indiferentes às estrelas ou ao que mais houvesse no céu. Mas era para o céu que olhavam e era dele que esperavam alguma coisa, os olhos faiscando. Em dado momento, cada qual em sua própria cronologia contou os segundos. Espocaram os primeiros fogos, que logo  inundaram de cores e sons toda a orla.  E cada olhar refletiu pontos luminosos, de inúmeras cores e anseios. A fumaça da festa pirotécnica começou a esconder as luzes mais distantes, vagarosamente, imitando a bruma daquela mesma tarde. Em pouco tempo voltou a chover e logo tão intensamente quanto antes. Custei a dormir na primeira noite de ano novo, toda ela debaixo de novo aguaceiro. Talvez com receio de voltar a sonhar com o fim do mundo. Afinal ele não aconteceu, exceto pelos muitos náufragos daquele camping e pelas inúmeras famílias que começaram o novo ano sem ter onde morar. Também me pareceu um filme já visto aquelas cenas de casas destruídas por enchentes e desmoronamentos que a televisão mostrava nos primeiros dias deste ano que mal começava.

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Publicado nos livros: 
Antologia Paulista - vol.2 - Legnar Editora - SP - 2000
Pipas no Caminho - e outros escritos guardados no tempo - Rumo Editorial - SP - 2018

19.12.17

Meus novos olhos



Hoje fui buscar meus óculos, encomendados segundo a indicação de um profissional da medicina que me lembro ter visitado apenas cinco vezes em toda minha vida. A primeira foi num longínquo dia de exame obrigatório nos meus tempos de curso primário. Depois, em três renovações da carteira de habilitação de motorista, e na quinta-feira passada, pela primeira vez, por iniciativa própria.

Como eu não conseguia ver direito as placas indicativas do Túnel Ayrton Senna, por onde passo todo fim de tarde, fui lá testar minha acuidade visual. E deu no que deu. Meu olho direito tem uma deficiência de 0,75 para longe, e existe um pequeno problema no esquerdo quando precisa ver de perto. Ou algo parecido com isso, sei lá. Na verdade, nunca me preocupei muito com essas questões oculares, pois sempre tive a tal visão de lince, até dois meses atrás. Nem me preocupei com as minhas prováveis deficiências visuais, nem com as dos outros, até quinta-feira passada e por isso não posso ficar dando detalhes mais precisos acerca de graus. Também não entendo nada de miopia, hipermetropia ou astigmatismo, ou seja lá aquilo que for que eu agora tenho.

Mas, como eu dizia, fui buscar meus óculos, em decorrência disso tudo. Confesso que estava ansioso pelo momento, e até saí mais cedo do trabalho, com medo de chegar na ótica e encontrar as portas fechadas.  Cheguei em tempo, felizmente, e fui recebido com cumprimentos e balas pela simpática dona do estabelecimento, que até me chamou pelo nome. Não há nada mais normal do que alguém te chamar pelo nome. Um pouco menos normal é te oferecerem balas, suco de laranja e cafezinho. Muito menos normal, descobri depois, é a tática desses simpáticos donos de óticas.

Fui logo convidado a sentar-me em cômoda cadeira, diante de um espelho circular. Normal, entendi. Dona Irene, a que me vendeu a armação cinco dias antes, me informou: como é a primeira vez que você usa óculos, ele vai ter que te dar algumas instruções. "Ele", era o outro simpático especialista que, desde que fui lá pela primeira vez, me atendeu com grande cortesia. Comecei a ficar preocupado. Afinal, óculos não é apenas uma simples armação com lentes de vidro que se coloca sobre o nariz e que fica entre nossos olhos e o mundo? Pra que então as instruções?

Estava para começar o rosário de recomendações que eu nunca imaginei poderem existir, pelo simples fato de ter que usar óculos. O meu, pra que fique mais claro, deveria ter lentes multifocais, que em resumo é uma dessas inovações introduzidas pela tecnologia, para eliminar o incômodo causado pelas antigas e superadas  bi-focais. Aquelas que salientam tuas olheiras para o resto da população, pois trazem bem visíveis as dificuldades do usuário em ver de longe e de perto ao mesmo tempo, através de um semi-círculo na parte inferior das lentes.

As indispensáveis recomendações do especialista para quem usa óculos pela primeira vez me assombraram. Especialmente se forem com lentes do tipo multifocais, pois estas exigem uma série de exercícios muito complexa e um aprendizado bem amplo, fiquei sabendo. Descobri, logo na primeira recomendação, que as tais lentes multifocais têm uma certa zona, à direita e à esquerda, e abaixo da linha do horizonte, que não servem absolutamente para nada. São zonas neutras. Através dessa zona nebulosa não conseguirei ver nada, além de borrões distorcidos. Soube então qual  a razão da tática de oferecer balas, sucos e cafezinho. Os donos de ótica deveriam conceder um desconto de pelo menos uns trinta por cento no preço dos óculos, em virtude dessa inútil zona neutra das lentes. Ao invés disso, oferecem balas. Desfeito o mistério.

O principal alerta quanto a isso, frisou bem o especialista, é que você não vai mais poder apenas virar os olhos para olhar para os lados. Vai ter que virar a cabeça, pois assim seus olhos não são submetidos à brusca deformação que a área neutra proporciona. Virando a cabeça, ao invés dos olhos, o seu cérebro assimila logo o foco do objeto que você pretende ver. Gente! Vocês já pensaram na consequência desse alerta? Como é que eu vou conseguir olhar , digamos, com o rabo do olho, para aquela dona bem formada de corpo e feição, que passa ao meu lado? Seja pela direita ou pela esquerda, o problema será o mesmo. Como  disfarçar a olhadela indefectível para o "mulherão" que passa ao lado? Me danei! Ou entorto o pescoço, ou então todas as bundas que passarem por mim ficarão definitivamente desfocadas pela tal zona neutra da minha lente. Lamentável!

Mas não era só isso. Disse-me o simpático especialista, que oferece balas e sucos durante a visita à loja, que eu deveria me habituar com o novo jeito de subir e descer escadas. Epa! Fiquei extremamente preocupado quando ele tocou nesse assunto. Escada é escada, em qualquer lugar do mundo, tanto para quem usa óculos quanto para quem não usa. Esse cara tá valorizando os óculos que me vendeu, pensei. Mas, como marinheiro de primeira viagem utilizando as tais lentes multifocais de última geração, ouvi a explicação, tintim por tintim.

Em resumo, agora devo fazer muitas coisas que não fazia antes quando subia ou descia uma escada. Olhar para o primeiro degrau, baixando a cabeça, e não os olhos, calcular uma bissetriz entre o corrimão  e a altura de cada degrau. Colocar primeiro o pé direito, que é pra dar sorte. Erguer a cabeça, e não só os olhos. Lembrar quantos degraus existem até o topo ou o chão, e pronto... Conseguirei subir ou descer qualquer escada usando óculos com lentes multifocais. Até as rolantes, me garantiu!

Outro ponto que me chamou atenção naquela preliminar do especialista foi quanto à direção de veículos automotores. Acho que vou ter que me inscrever numa auto-escola e começar tudo de novo, pois as coisas mudam radicalmente quando se passa a ser portador de óculos com lentes multifocais. Descobri que não devo olhar para os retrovisores externos, seja do motorista, na esquerda, ou do passageiro, na direita. Também vai ficar tudo fora de foco, como quando se olha para as bundas com o rabo de olho, através da tal zona neutra. Já pensou? Eu, que sempre fui bom em fazer manobras para estacionamento, aquelas tais balizas dos exames de motorista! Como eu vou me virar, não sei.

Pra encurtar a conversa, depois de cerca de meia hora de conselhos e recomendações para usuários da primeira multifocal, dentre estes o de comer pipocas vendo televisão, o gentil e simpático especialista da ótica me deu importantes dicas de como lavar e conservar meus óculos com as discriminatórias lentes multifocais. Sabãozinho e água aqui, lenço de papel ali, até que finalmente ele me aconselhou a já sair da loja com o tal óculos, "pra ir treinando".  Agradeci, ganhei mais algumas  balas, uma flanelinha pra limpar as lentes com muito cuidado e um estojo de feliz novo proprietário de um óculos com lentes multifocais.

E lá fui eu, óculos sobre o nariz, em direção ao meu carro. Logo de cara fui  tropeçando no primeiro degrau da saída da loja, e quase cai. A impressão que eu tive era a de estar dentro de um daqueles aquários redondos. Cheguei relativamente bem até o meu carro, mas só acertei o buraco da fechadura na terceira tentativa. Dei a partida, e antes de sair, fui conferir o alerta sobre os retrovisores laterais. Santo Deus! Era verdade!

Sei dizer que demorei um tempão pra chegar em casa, pois não passei dos quarenta quilômetros por hora. Estava assustado demais com mudanças tão radicais e repentinas. Custei a achar a fechadura da porta de meu apartamento. Custei a localizar e tatear minha mulher antes de lhe dar o beijo de boa noite. "Ah, agora sim! Você está parecendo um intelectual", me disse ela. Creio que vou ter que conviver por algum tempo com esse tipo de coisas. Paciência!     

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Publicado no livro "Para bem existir - e outros escritos guardados no tempo"
ISBN 978-85-60380-52-7
Rumo Editorial - SP - 2017

29.3.17

A fertilidade, a divagação e o desejo de novos tempos



Quando tudo parece caminhar para becos sombrios e sem saída e para um total descrédito nas ações dos seres humanos, demonstradas em atitudes cada vez mais desprovidas de qualquer resquício da anima divina, do nada eu me peguei a pensar na romã, aquela frutinha cheia de grãos justapostos, feito uma colmeia vegetal. E logo divaguei por outros pensamentos não menos longínquos e quase abstratos, como a proporção áurea e outros "que tais". Quem sabe, resultado de alguns brindes em excesso, resultado de algumas ações também desmedidas deste período dedicado às tais "festas".

De tudo o que já ouvi dizer e do quanto já provei da fruta, concordo com algumas coisas e discordo de outras, claro. Pela grande quantidade de sementes, a romã é considerada como um símbolo da fertilidade, cuja origem se atribui a uma relíquia vegetal da velha Pérsia ou do Irã, tanto faz, mas lá daqueles lados onde tudo o que é profano toma a forma de sagrado e vice-versa. Lá, pela também longeva Grécia, a fruta era um atributo de Hera, poderosa deusa feminina que zelava pelos casamentos e nascimentos dos rebentos, tanto quanto à deusa Afrodite, aquela da beleza, do amor e da sexualidade.

Nunca contei, mas dizem que a romã tem 613 sementes (!), assim como 613 são os mandamentos ou provérbios judaicos chamados de "Mitzvotz", presentes em seu livro sagrado, a Torá, algo em que ainda pretendo me aprofundar. Dessa forma, na tradição judaica, no feriado chamado “RoshHashanah”, dia em que começa o ano judaico, é comum consumir romãs, símbolo de renovação, fertilidade e prosperidade. Na Índia, dizem, as mulheres tomam o suco da fruta para precaver-se da infertilidade. Os romanos antigos, especialmente os recém-casados, usavam coroas de ramos da romanzeira, pois havia a crença de que a forma e a cor da fruta se assemelha ao útero materno e ao sangue vital.

E vamos além: na maçonaria a fruta tem uma forte simbologia, representando a união dos maçons e presente com destaque em seus templos, no alto das colunas basilares da instituição, a lembrar-lhes sobre os objetivos de solidariedade, igualdade, humildade,  prosperidade e fraternidade, além da força e da beleza. No cristianismo, há várias passagens da Bíblia onde a romã aparece como fruta divina, como símbolo da perfeição, do amor cristão e da virgindade de Maria, mãe de Jesus. Muitas vezes associada ao templo de Salomão, a romã é consumida pelos cristãos no dia de Reis.

Todas essas conjecturas sobre a mística fruta, me fizeram lembrar que, quando criança, morei numa casa onde um pé de romã era como uma espécie de árvore da vida (ou do bem e do mal) bem no centro do pequeno quintal. No entanto, dali colhíamos os frutos, quando era o tempo e a hora, consumíamos os seus grãos, com simples deleite e sem qualquer preocupação com significados a ela atribuídos. E, glória(!), nunca fomos expulsos do paraíso por causa ou apesar disso.

Então eu fico pensando também nas inúmeras vezes em que, depois de adulto e sem um pé de romã no meu quintal, eu me sujeitei a pagar um preço quase sempre elevado por um simples fruto de romã na feira ou no supermercado, apenas para cumprir alguma dessas crendices de passagem de ano. Juntamente com algumas ondas do mar puladas a custo, a cor da roupa íntima, lentilhas, folhas de louro, e outras baboseiras, a romã quase sempre estava metida na história... Inconscientemente (ou não), mas lá estava a romã.

Agora, revendo um pouco melhor todos os significados dessa fruta, que particularmente sempre admirei e gostei, independente de credos, deusas, raças, cores e o que seja, eu até entendo a presença dessa infrutescência em algumas de minhas comemorações de passagem de ano. Acho que sou um eterno crédulo do amor, da vida, da união, da paixão, do sagrado, do nascimento, da morte e da imortalidade. Creio ainda, por menos que seja razoável, na possibilidade de que a barbárie humana possa ter cura, que o ser humano não é assim tão bestial quanto se revela diariamente, e etc.. Creio.

Acho que creio na simbologia da fruta, uma maçã com sementes, pomogranate, uma promessa de sabor, fertilidade e vida. Também não desacredito de que com três grãos na carteira, dinheiro nunca há de me faltar, apesar do entra ano e sai ano correndo atrás da grana.  Opa, vai saber!  Mas no que acredito, principalmente, é na força que a união dos grãos representa. Força da qual poderemos, quem sabe, esperar pela força, fertilidade, pureza, beleza e pela geração de um novo tempo, mais justo e perfeito, mais fraterno e muito, muito mais feliz.
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Apresentado na Sociedade Brasileira de Médicos Escritores em 16.02.2017

22.2.17

A praia e a democracia



Alguém já disse que a praia é o lugar mais democrático que existe.  Confesso que sou da mesma opinião. Em que outro lugar é possível entrar e sair quando bem se entende, vestindo - ou não vestindo - o que der na telha, fazendo - ou não fazendo - o que der vontade? Eu acho que é só na praia.

Não consigo pensar em outro lugar em que isso seja possível. Nem mesmo no Congresso, alardeado como uma casa essencialmente democrática. Se não me engano, foi lá que construíram um tal espelho d’água. Será que é para distanciar o povo da democracia que se faz lá dentro? Não pretendo me enveredar nesse assunto, pois para isso existem os especialistas. Limito-me a falar das coisas mais ao alcance da minha compreensão.

Por isso, volto a pisar na areia. Entendo, porém, que há pequenas restrições à plenitude democrática que se apregoa existir na praia. E há de se convir que é preciso observá-las, sob pena de acabar convergindo para regimes, digamos, mais anárquicos. Não se pode querer, por exemplo, que uma praia de nudismo seja frequentada pacificamente por seminus, ou vice-versa. Mas isso ocorre apenas por uma questão de igualdade de direitos e deveres. Havendo a sutil adaptação que o caso requer, de pronto fica restabelecida a democracia. É questão apenas de uma peça a mais ou uma a menos.

Também acho muito compreensível que os amantes das praias busquem lugares ou grupos de frequentadores onde possam se sentir mais à vontade ou enturmados. Cada um tem sua praia, como também se diz por aí. Mesmo assim, pode-se perceber facilmente que a praia é inimiga da maioria dos preconceitos. Pobres e ricos convergem para as mesmas areias e abrem o guarda-sol lado a lado. Gordinhas branquelas e morenas bronzeadíssimas caminham com a mesma naturalidade pela orla, cada qual na sua mais completa liberdade de ir e vir. Nenhum preconceito: nem cor, nem raça, nem classe social, nem religião...

A praia é um espaço que tanto serve aos visitantes de um dia, que normalmente chegam em turmas numerosas e barulhentas, quanto aos que ficam uma temporada inteira. Depois que se pisa na areia da praia, todo mundo é igual. Convivem pacificamente os que cortam as águas com seus poderosos jet-skis e os que pagam cinco reais para um giro num banana-boat, com direito a tombo e tudo. Servem-se do mesmo mar.

Ao chegar à areia, estender sua esteira, abrir seu guarda-sol e sentar-se comodamente na cadeira, o indivíduo perde todos os indícios de sua origem. A partir desse ritual, não importa mais saber de onde a pessoa veio ou onde está hospedada, se é que está hospedada em algum lugar. Tanto pode ter vindo num carro do ano, importado, quanto num ônibus de excursão. Tanto pode estar se hospedando num caríssimo apartamento de cobertura, quanto numa barraca de camping, numa casa alugada ou naquele apartamento emprestado pelo cunhado e disputadíssimo nas temporadas... Que importância tem isso quando se está à beira-mar?

Outra coisa que notei, é que pouca diferença faz o tipo de petiscos que chegam às praias. Vale quase de tudo, desde o amendoim torrado ou camarão sete barbas no espetinho, até o tão decantado frango com farofa que, aliás, acaba dando margem a um dos poucos preconceitos que ainda persistem nas areias. Noutro dia, por exemplo, experimentei bucho frito à milanesa, que o Capivari trouxe para a roda na praia que eu frequento. Como gosto não se discute, eu gostei e recomendo a iguaria. Ainda mais se o acompanhamento for aquela cervejinha bem gelada, tirada da inseparável caixa de isopor que também costuma estar sempre à mão. Para os que preferem uísque, saibam que não faço a mínima restrição.

Na minha modesta opinião, a praia tem todo esse ar de democracia, sim senhor, e seja lá onde for. Fico observando o que as pessoas fazem enquanto estão na praia, e cada vez mais me convenço de que uma aura democrática paira sobre ela. Os que jogam pelada sabem bem disso. Quando a bola vai para longe, basta gritar “bola” que alguém gentilmente a devolve. O mesmo ocorre com os que preferem o voleibol. Os que ficam se empanando na areia, sabem que também poderiam empinar pipas, com a mesma liberdade. Os que se deitam na esteira para tostar ao sol sabem que poderiam apenas sentar-se à sombra usando protetor solar. E assim vai. Cada qual fazendo o que bem lhe interessa fazer, com total liberdade.

Não estou me referindo a nenhuma praia em especial, pois acredito que ao longo dos mais de oito mil quilômetros da costa brasileira, a coisa seja mais ou menos parecida, com pequenas variações. Com certeza você também já notou coisas desse tipo na praia em que costuma fincar seu guarda-sol, mas talvez nunca tenha analisado quão simples pode ser a democracia, se bem praticada.

Mas, como tudo o que é bom tem seu preço, é preciso que se tenha sempre em conta que, para chegar lá, às vezes é preciso enfrentar pequenos problemas indesejáveis. A disputa por um lugar ao sol, talvez tenha que vencer antes algumas horas de estrada entupida. E, certamente, com alguns mais apressados tentando ultrapassar pelo acostamento. Acho que esses entendem que os fins justificam os meios.
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Publicado no livro "O Encantador de Passarinhos e outras histórias" - 
Rumo Editorial - SP - 2011 


21.1.17

Estudos nada científicos sobre a temperança


         Tenho sido um eterno aprendiz. Em todos os sentidos e em tempo integral. Contudo, e em vários momentos, a vida me diz algo intrigante, ou pelo menos desconfortável. É mais ou menos assim:  "você ainda não aprendeu isso direito, rapaz!".  E lá vou eu, buscar os motivos, analisar prós e contras, reaprender, enfim, ver onde foi que errei para que algo não tenha dado certo antes. Fui rever alguns conceitos pessoais e lembrei-me da velha e boa temperança.
            Refletir a temperança hoje em dia é um baita de um desafio. A palavra é quase uma incógnita, pois desapareceu do vocabulário do homem médio moderno, assim como do vocabulário da tal de “elite” intelectual, além daquela que se diz laica e, surpreendentemente, daquela que se autodenomina religiosa. Acho que temperança ERA uma virtude, pelo que cheguei a ler, estudar e apurar. Hoje em dia já não sei mais do que se trata, e que Deus nos ajude daqui pra frente!
            Temperança significava ter moderação, equilíbrio e parcimônia em nossas atitudes. Pelo que já apurei anteriormente, a palavra deriva do latim “temperantia”, que quer dizer “guardar o equilíbrio”. (Que o Grande Arquiteto do Universo me ilumine deste ponto em diante, para que eu não me destempere!) Quem faz isso hoje em dia? Esse substantivo feminino que nomeia a qualidade ou virtude de quem atua comedidamente, com prudência, sem a prática de exageros, está em pleno desuso. Senão, completamente extinto. Quem, hoje em dia, tem controle sobre as paixões, tem sobriedade em suas atitudes e decisões, evita os excessos em seus apetites, seus desejos e vontades? Vade retro, temperança, que isso não te pertence!
            Ela, que já chegou ao nobre status de virtude, pertencendo inclusive à nobilíssima classe das cardinais, com o fito de enaltecer a prudência, a fortaleza e a justiça, encontra-se atualmente prostrada no porão do império de malfeitores dissimulados e impolutos, insensíveis mandatários dos reinos de por aí afora. Um bando de usurpadores e assassinos tratou de dar-lhe uma sepultura nada decente nas masmorras do vício em que eles, os indignos mandatários, estão metidos. Ah, Senhor! Dai-me o auxílio da temperança para que eu não blasfeme de agora em diante!
            Temperança é o autocontrole, a renúncia e a moderação. A temperança precisa  domesticar os instintos, sublimar as paixões, moderar os impulsos e apetites. Agir com temperança é abrir caminhos para a sobriedade e o desapego. A temperança leva ao caminho para o cumprimento dos deveres e para a maturidade. E esses filhos de (...) ninguém que se dizem mandatários não percebem isso... (Ah, Grande Arquiteto do Universo, ensinai-me novamente, pois da temperança acho que quase nada aprendi. Ando sem paciência, sem tolerância e praticamente sem esperança... Querendo dar porrada nos usurpadores, embora sentindo-me sem forças para isso. )
            Sinceramente, eu não gostaria de parecer apenas um símbolo, tal qual um arcano do Tarô, passando a água de um vaso para outro, como a querer purificá-la com esse gesto de vai e vem perpétuo. Sempre, quando tiver que exercer a temperança e praticá-la, eu gostaria muito que a simbologia do Tarô e a virtude todinha que a temperança representa se materializasse. Especialmente em mim e também em certas outras coisas e pessoas.
            Não vejo relação alguma, exceto a lógica anteposição, entre certas virtudes e certos vícios, mas de pronto acredito piamente que, por exemplo: vaidade, ganância e avareza são dejetos, sujeiras, merda mesmo e não combinam nunca com qualquer virtude, muito menos com a temperança, que eu pessoalmente tenho como uma das boas virtudes. Como pode o avarento e ganancioso ser piedoso, generoso ou caridoso? Como pode o egoísta e vaidoso ser gentil e complacente com os que estejam brilhando mais que eles? Entende qual é ponto? É meio sutil, mas existe. Pois é.
            Eu não tenho a mínima intenção de ser dono de qualquer verdade, pois meu aprendizado é parco e insuficiente. Só quero que me seja permitido ir para a praia no próximo fim de semana, e que haja sol em alguns momentos, e que as pessoas que eu encontrar estejam felizes e convencidas de que o melhor que têm a fazer é tomar uma caipirinha bem feita, com o pé na areia, sem culpa e sem a neurótica necessidade de ter  apitos de alarme para as ameaças que nos afligem no dia a dia. E que o Senhor, Grande Arquiteto do Universo, seja sempre justo e perfeito com tudo e com todos, cada qual no seu pensar e cada qual no seu modo de agir! E que cada um faça sua parte na construção de seu templo pessoal e especialmente no templo da humanidade da qual ele faz parte e pela qual tem que lutar. E que cada um pague pelo seu vício, na legítima proporção de suas faltas. E que cada um receba suas benesses da forma que lhe couber. E que assim seja!

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima quarta fornada" 
Rumo Editorial - SP - 2016

28.11.16

Razão e emoção


A palavra equilíbrio contém uma gama de significados que muitas vezes passam despercebidos e não permite entendê-la perfeitamente. Envolve noções de igualdade, proporcionalidade, estabilidade, distribuição harmoniosa entre partes, moderação de gestos, palavras, sentimentos, estabilidade mental e emocional, comedimento, autocontrole e tantas outras. Uma grande abrangência para palavra tão corriqueira e, paradoxalmente, pouco praticada.
            
É bastante comum que em momentos de crise, palavra esta também de amplos significados, alguém reivindique a necessidade de doses de equilíbrio como solução, dando a este último o poder da cura de muitos males. Há, no entanto, muitos fatores adjacentes e também necessários para que haja uma terapia eficaz em momentos de situação econômica ou social  repleta de problemas, de momentos indefinidos e plenos de riscos, dúvidas, tensões, desgastes e desajustes que acabam interferindo também, e especialmente, no corpo e na mente das pessoas envolvidas.

O pretendido equilíbrio entre razão e emoção é uma árdua tarefa na busca do restabelecimento de situações mais amenas. Não é fácil manter a serenidade para um melhor desempenho no trabalho, nas relações com a família e com a sociedade de modo geral. Não é algo simples não se deixar influenciar pelas ameaças de uma sociedade cada dia mais violenta, competitiva e menos tolerante. Não será fácil ter atitudes ponderadas se não impusermos a nós mesmos alguma dose de tolerância, paciência e boa vontade. Mesmo que não se perceba nos governantes qualquer indício de vontade de fazerem sua parte para sair da crise, sempre caberá a cada um de nós uma iniciativa pessoal em prol do equilíbrio de atitudes e perseverança na busca de soluções.   
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Publicado na coletânea "A Pzza Literária - décima quarta fornada"
Rumo Editorial - SP - 2016
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26.10.16

Abaixo as calcinhas




















Não é raro ouvir alguém dizer:  “puxa, como o tempo passou depressa!”.  Como se tivesse criado asas, fato é que o tempo tornou-se uma preocupação constante das pessoas quando estas se dão conta da velocidade com que ele transcorre. Ou voa mesmo, quase literalmente.

A ansiedade tem boa parte da culpa nesse processo. De modo geral, temos nos tornado cada dia mais ansiosos. Mal uma semana começa, e já estamos logo pedindo: “chega logo, sexta-feira, sua linda!”. Mal começou um domingo e já estamos lamentando: “que merda! Já é segunda-feira de novo!”. Acho que nos encarregamos de dar pressa ao tempo, isso sim.

O que me fez pensar nessa baboseira e acabou me deixando meio puto da vida, foi ter passado diante de uma loja de lingerie no último dia 30 de setembro, mal iniciada a primavera, e ver um cartaz mais ou menos assim: “Antecipe seu reveillon e compre hoje mesmo sua calcinha! (sic)”. Ora vão se catar, isso sim! Abaixo as calcinhas, pois de 30 de setembro até 31 de dezembro ainda tem chão, e muita vida pela frente! Depois não querem que o tempo voe!

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima terceira fornada"
Rumo Editorial - SP - 2014
Compre o livro aqui: LIVRARIA VIRTUAL RUMO EDITORIAL

25.9.16

Em três palavras



Contarei algumas histórias. Apenas frases curtas. Em três palavras. Serão histórias rápidas. Somente três palavras. Serão histórias felizes? Quem saberá dizer? Talvez não sejam. Uma aventura apenas. Uma singela brincadeira. Pode ser perigosa. Ou apenas divertida. Vamos ao ponto.
            
Maria amava João. Poderia começar assim. Mas não será. Então começo diferente. João amava Maria. Ela não ligou. João ficou triste. Ela nem aí. Maria sem coração. João sem esperança. Esse amor acabou. Fim desta história.
            
Mais uma história. Olhei pela janela. Chovia lá fora. Tudo muito molhado. Eu olhando goteiras. Apreciando aquela molhadeira. Por dentro, diferente. Apenas meio frio. Talvez muito seco. Precisando uma companhia. Sozinho neste aconchego. Precisando um cobertor. Uma triste solidão. Fim d'outra história.
            
Uma nova tentativa. Somente três palavras? Sim, somente três. Insólito desafio, ameaçador. Como contar algo? Há história assim? Tão poucas palavras? Um enorme desafio! Como ser feliz? Como ser triste? Missão muito complicada. Impossível contar assim. Que faço agora? Desistir do desafio? Tentação: eu resisto!
            
Mesma história anterior. No mesmo cenário. Abri minha janela. Há luz agora. Um dia ensolarado. Pássaros cantam felizes. Cores são radiantes. Continuo sem  companhia. Na mesma solidão. Que adianta amanhecer? Chuva ou sol. É mesma coisa. Sempre será assim? Apenas três palavras? Não dá certo! Assim não vai. Nenhuma história aguenta. Ninguém se sustenta. Não há felicidade. Busco final feliz. Vou tentar novamente. Será última vez.
            
Maria amava João. João amava Maria. Foram eternamente felizes. Eu amo chuva. Ela é necessária. Ela é companheira. Chuva me alimenta. Agradeço por chover. Eu amo sol. Ele é agasalho. Ele me aquece. Agradeço pelo sol. Não estou sozinho. Tenho quase tudo. Aliás, tenho tudo. Escreverei minha história. Será muito simples. Só preciso palavras. Mais que três? Menos que três? Ainda não sei. Quero apenas felicidade. Apenas isso basta. Com quantas palavras? Com quantas quiser!  Felicidade é viver. Lá vai ela! Então, Carpe Diem! Pronto, ai está! Uma história feliz! Em três palavras. Muito obrigado, Senhor!

Marcos Gimenes Salun. (Autor desta heresia). Dez de junho. Dois mil dezesseis.

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Publicado nos Anais do XXVI Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
realizado em São Paulo de 22 a 24 de setembro de 2016.
RUMO EDITORIAL - SP - 2016
Segundo lugar no concurso de prosas do evento  

Algumas coisas sobre ajoelhar e rezar



Cumprindo uma rotina que há muito eu realizava, fui visitar minha mãe numa tarde de sábado. Ela, já viúva e morando sozinha, exceto pela presença do Gordo, um velho e sossegado gato, tão velho quanto minha mãe poderia desejar que fosse, sempre esperou minha visita nas tardes de sábado. Na medida do que eu entendia ser "possível", eu cumpria o ritual das visitas. Obrigação de filho. Quando não dava para ir, lá ficava minha mãe, apenas com a companhia do velho gato.
            
Sempre achei que gatos e pessoas pudessem conviver muito bem nos propósitos dados pelo Ser superior que nos criou e nos conduz, quais sejam: um faz companhia ao outro até que, em algum dia, incerto e inesperado, um deles se vai. E aí, pronto! Acabam-se os desígnios da providência divina e deixam de existir deveres e obrigações, acabam as amarras e interrompe-se a cumplicidade entre gatos e pessoas. É nesse momento que gatos e humanos se separam, pelo menos temporariamente. Tanto quanto sucumbem as pessoas, assim há de acontecer com os gatos, que se entregam ao desígnio final, que é a morte, apenas ressalvando-se a questão do tempo em que isso ocorre.

Naquele sábado eu não me lembro como estava me sentindo: se obrigado ou desatento pela rotina do filho que visitava a velha e solitária mãe e seu velho gato; se saudoso do gato e de minha mãe; se simplesmente mecanizado pela insistência do tempo e da obrigação; se apenas cumprindo um ritual sem sentido e enfadonho, imaginando alguma punição ou consequência por minha eventual omissão, num possível dia do juízo que possa haver... Sinceramente não sei.  Naquele sábado eu só fui visitar minha mãe, como sempre fazia.

Ela não me pareceu tão bem naquela visita, como aliás poderia não estar tão bem em outros tantos sábados que a visitei antes, e eu nada percebera, talvez porque eu não tivesse prestado tanta atenção como naquele dia... Também não sei. O gato continuava, como sempre, num canto qualquer da casa, atento e vasculhando apenas as minúcias do silêncio, espreitando a solidão de cada móvel que permanecia estático, alheio à poeira do tempo que se insinuava. Lançou-me aquele olhar sábio e displicente e, com sua alma ingenuamente felina, cerrou novamente os olhos. Ele reinava em sua casa, na casa de minha mãe e que era dele também.

Aparente e rotineiramente tudo andava bem naquela visita de sábado à tarde. Contudo, houve um infarto naquele dia. Gaguejando ao telefone, chamei o SAMU. Eles vieram rapidamente, mas não o suficiente para que pudessem fazer algo. Não havia mais tempo para quase nada. A viatura nos levou ao pronto atendimento de um hospital. Nada mais a fazer. Minha mãe tinha partido, e o gato ficou na casa, solitário e sem saber que sua única companheira não estaria mais disponível.
            
Lembro-me que nesse dia eu me ajoelhei para rezar e pedi a Deus que não levasse embora, bem naquele momento, a minha querida mãe. Foi então que eu me dei conta que já fazia algum tempo que eu deixara em segundo plano o hábito de ajoelhar e rezar. Fosse para pedir ou agradecer, a oração me acompanhara por um bom tempo de minha vida, até que, provavelmente, tornara-se uma rotina e eu a relegara ao esquecimento. Não que eu houvesse perdido minha fé no Criador. Talvez tenha sido apenas o meu comodismo de achar que Deus tivesse obrigação de fazer tudo por mim. Então eu me senti frágil e infiel naquele momento em que temia a perda iminente e me ajoelhei. Como eu deveria pedir algo a um Deus que ficara esquecido num canto da minha vida? Por que eu deveria esperar d'Ele alguma coisa?

A partir daquele dia, hoje eu sei, fui instado a refletir um pouco mais sobre determinadas coisas. Era apenas o curso da existência, mas eu havia sido pego totalmente distraído. Num átimo, perdi minha mãe, o velho Gordo perdeu seu referencial. Desapareciam alguns laços e vínculos que antes me pareciam inabaláveis. A vida mudava para todos, indelevelmente. O Gordo perdeu sua provedora e companheira. E eu perdia naquele dia algo que não me dava mais conta de que um dia perderia.    
            
Esta não fora a primeira vez e nem seria a última em que me era dada a oportunidade de, ao menos por alguns instantes, poder refletir um pouco mais sobre o significado das coisas que não dependem apenas de ajoelhar, rezar e deixar tudo para que Deus resolva. A primeira vez foi quando perdi meu pai. Tudo muito parecido, pois a morte é sempre muito igual em seu propósito de tentar romper vínculos. Enfim, são desses fatos marcantes que se acaba tendo um aprendizado precioso. É isso o que me leva a transmitir a quem puder se interessar nas lições daquilo que recebemos sem ficar esperando sempre pela Providência Divina. Não que possamos, com isso, mudar os desígnios misteriosos da Grande Arquiteto do Universo. Na verdade, o mais precioso que possa haver seja entender o silencioso trabalho da maturidade na medida em que vai lapidando a nossa pedra bruta interior. Assim que houver oportunidade eu lhes direi sobre outras coisas. Por enquanto fica apenas um convite à reflexão.
            
Ah! Apenas para constar: o velho e pacato Gordo também se foi, só que numa manhã de segunda-feira e muito tempo depois. Após a morte de minha mãe nós o trouxemos para nossa casa, onde ele também reinou, sempre silencioso e retribuindo com gratidão e fidelidade à companhia de seus novos parceiros de jornada. Até naquele dia onde o propósito de sua presença também já havia sido cumprido.   

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Publicado nos Anais do XXVI Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores
realizado em São Paulo, de 22 a 24 de setembro de 2016.
Rumo Editorial - São Paulo - 2016
Terceiro lugar no Concurso de Prosas do evento

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