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20.2.20

Longe
















Vejo um resto do luar
que penetra da janela
escorrega pelo quarto
e espreita meu silêncio.
Logo sinto que essa luz
espalhada no meu chão
é tão densa quanto o longe
deste pensamento meu.

Sigo os traços dessa lua
pouco a pouco se acabando
esvaindo-se nas frestas
do meu quieto devaneio.
Acho então este momento
mesmo breve e tão fugaz
tão mais doce quanto o antes
que bem longe se perdeu.
________________________ 
Publicado na Antologia Paulista - Vol.2 - Legnar Informática e Editora - São Paulo 2000
Publicado no livro "Pipas no Caminho - e outros escritos guardados no tempo" - Rumo Editorial - São Paulo 2018


11.2.20

Infâncias de antigamente
















Na esquina de minha antiga rua
ficou o sonho
junto ao pega-pega e ao pião.
Carrinho era lata velha de sardinha
entreaberta, puxada por um cordão.
Mas foi bom.
Ana-Mula, esconde-esconde, 
mãe-da-rua, balão.
Ficou também nessa esquina
a pele do meu joelho
na memorável pelada contra a rua-de-cima
que tinha um timão.
Mas ganhamos, e foi bom.
Na esquina da minha antiga rua
tinha goiabeira.
Goiaba roubada é que era bom.
Tinha a vidraça da Dona Maria
que volta e meia se espatifava no chão.
E um ninho de marimbondos
que vivia cravado de setas de papel.
Marcha-soldado, sentido, atenção!
Nossa, como foi bom.
De vez em quando olho a criançada 
brincando na rua.
Dá vontade de gritar:
No meu tempo é que era bom!
... Ou será que não?

***
Publicado na Antologia Paulista - Vol.2 - Legnar Editora - SP
Publicado no livro "Pipas no caminho - e outros escritos guardados no tempo" - Rumo Editorial - SP

2.12.19

Minha cidade



Poesia de minha cidade não requer compassos
Pois tudo nela é cacofonia:
Cada canto obscuro, cada sombra de viaduto,
Cada placa de contra-mão, cada indigente,
Cada acidente, cada homem vestido de terno,
Cada mulher e cada árvore moribunda,
Todas as suas mazelas, todos os seus problemas,
Toda sua volúpia, todo seu encanto,
Toda sua grandeza, toda sua miséria,
Todas as suas cores e todos os seus segredos.
É poesia que não acaba mais.

A poesia de minha cidade não tem rimas
Pois simplesmente não precisa delas.
Desenfreada, desvairada, tresloucada,
Às vezes louca, outras vezes pouca,
Indiferente, indecente, cheia de preguiça,
Muitas vezes solidária, noutras tantas omissa.
Pra que serve a rima nessa cidade?
Ela é tudo, rima com o que precisar e com quase nada.
A poesia de minha cidade fica na intenção.

Que métrica há nesta cidade sem eira nem beira?
Como marcar qualquer ritmo para este lugar?
Meninos n’algumas esquinas tampam retrovisores com flanelas
Vendendo balas e chicletes;  n’outras, há assaltos e assassinatos.
Mulheres guardam lugar na fila para por os filhos na escola,
E nem sabem o que esperam de seus filhos nem de si mesmas,
Mas guardam lugar na fila.
Motoqueiros alucinados chutam veículos nas avenidas
Abrindo caminho para seu recado urgente, seu ganha-pão.
Alguns morrem. Outros não.
Tudo é muito desigual.
Não há como metrificar esta cidade que precisa respirar.
  
Talvez minha cidade nem precise de poesia
ou não queira nenhum verso para si.
Quiçá espere apenas um epitáfio.
____________________ 
Apresentada na VIII Jornada Médico-literária Paulista - 2005 - Serra Negra - SP
Publicada nos Anais do Evento
Publicada no livro "Pipas no caminho e outros escritos guardados no tempo" - Rumo Editorial - SP - 2019

17.8.19

Versos inacabados



(por pouco seriam um poema...)

Fico a olhar as poesias,
alheias e arredias.
Também são minhas, são muitas,
intensas e às vezes tardias

Uma vitrine infinita,
onde  não se acaba a vaidade
e nada se mede,
nem se mira ou se cala.
Apenas invade.

Querem apenas ser poesia
Eterna mesmice, tão gasta,
de poetas anônimos ou apaixonados
Densa poesia, tão vasta...

(...cabeças pendendo no nada,
que se gabam, se iludem e se acabam.
Tolas, fúteis e vaidosas...
De que serve essa efemeridade?
Como a própria poesia,
a palavra é torpe
e apenas se recria.)

Plural:
Tantas e somente elas,
senhoras de si mesmas.
Não temem ser muitas,
e muito menos se bastam:
as palavras apenas se gastam.

Singular.
Por ela me enterneço.
E simplesmente entristeço...
  
Ah, essas palavras...
E com elas faço versos.
Pequenos, quase sempre amenos,
apenas para simples deleite
de minha alma que chora
e ignora, o que elas têm para dizer...
________________________________
Publicado nos Anais da XV Jornada Médico-literária Paulista e
X Jornada Nacional da Sobrames - Rumo Editorial - SP - 2019

4.8.18

Aparências















Ainda que não houvesse,
além do azul distante,
as pinceladas tímidas
de nesgas ébrias,
vagando na distância
como pontos de referência...

Ainda que as formas reticentes, 
adejando em liberdade sem rumo,
não fossem apenas etéreas manchas
hesitando no bojo da cálida brisa...

Ainda assim os olhos vasculhariam,
em devaneio, os ilimites do infinito, 
procurando feitios semelhantes, 
quase tocando as visões gaseiformes,
tomando por Juno toda nuvem que vagueia, 
como se fossem nuvens de pegar com a mão

***
Publicado na Coletânea do I Concurso de Poesias - São Paulo - 2000 - Editora Aricanduva
Publicado no livro "Pipas no caminho - e outros escritos guardados no tempo" - Rumo Editorial - 2018 - São Paulo

18.5.18

Sombras



Uma luz atravessa a janela entreaberta
esparrama o silêncio
que é tudo.

Na mudez solitária de um quarto vazio
há medo da sombra
que é nada.

Há um toque calado do claro atrevido
que vem da janela.
Quietude.
        
Espairece o vazio da densa agonia
do medo incontido
que afoga.

Renasce a coragem e vem um alento
da luz da janela
que é lua.

***
Publicado no livro "Os Premiados - Prêmio Bernardo de Oliveira Martins"
Rumo Editorial-SP - 2018
*Vencedor do concurso de mesmo nome, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de SP -  edição 2016/2017
Publicado na Antologia "Vamos triunfar" - Editora Pragmatha - SP - 2020

26.4.18

Requiem mais ou menos previsto















Pode parecer frio este piso,
pode parecer fúnebre esta hora,
mas por mais que te pareçam lúgubres,
serão os únicos no momento,
que te posso oferecer,
pois não disponho de tempo
e muito menos de opção.

Meu tempo já foi!
Minhas opções já passaram!

Agora só resta constatar que
uma lápide é uma lápide,
seja de mármore ou granito,
seja de ouro ou cimento bruto.
Pois antes de ser lápide,
é somente uma pedra,
e antes ainda de pedra,
é simplesmente o fim.

Meu tempo já passou.

Neste instante só resta um réquiem
e alguém que chora, embora à toa.
Só resta o dia de hoje que continua
e uma expectativa de que anoiteça.
No mais, será silêncio sob a pedra,
silêncio sob o nada e sob o chão
e principalmente sobre tudo.

Só silêncio, pois meu tempo já passou!

Não se recordarão mais de mim,
tão logo parem um taxi,
tão logo digam um destino qualquer,
no engarrafamento da cidade.

Estarei tão distante quanto nunca esperariam,
tão longe quanto nunca imaginavam que estivesse,
e estarei bem. E melhor, como nunca antes!

Melhor, porque o meu tempo já passou!

Sem que ninguém visse ou percebesse,
sem que o mundo se desse conta.
Meu tempo foi o melhor e já acabou.
Antes que o de muitos acabem, como desejariam,
e antes mesmo que o de muitos sejam.
Meu tempo acabou.

E não lamento que assim seja.
Lamento se houver choro, pois será inútil.
Lamento se chover, pois atrapalhará as pessoas,
e o trânsito ficará caótico.
É só por isso que lamento!
De resto, vou feliz para meu lugar de pedra,
e para não voltar, pois deste mundo já tive tudo,
por pouco que possa errar.

Mas volto se quiserem me reencarnar,
só para agradar meus amigos crédulos
só para não dizer que fui do contra,
e porque não quero deixar mágoa nenhuma,
nem mesmo dentre os que recolheram minhas coisas
depois deste dia em que meu tempo acabou.

E se voltar, espero revê-los,
se é que vocês também vão voltar.
Que voltemos ao menos para pequenos pecados,
para beberemos nos mesmos bares,
frequentarmos os mesmos lugares,
termos as mesmas mulheres,
sofrermos as mesmas dores,
e suportarmos o mesmo mundo dos reencarnados.

Mas, por hoje estou indo,
pois o meu tempo se acabou.

Acabou porque chegou hora e vez,
e pois, talvez,  já tivesse feito de tudo,
pois este mundo oferece opções demais!
Ou talvez porque não tivesse sabido aproveitar.

Oh! Mundo tão vário, lá fui eu!
Quanta coisa vivi e quantas não pude saber!
Mas lá fui eu, assim mesmo,
Pois meu tempo se acabou!

Até já!

***
Publicado no livro "Para bem existir - e outros escritos guardados no tempo"
Rumo Editorial (SP) - 2017

10.3.18

Um caso marítimo
















Eu queria ser navio de longo curso
pra singrar este mundo
de cabo a rabo
de fio a pavio.
E gostaria de saber inglês
pra dizer i love you pra's mocinhas
de todo porto que eu passasse.
E de ter uma Yashica novinha a tiracolo
que assim eu guardaria retrato
tintim por tintim
das coisas bonitas que eu visse.
E quando a maresia enjoasse
este marinheiro de primeira viagem,
que eu pudesse ancorar feliz
nos braços e uma estrangeira
que me acariciasse e dissesse besteira
lá na língua que ela tivesse.
E que quando refeito, eu seguisse viagem,
e que essa mesma estrangeirinha
fosse loira, ruiva ou morena,
me abanasse um lenço branco
lá do cais do porto em que eu a deixasse.
Só lamento não poder fazer-me ao largo
pois morreria em caso de naufrágio.
Eu não sei nadar...

***
Publicado na II Antologia Paulista - Legnar Editora - SP - 2000


15.3.17

Ambiguidade

 












... confiro cada novo anoitecer
anotando distintas matizes
do escuro que deveria ser
mas não repete o de antes
e não profetiza amanhãs
seguer num descuidado fragmento.

... e então fico cismando
pois sei ter visto muitas noites iguais
de luas e estrelas mesmas
e breus que se repetem
sem que eu soubesse como aconteceu.

_______________________________
Publicado na "Antologia Paulista  vol.4" - Rumo Editorial-SP (2003)

1.1.17

Tim-tim! O de sempre...



Aos bons! que tenham sensibilidade
para continuar assim eternamente,
mesmo com toda a adversidade
que possam encontrar pela frente!

Aos maus! que encontrem motivação
para mudar o rumo de suas vidas,
mesmo que todos lhe dêem razão
por todas as faltas já cometidas!

Saúde a todos, sem distinção
paz, amor, prosperidade
e muita alegria no coração

Tenham todos a felicidade
de uma vida plena de emoção
lhes desejo, com sinceridade
_________________
Publicado na "Antologia Paulista - vol. 9" 
Rumo Editorial - São Paulo - 2013

21.10.16

Paisagens















Passa lerdo deslizando
passa lento vai ficando
tem pingente tem pedinte
todos eles caminhando
cada qual se pendurando
por aí...

Toca a vida toma um rumo
topa o novo torce o prumo
fica tudo feito nada
pelos trilhos nas estradas
sempre há tempo e não há nada
por aí...

Sobe e desce esse pingente
cada poste uma ceifada
cada morte é esperada
como tudo que acontece
na janela embaçada
por aí...

Passa o vento sussurrando
coisa nova coisa nada
parecida inusitada
coisa mesma repetida
no entanto inesperada
por aí...

_________________________________
Publicado na Antologia Latinoamericana
Editora AME e Universidad Mariano Gálvez - Guatemala - 2014
edição bilingue: portugues/espanhol (tradução Ana Evelyn Mazariegos Carrascosa)
_________________________________

17.9.16

Poeta instantâneo












Acaso os poetas têm algo não volúvel?
Todo poeta é um momento, e só.
É como a velha máquina fotográfica,
registrando palavras, contudo.
Antes e só, ou depois e junto,
mas sempre e pouco importa,
já que são poetas...

São imagens somente,
de olhos inebriados,
de lentes em grande angular,
de zooms indiscretos,
de instantes, instantâneos
simultâneos sentidos, somente.

Quem dera fossem entendidos,
quem dera fossem aceitos...
Porém, poetas são vândalos,
ébrios esquálidos e taciturnos,
que pelo vício da palavra
são simplesmente eleitos.

Poetas são imagens soturnas,
reveladas em infra-vermelho,
são personagens noturnas,
esquálidas, quase sempre...

Quase nunca os vejo, a não ser
nos lampejos de meus olhos poetas
que escondem e que revelam
imagens, sentimentos e desejos.

Poetas são aquelas visões diurnas,
são flashes de clarear contornos,
espectros anônimos e sonâmbulos...
São vândalos de incitar, morder...
querendo mais do que podem ter,
podendo mais do que são,
e no entanto, apenas fotografam... 

E nesse instante são mais que luzes
são mais que tudo e são nada
e são sempre a essência de sua ação,
pois poetas não têm espaço,
poetas não têm tempo,
poetas não têm conjugação...

****** 

"Poetas são imagens soturnas,
reveladas em infra-vermelho,
são personagens noturnas,
quase sempre, quando as vejo, esquálidas.
Mas quase nunca as vejo sendo, apenas,
e quase sempre as vejo reveladas..."


__________________________________
Apresentado na XIII Jornada Médico-literária Paulista
Agosto de 2015 - São Paulo
Publicado nos Anais do evento

3.10.15

Aportes















Minha fuga é nesses andaimes cibernéticos,
Alicerces na beira-mar
Efêmeros sustentáculos que as ondas beijam
Incertamente,
De quando em sempre,
Quase ao acaso.

Néscio que sou dos meus versos
Não achei lugar melhor para aportar.
Aqui deposito minhas palavras,
Arroubos de mim e do mundo,
Clarividências, assombros,
Tudo.

Fiquei nesse vai e vem que se arrasta
E carrega, cavouca sem pressa
O meu túmulo,
Coisa pra se resolver com o mar
Com a onda, com o vagar que sou.

Meu porto é aqui, nesses andaimes

Ancorado à beira de mim, num todo.
__________________________________________
Primeiro lugar no VII Concurso Literário Nacional
Sobrames-BA - julho de 2002
__________________________________________

11.4.10

Independência ou Morte

















A escadaria do monumento
vista aos domingos
lembra procissão,
comício.
Nordestino em roupa de missa
mascate e pregador
indo e vindo essa gente
no footing da independência,
aos berros de arrependei-vos
entre balões coloridos
e o eterno flerte,
daquela empregada morena
desfilando vestido de segunda-mão
à procura de um príncipe
que um dia surgirá entre os pipoqueiros
e a levará, branca como a cal,
a uma cama de servente.
Essa escadaria do Ipiranga
em dia de folga...
É festa do sétimo dia
cuja fantasia não vale vintém.
É farsa de todo dia
repetida aos domingos
na escadaria.

____________________________________

Publicado na coletânea “Literatura Brasileira 1989” 
Shogun Arte Editora - Rio de Janeiro – RJ
_____________________________________

Saudade Futebol Clube
















Quero outra vez me pegar
batendo bola nesses campos de várzea,
poeirentos e sumidios.
Quero de novo vibrar
com jogadas de cinema que,
infelizmente, ninguém registrou,
que só se sabe por ouvir dizer,
que só se tem de memória.
Quero de novo driblar
com finta seca
esta vidinha à toa,
ficar cara-a-cara com o gol
tocar de primeira
e sair para o abraço
do primeiro zagueiro que aparecer,
do primeiro companheiro.
Quero golear a saudade,
vencer, humilhar, deixar no chão...
Mas, que jeito?
Os campos se esburacaram
pela ação do tempo.
Os companheiros foram desistindo
deste jogo da vida.
O time foi se desencontrando.
(e não há mais grama, nem risca de cal,
nem torcida, nem gol...)
O jogo acabou.
Derrotados nós
derrotada a pelada eterna.
Venceu a saudade,
não importa o placar.

_______________________________________________

Publicado na coletânea “Literatura Brasileira 1989”
Shogun Arte Editora - Rio de Janeiro – RJ
_______________________________________________
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