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26.5.18

Naquela hora em que não choveu



Aos poucos as pessoas foram recolhendo suas cadeiras e a areia foi se revelando, quase nua, salpicada apenas por alguns detritos, restos da manhã. Aqui e ali um guarda-sol reticente e com preguiça de fechar suas cores vivas. Nuvens escuras, que a princípio apenas esgarçavam o céu, ainda a pouco radiante de luz e azul, se avolumaram sorrateiras.  Uma névoa espessa se formou ao longe, disfarçando a paisagem distante naquela bruma que eu já conhecia. Os primeiros pingos foram mal percebidos pelos meninos indiferentes ao céu que se fechava rancoroso. Então choveu, e a tarde ainda ia pela metade nessa hora. Um aguaceiro e tanto, generoso, amainando um pouco do calor intenso e quase sufocante. Os retardatários ou incrédulos de que chovesse, correram em busca de algum abrigo. Outros, no entanto pouco se incomodaram, pois tinham urgência em aproveitar aquele dia e lugar.

Não era a primeira vez que eu via esta cena ou dela participava. Tudo isso me veio aos olhos como se pertencesse a um filme que se repetia, quadro a quadro. Recolhi-me, diante daquela falta de novidades, e da porta aberta de meu trailer fiquei vendo os pingos saltitando nas poças. Soldadinhos. Lembrei-me de uma velha tia. São soldadinhos pulando, ela dizia. Mas não atinei até hoje porque razão os pingos de chuva seriam soldados e porque cargas d’água soldados haveriam de pular daquele jeito. Aí, uma coisa foi puxando outra no pensamento, e cargas d’água parecia ter certa lógica naquele momento. Aquilo era uma carga d’água, jorrando ininterrupta, como se saísse de uma grande esponja espremida entre os dedos. E me diverti pensando que tamanho deveria ter a mão que a espremia daquela maneira, e quanta água havia na esponja, certamente sugada do mar lá fora, que nem mais se ouvia, tamanho era o barulho da chuva.

Assistir a chuva criar suas poças e enxurradas foi ficando monótono demais e acabei cochilando na cadeira de praia em que eu havia me recostado comodamente. Então o mar, erguendo-se de uma só vez num grande redemoinho, começou a subir e subir, até que todos os seus abismos e entranhas ficassem expostos como as vísceras de um animal abatido. E tamanha era a força daquele turbilhão, que as árvores foram arrancadas com todas as suas raízes e também subiram com a água daqueles oceanos que agora pairavam sobre minha cabeça. Estranhamente não havia relâmpagos ou trovões, mas somente um barulho rouco e interminável, como somente o turbilhão de todos os mares poderia ser capaz de fazer. E então toda aquela gigantesca forma plúmbea, depois de girar em grande velocidade naquela altura incomensurável que alcançara, desabou novamente, num único movimento. E cada árvore que caía ficava com suas raízes para cima, enquanto as águas dos mares que despencava arrancavam-lhes ou últimos torrões da terra que nelas ficara presa.

De repente, acordei de um pulo e demorei alguns segundos até perceber que ainda não era a hora do apocalipse. Suspirei aliviado e me acomodei melhor na cadeira quando me certifiquei que apenas a chuva se intensificara lá fora, que as árvores estavam firmes e fincadas ao solo, e especialmente que ninguém percebera minha aflição naquele momento. Já não estava tão claro e uma luminosidade artificial tremulava refletida na imensa poça que eu podia vislumbrar. A tempestade teria tornado a tarde mais escura ou já era noite? Nesse momento percebi que alguém se movimentava a poucos metros de minha porta, como se puxasse algo da imensa moita de bambu que oscilava sob a chuva abundante. Era o administrador do camping, tentando consertar um cabo elétrico. Ergui-me e ofereci ajuda. Depois fiquei sabendo que algumas barracas foram inundadas pelas águas. Numa delas havia senhoras e crianças. Procurava-se acender as luzes de um trailer desocupado, logo à frente, para acomodar os náufragos daquele dilúvio.

Com a solidariedade comum a todo campista, em poucos minutos formara-se um mutirão de socorro. Lanternas, alicates, cabos, vassouras, pás, tudo foi aparecendo como que por encanto e as luzes do trailer vazio se acenderam, sob a angustiante expectativa das encharcadas vítimas e do não menos encharcado grupo de socorro.  Minutos depois, curiosamente, a chuva cedia e apenas alguns pingos ralos estalavam nos telhados de lona. As pessoas voltaram a circular, cada vez em maior número, desviando das poças de lama e água. Animadas, falavam em voz alta. Quase todas traziam uma garrafa debaixo do braço e rumavam para o portão que levava à praia. Só então eu fui me dar conta que faltava muito pouco para o fim do último dia do ano. 

Fomos todos esperar que algo acontecesse lá fora, na praia. Era inacreditável, mas havia alguma estrela teimando em luzir em meio a nuvens esparsas que ainda tomavam conta do céu. As areias fervilharam de gente, indiferentes às estrelas ou ao que mais houvesse no céu. Mas era para o céu que olhavam e era dele que esperavam alguma coisa, os olhos faiscando. Em dado momento, cada qual em sua própria cronologia contou os segundos. Espocaram os primeiros fogos, que logo  inundaram de cores e sons toda a orla.  E cada olhar refletiu pontos luminosos, de inúmeras cores e anseios. A fumaça da festa pirotécnica começou a esconder as luzes mais distantes, vagarosamente, imitando a bruma daquela mesma tarde. Em pouco tempo voltou a chover e logo tão intensamente quanto antes. Custei a dormir na primeira noite de ano novo, toda ela debaixo de novo aguaceiro. Talvez com receio de voltar a sonhar com o fim do mundo. Afinal ele não aconteceu, exceto pelos muitos náufragos daquele camping e pelas inúmeras famílias que começaram o novo ano sem ter onde morar. Também me pareceu um filme já visto aquelas cenas de casas destruídas por enchentes e desmoronamentos que a televisão mostrava nos primeiros dias deste ano que mal começava.
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Publicado nos livros: 
Antologia Paulista - vol.2 - Legnar Editora - SP - 2000
Pipas no Caminho - e outros escritos guardados no tempo - Rumo Editorial - SP - 2018

18.5.18

Sombras



Uma luz atravessa a janela entreaberta
esparrama o silêncio
que é tudo.

Na mudez solitária de um quarto vazio
há medo da sombra
que é nada.

Há um toque calado do claro atrevido
que vem da janela.
Quietude.
        
Espairece o vazio da densa agonia
do medo incontido
que afoga.

Renasce a coragem e vem um alento
da luz da janela
que é lua.
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Publicado no livro "Os Premiados - Prêmio Bernardo de Oliveira Martins"
Rumo Editorial-SP - 2018
*Vencedor do concurso de mesmo nome, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de SP -  edição 2016/2017

12.5.18

Sabedoria



Juventino era bom de prosa, cheio de querer palpitar em tudo que era assunto, fosse futebol, política, medicina, agricultura, economia, astrologia. Só não falava nada quando o caso envolvia mulher. Mas ouvia, muito atento, toda conversa que o pessoal puxava, meio de propósito, só pra ver a reação do ajudante de pedreiro. Mas sempre permanecia calado nesse assunto. Vai daí que o povo, que não é bobo nem nada e não precisa de muito pra tirar conclusão, falava coisas, sabe como é. Tudo meio na surdina, que ninguém era besta nem de insinuar o que quer que fosse na frente de Juventino, que só de muque tinha um tanto assim. Mas sabe como é fofoca, né? Um fala, outro fala, mais outro aumenta e outro lá adiante inventa e a coisa vai indo, vai indo, até que um dia chega no ouvido do sujeito.
           
E chegou. Diferente do que meio mundo achava que fosse acontecer, Juventino não cobriu ninguém de porrada. Fechou a cara, meio desenxavido e não disse nem a, nem b. No dia seguinte não apareceu para o jogo de bocha do fim de tarde. No outro dia também não, nem no outro e nem no outro, até que alguém cismou de perguntar. "Diz que foi pra Minas", alguém insinuou. A casa ficou fechada por uma semana, que foi o tempo de Juventino voltar. No domingo seguinte fez a feira de braço dado com um morena vistosa, calça justa, cabelos quase pela cintura. Na segunda-feira pela manhã despediu-se da morena no portão, com um beijo e um aceno. à tardinha foi para a pista de bocha e palpitou em tudo quanto foi assunto, menos mulher. Ninguém abriu a boca pra falar sobre a morena.

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - sexta fornada"
Legnar Editora - SP (2000)

Publicado no livro "Pipas no caminho e outros escritos guardados no tempo"
Rumo Editorial - SP (2018)


26.4.18

Requiem mais ou menos previsto















Pode parecer frio este piso,
pode parecer fúnebre esta hora,
mas por mais que te pareçam lúgubres,
serão os únicos no momento,
que te posso oferecer,
pois não disponho de tempo
e muito menos de opção.

Meu tempo já foi!
Minhas opções já passaram!

Agora só resta constatar que
uma lápide é uma lápide,
seja de mármore ou granito,
seja de ouro ou cimento bruto.
Pois antes de ser lápide,
é somente uma pedra,
e antes ainda de pedra,
é simplesmente o fim.

Meu tempo já passou.

Neste instante só resta um réquiem
e alguém que chora, embora à toa.
Só resta o dia de hoje que continua
e uma expectativa de que anoiteça.
No mais, será silêncio sob a pedra,
silêncio sob o nada e sob o chão
e principalmente sobre tudo.

Só silêncio, pois meu tempo já passou!

Não se recordarão mais de mim,
tão logo parem um taxi,
tão logo digam um destino qualquer,
no engarrafamento da cidade.

Estarei tão distante quanto nunca esperariam,
tão longe quanto nunca imaginavam que estivesse,
e estarei bem. E melhor, como nunca antes!

Melhor, porque o meu tempo já passou!

Sem que ninguém visse ou percebesse,
sem que o mundo se desse conta.
Meu tempo foi o melhor e já acabou.
Antes que o de muitos acabem, como desejariam,
e antes mesmo que o de muitos sejam.
Meu tempo acabou.

E não lamento que assim seja.
Lamento se houver choro, pois será inútil.
Lamento se chover, pois atrapalhará as pessoas,
e o trânsito ficará caótico.
É só por isso que lamento!
De resto, vou feliz para meu lugar de pedra,
e para não voltar, pois deste mundo já tive tudo,
por pouco que possa errar.

Mas volto se quiserem me reencarnar,
só para agradar meus amigos crédulos
só para não dizer que fui do contra,
e porque não quero deixar mágoa nenhuma,
nem mesmo dentre os que recolheram minhas coisas
depois deste dia em que meu tempo acabou.

E se voltar, espero revê-los,
se é que vocês também vão voltar.
Que voltemos ao menos para pequenos pecados,
para beberemos nos mesmos bares,
frequentarmos os mesmos lugares,
termos as mesmas mulheres,
sofrermos as mesmas dores,
e suportarmos o mesmo mundo dos reencarnados.

Mas, por hoje estou indo,
pois o meu tempo se acabou.

Acabou porque chegou hora e vez,
e pois, talvez,  já tivesse feito de tudo,
pois este mundo oferece opções demais!
Ou talvez porque não tivesse sabido aproveitar.

Oh! Mundo tão vário, lá fui eu!
Quanta coisa vivi e quantas não pude saber!
Mas lá fui eu, assim mesmo,
Pois meu tempo se acabou!

Até já!
________________________ 
Publicado no livro "Para bem existir - e outros escritos guardados no tempo"
Rumo Editorial (SP) - 2017

24.3.18

Seu Firmino e o coronel





             Seu Firmino!
            Sim, senhor!
            Vá até a casa de Josefina e diga pra ela me mandar um moleque que seja bom das pernas e que saiba dar recado!
            Sim, senhor!
            Vá correndo e volte voando! E não me chegue depois do menino!
            Sim, senhor!
            Seu Firmino!
            Sim, senhor!
            Onde vai com tanta pressa, se nem terminei de dar as ordens? Diga pra Josefina que não me mande o caçula! Esse tem pernas de gazela e juízo de uma galinha! Entendeu? Não serve pra levar recado!
            Sim, senhor!
            Então se apresse que já perdeu muito tempo!
            Sim, senhor!
            Seu Firmino!
            Sim, senhor!
            Diga também a Josefina que não me mande o mais velho!
            Sim senhor!
            Não vai perguntar por que, seu Firmino?
            Não, senhor!.... Quer dizer... Sim, senhor!
            Ou é sim senhor ou é não senhor, seu Firmino! Quer saber ou não quer saber porque é que eu não quero que Josefina me mande o mais velho?
            Sim, senhor!
            O mais velho é coxo! Esqueceu disso, seu Firmino?
            Não, senhor!
            O mais velho serve pra recado que não seja urgente! E o recado que eu tenho pra mandar pelo menino que Josefina vai mandar é urgente! Entendido, seu Firmino?
            Sim, senhor!
            Se apresse então, seu Firmino!
            Sim, senhor!
            Seu Firmino!
            Sim, senhor!
            Diga também a Josefina que apareça logo mais à noite, sem os meninos! Quero ter um dedinho de prosa com ela! Entendido?
            Sim, senhor!
            Pois corra, então, fazer o que lhe mandei!
            Sim, senhor!
            Seu Firmino!
            Sim, senhor!
            Diga a Josefina que venha logo mais à noite, mas não diga pra mandar menino nenhum pra levar recado. Mudei de ideia. Não vou mais mandar recado nenhum...
            Sim, senhor!
            Seu Firmino!
Sim, senhor!
            Não vai querer saber porque eu não vou mais mandar recado urgente nenhum?
            Não, senhor!... Quer dizer... Sim, senhor!
            Não é de sua conta! Vá fazer o que lhe mandei e pronto!
            Faço o quê, afinal, coronel?
            Como, “faço o quê”? Vá chamar Josefina! É pra já!
            Pra já ou pra de noite, Coronel?
            Pra já!
            E os meninos?
            Já lhe disse pra não trazer menino nenhum! Onde já se viu falar com Josefina com menino por perto! Sabe do que eu vou falar com ela, não sabe, seu Firmino?
            Sim, senhor!... Quer dizer... Não, senhor! Acho que sei...
            Seu Firmino, seu Firmino! Olha a ousadia, seu Firmino! Minha conversa com Josefina é assunto meu, tá entendendo, seu Firmino?
            Sim, senhor!
            Quer saber o que mais, seu Firmino?
            Sim, senhor!
            Não me chame mais ninguém!
            Nem Josefina?
            Nem Josefina!
            E a conversa que o senhor ia ter com ela?
            Perdi a vontade...
            Então... posso ir, coronel?
            Ir pra onde? Não acabei de dizer que perdi a vontade?
            Embora, coronel... Posso ir embora?
            Vai, cabra leso! Se fosse mais urgente não ia dar tempo mesmo... Fica nesse “sim, senhor” , “não, senhor” o tempo todo... Acabei perdendo a vontade...
____________________
Publicado nos livros: 
Antologia Paulista - vol.2 - Legnar Editora - SP - 2000
Pipas no Caminho - e outros escritos guardados no tempo - Rumo Editorial - SP - 2018


10.3.18

Um caso marítimo
















Eu queria ser navio de longo curso
pra singrar este mundo
de cabo a rabo
de fio a pavio.
E gostaria de saber inglês
pra dizer i love you pra's mocinhas
de todo porto que eu passasse.
E de ter uma Yashica novinha a tiracolo
que assim eu guardaria retrato
tintim por tintim
das coisas bonitas que eu visse.
E quando a maresia enjoasse
este marinheiro de primeira viagem,
que eu pudesse ancorar feliz
nos braços e uma estrangeira
que me acariciasse e dissesse besteira
lá na língua que ela tivesse.
E que quando refeito, eu seguisse viagem,
e que essa mesma estrangeirinha
fosse loira, ruiva ou morena,
me abanasse um lenço branco
lá do cais do porto em que eu a deixasse.
Só lamento não poder fazer-me ao largo
pois morreria em caso de naufrágio.
Eu não sei nadar...
________________________________
Publicado na II Antologia Paulista - Legnar Editora - SP - 2000


19.12.17

Meus novos olhos



Hoje fui buscar meus óculos, encomendados segundo a indicação de um profissional da medicina que me lembro ter visitado apenas cinco vezes em toda minha vida. A primeira foi num longínquo dia de exame obrigatório nos meus tempos de curso primário. Depois, em três renovações da carteira de habilitação de motorista, e na quinta-feira passada, pela primeira vez, por iniciativa própria.

Como eu não conseguia ver direito as placas indicativas do Túnel Ayrton Senna, por onde passo todo fim de tarde, fui lá testar minha acuidade visual. E deu no que deu. Meu olho direito tem uma deficiência de 0,75 para longe, e existe um pequeno problema no esquerdo quando precisa ver de perto. Ou algo parecido com isso, sei lá. Na verdade, nunca me preocupei muito com essas questões oculares, pois sempre tive a tal visão de lince, até dois meses atrás. Nem me preocupei com as minhas prováveis deficiências visuais, nem com as dos outros, até quinta-feira passada e por isso não posso ficar dando detalhes mais precisos acerca de graus. Também não entendo nada de miopia, hipermetropia ou astigmatismo, ou seja lá aquilo que for que eu agora tenho.

Mas, como eu dizia, fui buscar meus óculos, em decorrência disso tudo. Confesso que estava ansioso pelo momento, e até saí mais cedo do trabalho, com medo de chegar na ótica e encontrar as portas fechadas.  Cheguei em tempo, felizmente, e fui recebido com cumprimentos e balas pela simpática dona do estabelecimento, que até me chamou pelo nome. Não há nada mais normal do que alguém te chamar pelo nome. Um pouco menos normal é te oferecerem balas, suco de laranja e cafezinho. Muito menos normal, descobri depois, é a tática desses simpáticos donos de óticas.

Fui logo convidado a sentar-me em cômoda cadeira, diante de um espelho circular. Normal, entendi. Dona Irene, a que me vendeu a armação cinco dias antes, me informou: como é a primeira vez que você usa óculos, ele vai ter que te dar algumas instruções. "Ele", era o outro simpático especialista que, desde que fui lá pela primeira vez, me atendeu com grande cortesia. Comecei a ficar preocupado. Afinal, óculos não é apenas uma simples armação com lentes de vidro que se coloca sobre o nariz e que fica entre nossos olhos e o mundo? Pra que então as instruções?

Estava para começar o rosário de recomendações que eu nunca imaginei poderem existir, pelo simples fato de ter que usar óculos. O meu, pra que fique mais claro, deveria ter lentes multifocais, que em resumo é uma dessas inovações introduzidas pela tecnologia, para eliminar o incômodo causado pelas antigas e superadas  bi-focais. Aquelas que salientam tuas olheiras para o resto da população, pois trazem bem visíveis as dificuldades do usuário em ver de longe e de perto ao mesmo tempo, através de um semi-círculo na parte inferior das lentes.

As indispensáveis recomendações do especialista para quem usa óculos pela primeira vez me assombraram. Especialmente se forem com lentes do tipo multifocais, pois estas exigem uma série de exercícios muito complexa e um aprendizado bem amplo, fiquei sabendo. Descobri, logo na primeira recomendação, que as tais lentes multifocais têm uma certa zona, à direita e à esquerda, e abaixo da linha do horizonte, que não servem absolutamente para nada. São zonas neutras. Através dessa zona nebulosa não conseguirei ver nada, além de borrões distorcidos. Soube então qual  a razão da tática de oferecer balas, sucos e cafezinho. Os donos de ótica deveriam conceder um desconto de pelo menos uns trinta por cento no preço dos óculos, em virtude dessa inútil zona neutra das lentes. Ao invés disso, oferecem balas. Desfeito o mistério.

O principal alerta quanto a isso, frisou bem o especialista, é que você não vai mais poder apenas virar os olhos para olhar para os lados. Vai ter que virar a cabeça, pois assim seus olhos não são submetidos à brusca deformação que a área neutra proporciona. Virando a cabeça, ao invés dos olhos, o seu cérebro assimila logo o foco do objeto que você pretende ver. Gente! Vocês já pensaram na consequência desse alerta? Como é que eu vou conseguir olhar , digamos, com o rabo do olho, para aquela dona bem formada de corpo e feição, que passa ao meu lado? Seja pela direita ou pela esquerda, o problema será o mesmo. Como  disfarçar a olhadela indefectível para o "mulherão" que passa ao lado? Me danei! Ou entorto o pescoço, ou então todas as bundas que passarem por mim ficarão definitivamente desfocadas pela tal zona neutra da minha lente. Lamentável!

Mas não era só isso. Disse-me o simpático especialista, que oferece balas e sucos durante a visita à loja, que eu deveria me habituar com o novo jeito de subir e descer escadas. Epa! Fiquei extremamente preocupado quando ele tocou nesse assunto. Escada é escada, em qualquer lugar do mundo, tanto para quem usa óculos quanto para quem não usa. Esse cara tá valorizando os óculos que me vendeu, pensei. Mas, como marinheiro de primeira viagem utilizando as tais lentes multifocais de última geração, ouvi a explicação, tintim por tintim.

Em resumo, agora devo fazer muitas coisas que não fazia antes quando subia ou descia uma escada. Olhar para o primeiro degrau, baixando a cabeça, e não os olhos, calcular uma bissetriz entre o corrimão  e a altura de cada degrau. Colocar primeiro o pé direito, que é pra dar sorte. Erguer a cabeça, e não só os olhos. Lembrar quantos degraus existem até o topo ou o chão, e pronto... Conseguirei subir ou descer qualquer escada usando óculos com lentes multifocais. Até as rolantes, me garantiu!

Outro ponto que me chamou atenção naquela preliminar do especialista foi quanto à direção de veículos automotores. Acho que vou ter que me inscrever numa auto-escola e começar tudo de novo, pois as coisas mudam radicalmente quando se passa a ser portador de óculos com lentes multifocais. Descobri que não devo olhar para os retrovisores externos, seja do motorista, na esquerda, ou do passageiro, na direita. Também vai ficar tudo fora de foco, como quando se olha para as bundas com o rabo de olho, através da tal zona neutra. Já pensou? Eu, que sempre fui bom em fazer manobras para estacionamento, aquelas tais balizas dos exames de motorista! Como eu vou me virar, não sei.

Pra encurtar a conversa, depois de cerca de meia hora de conselhos e recomendações para usuários da primeira multifocal, dentre estes o de comer pipocas vendo televisão, o gentil e simpático especialista da ótica me deu importantes dicas de como lavar e conservar meus óculos com as discriminatórias lentes multifocais. Sabãozinho e água aqui, lenço de papel ali, até que finalmente ele me aconselhou a já sair da loja com o tal óculos, "pra ir treinando".  Agradeci, ganhei mais algumas  balas, uma flanelinha pra limpar as lentes com muito cuidado e um estojo de feliz novo proprietário de um óculos com lentes multifocais.

E lá fui eu, óculos sobre o nariz, em direção ao meu carro. Logo de cara fui  tropeçando no primeiro degrau da saída da loja, e quase cai. A impressão que eu tive era a de estar dentro de um daqueles aquários redondos. Cheguei relativamente bem até o meu carro, mas só acertei o buraco da fechadura na terceira tentativa. Dei a partida, e antes de sair, fui conferir o alerta sobre os retrovisores laterais. Santo Deus! Era verdade!

Sei dizer que demorei um tempão pra chegar em casa, pois não passei dos quarenta quilômetros por hora. Estava assustado demais com mudanças tão radicais e repentinas. Custei a achar a fechadura da porta de meu apartamento. Custei a localizar e tatear minha mulher antes de lhe dar o beijo de boa noite. "Ah, agora sim! Você está parecendo um intelectual", me disse ela. Creio que vou ter que conviver por algum tempo com esse tipo de coisas. Paciência!     

__________________
Publicado no livro "Para bem existir - e outros escritos guardados no tempo"
ISBN 978-85-60380-52-7
Rumo Editorial - SP - 2017

1.9.17

Anotações num diário bissexto

















Os pequenos gestos
(na tarde de uma quarta-feira)
(...) Pequenos gestos anônimos valem muito mais do que aquelas manifestações espalhafatosas, cujo único proveito é o do ego de quem as alardeia. O ser humano é capaz de coisas incríveis, mas nem sempre sabe usar adequadamente esse poder que o Grande Arquiteto concedeu a todos, indistintamente. Há os que preferem o silêncio e o anonimato ao exercerem sabiamente essa poderosa prerrogativa. Mas há também os que necessitam mostrar o gesto de sua mão esquerda à direita, apenas para ouvir um elogio que satisfaça seu ego. Enfim... Cada um com sua bondade. (...)

As ações silenciosas
(na manhã de um domingo)
(...) O silêncio quase sempre é um grande aliado. Permite a reflexão e a introspecção profunda, o que acaba resultando no expurgo de algumas angústias e até mesmo no aperfeiçoamento espiritual. Para tentar ser como a natureza, que trabalha em silêncio e de maneira persistente, é preciso autocontrole, força de vontade e concentração. Palavras e trabalho ao mesmo tempo podem não ser produtivos. Agir, silenciar, manter a concentração e trabalhar continuamente talvez seja a melhor forma de atingir cada um dos objetivos almejados. Estes são pensamentos deixados por Gandhi e aplicáveis em toda ocasião. (...)

Os pensamentos negativos
(numa hora imprecisa de um dia qualquer)
(...) As dificuldades servem para valorizar o momento da superação. Algumas vezes temos a impressão que as coisas ruins estão nos acontecendo com muita frequência ou intensidade. Mas não é bem assim. Talvez estejamos de alguma forma fragilizados por algum problema que estamos enfrentando e permitindo que nossa mente fique muito tempo ocupada com essa questão. Assim a tendência é só dar atenção às coisas ruins, por menores que sejam. Então acabamos demorando um pouco mais para sair da fase que não é boa. Esquecemos de que nada é eterno e demoramos a atingir a superação. (...)

O fascínio da existência
(na madrugada do dia 16)
(...) As questões relacionadas ao tempo são fascinantes. À medida em que se aprende alguns de seus segredos, vai-se conscientizando cada vez mais de sua importância. O momento efêmero que se convenciona chamar de presente é muito rico e importante para ser ignorado enquanto se idealiza o futuro, que sequer se sabe se realmente existirá. Cada fração da existência de um ser humano é a dádiva mais sublime que lhe é concedida. Dela pode-se fazer o que o livre arbítrio permitir e, com isso, construir algo que possa ser útil e proveitoso no futuro que se espera ter. (...)
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Publicado na XI Antologia Paulista - Rumo Editorial - SP (2017)

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