Encontre o que quer ver

12.4.17

Um folhetim


Prólogo
No começo, quando pensei em escrever esta história, os personagens eram só dois: Maria e José. Nada original, a considerar os dois mil e dois anos desde que um casal com o mesmo nome protagonizou a maior história de toda a história. Só que eram os nomes que eu queria, e assim ficou. Portanto, peço licença a todas as Marias e a todos os Josés do mundo para usar o seu nome na minha história.

I
E assim, já que tudo fica mais ou menos esclarecido, Maria e José haviam se casado não fazia nem um mês. Quem é que pode com a vida de recém-casado? Maria tinha roupa extra pra lavar todo santo dia. José ainda não estava acostumado com o arroz que grudava no fundo da panela, muito diferente do que aquele que sua mãe fazia. Maria punha ordem na casa lá de sua maneira, coisa que nem sempre agradava José. José foi despedido. Maria engravidou.

II
Maria foi internada. SUS. José não estava por perto quando chegaram os gêmeos, numa inesperada tarde de outubro, mês e meio antes do tempo. Maria suportou as dores e correu risco de vida. José correu risco de vida ao atravessar a marginal, saindo de uma entrevista de emprego que não deu em nada. Três dias depois estavam diante da cama de casal, num recanto qualquer da cidade, onde Ricardo e Rodrigo dormiam. Eles sorriam, mas era preciso um berço que não havia. E um emprego para José, que não havia, e fraldas, e dignidade de uma casa para Ricardo e Rodrigo. E para Maria e José. Mas isso não havia.

III
José foi admitido como porteiro de um prédio. Maria como doméstica. Pela graça de Deus e solidariedade dos homens, Ricardo e Rodrigo freqüentavam o primeiro grau numa escola pública. Maria foi despedida e virou diarista. José subiu de cargo e virou zelador. E os dois, comemoraram juntos e também beberam, quase como na música. Bebiam sempre mais do que o necessário para comemorar. Maria limpava cada casa que dava até medo. José fazia cada coisa como zelador... José e Maria quase nem se encontravam. José passou a ser vigilante da noite. Maria quase nem sabia em que casa deveria estar.

IV
Ricardo foi atropelado perto da escola. Rodrigo não se interessava mais pela escola. José era procurado por muito grã-fino diante do prédio. Maria perdeu duas diárias. Depois perdeu mais outra, tudo culpa de maridos desempregados. No aniversário de Vânia, irmã de Maria, Maria e José se encontraram e puderam dizer que assim não dá mais. Ricardo já estava bom, mas Rodrigo em má companhia. José disse que a culpa era de Maria. Maria se indignou. Então José foi morar no reservado dos funcionários do edifício. Maria ficou cuidando dos dois, Rodrigo e Ricardo, cada qual mais malcriado que o outro.

V
Maria quase não tinha mais diária para fazer. José não dava um tostão. Ricardo foi preso com entorpecentes. Rodrigo nunca mais foi à escola. Aí, o José, que só fazia receber grã-fino na porta do prédio, também foi preso. Tráfico. Maria quase endoidou, mas conseguiu mais duas casas pra fazer na semana, e ia levando. Mas foi nesse tempo que Ricardo foi encontrado morto. Maria quase morreu também. Agora era só Maria do lado de fora, na vida. E já sabia o que fazer.


VI 
Maria foi vista pela última vez, saindo de um salão de beleza. Tinha os cabelos pintados de outra cor, as unhas feitas. Nos olhos um brilho diferente. Era só uma Maria. Já sabia o que fazer.


Epílogo
Qualquer dia desses eu escrevo outra história, que nem realidade é, para a Maria e para o José deste folhetim. Agora não, pois estou cansado e não saberia dar final melhor para os dois, a não ser que me aparecesse um desses lampejos, quem sabe... 
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Publicado na "Antologia Paulista - vol.4" - Rumo Editorial-SP (2003)
Publicado em "O Encantador de Passarinhos e outras histórias" - Rumo Editorial-SP (2011)

8.4.17

A haste quebrada















Quero narrar este fato como um dever de ofício. Não há outra razão, senão a obrigação a que a consciência nos remete em certos momentos. E que fique claro que não haveria necessidade de eu estar aqui contando este caso, não fosse um tantinho de nostalgia que me bateu noutro dia, ao tentar escrever uma crônica na minha velha e saudosa "máquina de escrever", a que foi adquirida antes de qualquer outra modernice de hoje em dia. Então raciocinei: nada de informática! Nada das facilidades da Microsoft! Nada das comodidades oferecidas hoje em dia. Nada de Bill Gates e seus seguidores.

Muito bem! Retirada a tênue terra seca de cima da velha máquina de escrever, decidi levar adiante o meu saudosismo, e escrever estas linhas. Na mesma máquina que causou a história que lhes conto! Consigo lembrar quantidade ínfima dos fatos, mas mesmo assim tentarei dar uma idéia do que significou em minha vida uma haste quebrada. Que haste? - questionarão todos com razão. E eu lhes digo: a haste de sustentação de uma certa letra de minha velha e saudosa máquina de escrever. Uma consoante, diga-se! Fosse uma vogal, e esta narrativa sequer existiria. Inimaginável conceber estas linhas sem qualquer das vogais. Mas, voltemos à história! Essa tal haste se quebrou um dia, e a tal consoante que essa milagrosa haste sustentava sumiu, sem que eu me desse conta do fato... E é esse fato insignificante sobre a consoante sumida que lhes narro agora.

Foi assim: Eu era um ‘foca’ de um certo jornalzinho desconhecido de qualquer bairro desta cidade, nos idos de 1978. O nome do jornal eu vou omitir, justamente em razão da falta daquela mesma consoante de que falei, e já que a máquina em que agora escrevo é a mesma, até hoje não consertada. Muito bem!  Foca, é bom que saibam os senhores, é o iniciante no jornalismo, aquele que tem que encarar qualquer trabalho com o objetivo de obter conhecimento no ofício que almeja exercer. Eu era um deles, naquele ano de 1978, na busca de meu canudo de curso universitário. E assim, eu era obrigado a concretizar qualquer ideia maluca do editor do tal jornalzinho, escrevendo sobre o que ele imaginasse.

Só que eu fui um foca de muita sorte, e só agora eu entendo o significado disso em minha vida. E mais: a mesma sorte seguiu minha tênue carreira, de maneira que, em razão disso,  eu nunca necessitei suar tanto a camisa como acontece a qualquer outro foca ou mesmo a alguns veteranos. E, dessa forma, graças a essa sorte teimosa, eu acabei ganhando uma coluna semanal de crônicas no tal jornalzinho desconhecido, o que me levava a crer numa vida muito cômoda e tranquila, uma vez que não necessitaria sair atrás da notícia. Bastaria utilizar um tanto de criatividade e outro tanto de correção gramatical e tudo estaria resolvido.

Ledo engano, entretanto! Foi só quando conquistei essa invejável colocação de cronista, almejada até entre os mais veteranos no jornalismo, que eu me dei conta da quebra irremediável da haste daquela bendita letra na minha máquina de escrever. Uma mísera haste, de uma mísera letra! Uma insignificante consoante! Uma só entre tantas outras que integram o alfabeto e o teclado de minha “vermelhinha”, que era como eu chamava, carinhosamente,  a minha velha máquina de escrever, objeto de tantos sonhos de estudante. E a falta desta haste, acabou me custando caro, confesso!

O motivo é singelo, entendo, hoje que sou dono de tecnologia mais avantajada, sem omissão de vogal ou consoante. Naqueles dias, dinheiro eu não tinha que consertasse a haste! Estudante, sabem todos os que estudaram, vive de lanche, dinheiro curto e ônibus lotado! Consertar a tal haste eu não saberia, e nem teria condições de fazê-lo, já que além da haste estar quebrada, a letra estava sumida. Então? Que fazer? Como sustentar a confortável colocação de cronista já conquistada, num mero acaso da insistente sorte, sem a tal letra?

Claro! A solução se me afigurou tão clara como a luz do sol! Já que não era necessário atender nenhuma determinação do editor quanto ao que escrever, já que tudo sairia de minha cabeça, uma vez que crônica é crônica, e já que minha obrigação era entregar um texto semanal que recheasse a coluna a mim reservada no jornal,  eu solucionaria a questão escrevendo somente artigos sem o uso da tal letra que faltava na minha máquina. Adeus, inútil consoante!

Genial! Estava resolvido! Nada de termos com aquela tal letrinha. Nada de florear e inventar, senão o risco de necessitar da tal letra da haste quebrada seria uma ameaça. Somente o trivial bastaria, e garantiria o que já havia sido conquistado: um lugar ao sol como cronista! E assim foi na edição seguinte, e na outra, e na outra, até que um dia o editor ligou lá em casa: “Escuta aqui, ô foca! Já encheu o saco a sua crônica, sabia? Não tem nada que interesse! Tanta coisa acontecendo em Brasília, e você me escreve sobre amenidades? Cadê aquela “fleuma” do jornalista? Cadê a novidade? Cadê o fato do momento? Tem tanta coisa acontecendo, e você fica aí com essa lenga-lenga, com essa água com açúcar? Mais um texto e eu me defino: ou fica ou sai!”

Engoli um nó formado em minha garganta, com muito custo. Quando desliguei o telefone, senti não ter dado ao editor uma justificativa adequada, mas enfim, já tinha desligado! Já que eu iria deixar de lado o status conseguido até então, decidi colocar um fim honroso à minha breve carreira como cronista. Não entraria em detalhes, já que coisa íntima deve-se guardar somente na intimidade, e se agora lhes conto estes fatos é somente um gesto de confidência, uma iniciativa minha.

E assim, só me resta lhes contar que encerrei minha curta carreira de cronista com um texto breve, que jamais foi divulgado naquela jornalzinho de bairro no qual a iniciei. O editor certamente o leu, mas nunca manifestou seu juízo sobre o que leu. E hoje, raciocinando melhor, confesso dar razão ao editor. Como falar do Congresso, da Assembleia e da Câmara, sem a tal consoante? Quase todos os que ali flutuam levam a tal letra no nome, ou senão no cargo, ou então na fama, qualquer que seja a razão...

Foi só então que, entre indignado e frustrado em minha iniciativa de continuar batalhando e escrevendo com uma máquina onde faltava só uma letra, enviei ao editor o que escrevi naquela minha coxa maquininha vermelha:

“Sr. Editor: Esqueça Brasília! Esqueça a “fleuma” do jornalista! Esqueça a novidade! Esqueça o Congresso! Esqueça esses tais lá do momento! Me esqueça, isto sim! Quer saber o que acontece comigo? Ai, ai, ai, senhor editor! O que acontece comigo é que eu  “_ erdí”  a letra  “_ ê”  da minha máquina de escrever, “_ôrra” !

2.4.17

O primeiro voo

Quando paramos para perceber as pequenas coisas da vida e usamos nossa imaginação, podemos voar mesmo sem asas...
Esse pequeno curta metragem produzido em 2006 pela Dreamworks, conta a história de um passarinho que quer aprender a voar e no caminho reensina um homem a sorrir. 
Dirigido por: Cameron Hood and Kyle Jefferson.

video

29.3.17

A fertilidade, a divagação e o desejo de novos tempos



Quando tudo parece caminhar para becos sombrios e sem saída e para um total descrédito nas ações dos seres humanos, demonstradas em atitudes cada vez mais desprovidas de qualquer resquício da anima divina, do nada eu me peguei a pensar na romã, aquela frutinha cheia de grãos justapostos, feito uma colmeia vegetal. E logo divaguei por outros pensamentos não menos longínquos e quase abstratos, como a proporção áurea e outros "que tais". Quem sabe, resultado de alguns brindes em excesso, resultado de algumas ações também desmedidas deste período dedicado às tais "festas".

De tudo o que já ouvi dizer e do quanto já provei da fruta, concordo com algumas coisas e discordo de outras, claro. Pela grande quantidade de sementes, a romã é considerada como um símbolo da fertilidade, cuja origem se atribui a uma relíquia vegetal da velha Pérsia ou do Irã, tanto faz, mas lá daqueles lados onde tudo o que é profano toma a forma de sagrado e vice-versa. Lá, pela também longeva Grécia, a fruta era um atributo de Hera, poderosa deusa feminina que zelava pelos casamentos e nascimentos dos rebentos, tanto quanto à deusa Afrodite, aquela da beleza, do amor e da sexualidade.

Nunca contei, mas dizem que a romã tem 613 sementes (!), assim como 613 são os mandamentos ou provérbios judaicos chamados de "Mitzvotz", presentes em seu livro sagrado, a Torá, algo em que ainda pretendo me aprofundar. Dessa forma, na tradição judaica, no feriado chamado “RoshHashanah”, dia em que começa o ano judaico, é comum consumir romãs, símbolo de renovação, fertilidade e prosperidade. Na Índia, dizem, as mulheres tomam o suco da fruta para precaver-se da infertilidade. Os romanos antigos, especialmente os recém-casados, usavam coroas de ramos da romanzeira, pois havia a crença de que a forma e a cor da fruta se assemelha ao útero materno e ao sangue vital.

E vamos além: na maçonaria a fruta tem uma forte simbologia, representando a união dos maçons e presente com destaque em seus templos, no alto das colunas basilares da instituição, a lembrar-lhes sobre os objetivos de solidariedade, igualdade, humildade,  prosperidade e fraternidade, além da força e da beleza. No cristianismo, há várias passagens da Bíblia onde a romã aparece como fruta divina, como símbolo da perfeição, do amor cristão e da virgindade de Maria, mãe de Jesus. Muitas vezes associada ao templo de Salomão, a romã é consumida pelos cristãos no dia de Reis.

Todas essas conjecturas sobre a mística fruta, me fizeram lembrar que, quando criança, morei numa casa onde um pé de romã era como uma espécie de árvore da vida (ou do bem e do mal) bem no centro do pequeno quintal. No entanto, dali colhíamos os frutos, quando era o tempo e a hora, consumíamos os seus grãos, com simples deleite e sem qualquer preocupação com significados a ela atribuídos. E, glória(!), nunca fomos expulsos do paraíso por causa ou apesar disso.

Então eu fico pensando também nas inúmeras vezes em que, depois de adulto e sem um pé de romã no meu quintal, eu me sujeitei a pagar um preço quase sempre elevado por um simples fruto de romã na feira ou no supermercado, apenas para cumprir alguma dessas crendices de passagem de ano. Juntamente com algumas ondas do mar puladas a custo, a cor da roupa íntima, lentilhas, folhas de louro, e outras baboseiras, a romã quase sempre estava metida na história... Inconscientemente (ou não), mas lá estava a romã.

Agora, revendo um pouco melhor todos os significados dessa fruta, que particularmente sempre admirei e gostei, independente de credos, deusas, raças, cores e o que seja, eu até entendo a presença dessa infrutescência em algumas de minhas comemorações de passagem de ano. Acho que sou um eterno crédulo do amor, da vida, da união, da paixão, do sagrado, do nascimento, da morte e da imortalidade. Creio ainda, por menos que seja razoável, na possibilidade de que a barbárie humana possa ter cura, que o ser humano não é assim tão bestial quanto se revela diariamente, e etc.. Creio.

Acho que creio na simbologia da fruta, uma maçã com sementes, pomogranate, uma promessa de sabor, fertilidade e vida. Também não desacredito de que com três grãos na carteira, dinheiro nunca há de me faltar, apesar do entra ano e sai ano correndo atrás da grana.  Opa, vai saber!  Mas no que acredito, principalmente, é na força que a união dos grãos representa. Força da qual poderemos, quem sabe, esperar pela força, fertilidade, pureza, beleza e pela geração de um novo tempo, mais justo e perfeito, mais fraterno e muito, muito mais feliz.
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Apresentado na Sociedade Brasileira de Médicos Escritores em 16.02.2017

15.3.17

Ambiguidade

 












... confiro cada novo anoitecer
anotando distintas matizes
do escuro que deveria ser
mas não repete o de antes
e não profetiza amanhãs
seguer num descuidado fragmento.

... e então fico cismando
pois sei ter visto muitas noites iguais
de luas e estrelas mesmas
e breus que se repetem
sem que eu soubesse como aconteceu.

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Publicado na "Antologia Paulista  vol.4" - Rumo Editorial-SP (2003)

3.3.17

Herança



Choveu o que Deus mandou. Nem deu para trabalhar. Bertão se entrincherou num ranchinho de sapé que fizeram no meio do arrozal. Enrolou um cigarro de palha, pitou. Ficou olhando a chuva. As poças d’água do lado de fora iam encharcando a terra. Acocorado, riscou o chão com um galho, sem querer pensar em nada. E chovia. O arroz novo, com palmo e meio, tombava. A chuva fazia bem para a plantação. Depois de pitar, Bertão afiou a enxada, lambeu o dedo e passou na lâmina. Estava boa.
            
Como não parasse de chover, resolveu voltar. Amarrou a trouxa de novo no cabo de enxada e se foi na chuva. Pisou lama, encharcou as pernas das calças, molhou a camisa de flanelão xadrez. Chapelão de palha na cabeça, Bertão atravessou a cerca do pasto e tomou o rumo da vila. A chuva pelo jeito ia durar o dia inteiro. Andou pelo capim molhado, devagar, sem se importar com a água fria que batia nas costas. Perto da biquinha avistou Venancio. Foi se chegando. Venancio estava de pé, com os braços estendidos rente ao corpo molhado. Parecia olhar longe.
            
“Bom dia, compadre”. Venancio, nem te ligo. Bertão cismou. Parou coisa de dois, três passos do homem. “Tomando chuva, compadre?” O outro não fez nem conta. Bertão, meio ressabiado, deu um passo e parou. Olhou bem, de cima a baixo, e se assombrou. O homem parecia morto. Morto em pé. Os olhos abertos, sem piscar, a água escorrendo pelo rosto, entrando pela boca entreaberta.
            
Bertão tocou no ombro de Venancio. Gelou. O homem estava duro feito uma tora, frio como um defunto. Bertão se apavorou. Largou tudo e azulou para os lados da vila. Correu mais que cão danado. Chegou espumando pela boca, sem poder respirar. “Que é que foi, homem? Viu assombração?” Bertão não falava. Estava branco. “Fala homem de Deus!”. Nada.
            
Deram água com açúcar. “É Venancio”, conseguiu Bertão. “Fala o que é que tem o Venancio, homem!” Começou a chegar gente, pois Ditinho Preto correu logo pelo casario dizendo que Bertão viu alma do outro mundo. Foram acalmando o pobre, a poder de água com açúcar e depois cachaça.
            
Quando começou a falar, Bertão disse tudo de um só fôlego. “Venancio tá lá no caminho da bica duro feito uma pedra e com os olhos arregalados eu falei com ele e ele não respondeu acho que tá mortm em pé”. Murmúrio geral. Gente se benzendo. “Cruz credo. Tá morto?”. “Sei não. Tá de pé, com a boca de quem  viu alma penada e os olhos desse tamanho. Encostei nele e me correu um gelado pela espinha. Não mexeu nem um tiquinho só.”
            
A essa altura já havia gente para averiguar. Ditinho Preto nem sabia para quem mais contar. Corria de uma casa a outra dizendo que Venancio morrera de pé, que isso era coisa do demo. Saíram num grupo de seis ou sete homens. Passo Apressado pelo meio do pasto que era só água. Bertão andava meio abobado, no meio dos outros homens, tropeçando e pisando nos charcos. “Tá lá”, mostrou Bertão apontando com o dedo trêmulo. Voltou numa carreira.
            
Os que iam junto se aproximaram. “Compadre?”, chamaram. Que compadre que nada. Ficou como estava, durinho. Teve um que passou o braço pelo ombro do infeliz, tentando despertar, convencer. Nada. “É obra do tinhoso”, disse. “Se tá morto não sei, mas que tá gelado feito um defunto, isso tá”.
            
Deram ordem a Ditinho Preto. Que fosse buscar mais gente, para levar o pobre homem de volta para a vila. Não precisou falar a segunda vez. Ditinho saiu desembestado, varando cerca no peito.
            
Tentaram deitar o morto. Foi aí que começou a assombrar mesmo. Não se mexia um dedo. Em seis ou sete que estavam, não conseguiram deitar o homem. Parecia fincado no chão. Um deles correu, assustado. “É coisa do cão, crendospadre. Eu que não fico mais aqui.” E agora? Assim é que o pobre do Venancio não podia ficar. Ainda mais debaixo de chuva. De jeito nenhum!
            
Foram buscar dois cavalos. Cordas. Tirariam Venancio dali nem que tivessem que arrastar. Chegaram os cavalos. Amarraram a corda firme no corpo de defundo e atrelaram os cavalos. Puxa que puxa, e nada. Os homens suavam. A chuva continuava castigando. Desistiram.
            
“Como é que a gente vai fazer com ele?” Ninguém sabia. Todo mundo cansado e assustado. “Melhor deixar ele aqui e chamar o padre Deodoro. Com as coisas do diabo quem pode mesmo é só Nosso Senhor Jesus Cristo”. Benzeu-se.
            
Foram chamar o padre. A chuva, nesse meio tempo, parou. Deixou muita lama no caminho da cidade. Da vila até a cidade, onde morava o padre Deodoro, dava coisa de três léguas, três léguas e meia. O padre relutou em atender o pedido. “Onde é que já se viu morto em pé?” Mas como todo mundo insistisse, e havia um ar de assombro, acabou concordando. Bastou isso para o fato se espalhar também pela cidade. “Lá na fazenda São João Batista tem um defundo em pé, fincado no chão”.
            
Quando o vigário saiu, montado num jegue pardo, foi seguido por uma verdadeira procissão. Todo mundo rezando e cantando hinos. Todo mundo querendo ver o morto em pé. Nem o barro do caminho segurou o mundaréu de gente que se aventurou até a fazenda. Foram chegando à noitinha. Numa distância segura, os colonos da Fazenda São João Batista velavam o defunto.
            
“Tá mortinho, seu vigário”. O pároco repetiu o sinal da cruz bem umas cinco vezes. Chegou-se, examinou, tocou o defundo com cuidado. Benzeu-se de novo. “Impossível!” Seguiu-se uma reza comprida, o padre espantando os maus espíritos, o povo repetindo as rezas. Fizeram fogo. Gente da cidade começou a ir embora alí pelas oito da noite. O vigário voltou também, incrédulo, trêmulo, murmurando preces e fazendo o sinal da cruz.
            
Resolveram velar o corpo durante a noite. Pela manhã decidiriam o que fazer. Trouxeram cachaça. Ditinho Preto quis ficar também. Beberam e pitaram. A noite foi ficando limpa, o céu claro pela lua quase cheia. Falaram do morto com mais naturalidade. Uma fogueira crepitava, ajudando a esquentar. “Compadre Venancio era home bão. Merecia morte mió”, disse alguém. Concordaram. Fizeram outros elogios ao defunto, como era por bem fazer.
            
Venancio, que Deus o tenha, ficou ali onde estava. Duro, de olhos abertos, fincado no chão. A luz do fogo tremulava contra o rosto do homem, clareando a boca entreaberta e o rosto branco. Podia se contar uns doze homens velando o defunto e bebendo cachaça. Aos poucos começaram a prosear sobre outros assuntos e a se esquecer do defunto. Falavam de coisas do roçado, de estórias de alma penada, da qualoidade da cachaça. Bebiam.
            
No dia seguinte, ainda cedo, tentaram dar um jeito no defunto. Sair dali não sía. Tiveram ideia de cavar o chão por baixo do defunto. Vieram as ferramentas. Começaram a bater o enxadão rente ao pé de Venancio. A terra estava dura como pedra. Cansados, resolveram desistir e deixar tudo como estava.
            
Melhor. Cobriram o corpo com uns galhos secos. Foram embora. Nunca se soube or ali de um morto que tivesse dado tanto trabalho. “Os bicho dão conta dele”.

***         
Passou o tempo, sem que ninguém mais se atrevesse a passar pelos ldos da biquinha, onde o homem morreu em pé. Diziam eu Venancio, depois de vários meses, ainda estava lá, como o deixaram. Urubu não comeu. Só que ninguém ia até lá para confirmar.
            
Bertão, o que viu primeiro, endoidou. Passava os dias de boca aberta, a baba escorrendo pelo canto, sem falar nada, o olhar perdido, sempre. Andava pelo pasto, pela roça. Diziam que era o único que passava perto da biquinha. Falavam que também tinha parte com o entojado, que era alma desgraçada feito o outro.
            
Um dia Bertão não voltou de suas andanças pela fazenda. Um, dois dias, e nada de Bertão aparecer. Ninguém quis sair para procurar. “Decerto também tá por aí, duro, fincado no chão. Valha-me, Deus!” Os colonos foram ficando cada vez com mais medo, cada dia falando menos. O cão andava solto. Ninguém mais falava em Vanancio, muito menos em Bertão. Se o coisa-ruim ouvisse essas conversas...
            
Foi assim que a fazenda São João Batista foi ficando cada dia mais triste e abandonada. Os colonos, pouco a pouco, foram indo embora para lugares menos perigosos. Ninguém mais queria trabalhar ou morar na São João Batista, onde o diabo andava pelos matos e pelos pastos endurecendo as pessoas. Os donos puseram a São João Batista à venda. Não dava mais para tocar o trabalho sem os colonos. Nunca apareceu interessado em comprar. Um dia os donos também foram embora.
            
Ditinho Preto foi ficando. Virou homem. Recebeu inesperadamente, como herança, aquele mundão de terras, agora abandonadas. Desde o começo achava que era história mal contada. Quem é que tem um homem morrer de pé e ficar fincado no chão? Que é que tem um outro sumir? Mesmo assim, alguma coisa ainda intrigava Ditinho nesse caso.
            
Certo dia resolveu ir ver. Pegou uma garrucha, uma foice, como se isso fosse espantar o capeta caso necessário. Sé é que era coisa dele. Foi. Chegou perto da biquinha na ponta dos pés. O mato encobria quase tudo. Olhou para o lugar onde Venancio tinha ficado. Nem Venancio, nem nada. Só mato. Criou coragem, roçou um bom pedaço e não viu nem sinal de ossada de gente. Cutucou a terra. Fofa, encharcada pela proximidade da água da bica.
            
Ditinho ficou pensando, remoendo as coisas na cabeça, imaginando se tudo aquilo aconteceu mesmo. Afinal, fazia tanto tempo... Quase noite, Ditinho voltou. Entrou na casa de chão batido, paredes de barro, única habitada na fazenda abandonada.
            
A lamparina estava acesa, a mesa posta, uma panela fervendo no fogo. Na mesa, uma garrafa de cachaça. Venancio e Bertão sentados no banco, pitando. Ditinho tirou o chapéu, sorriu, disse “noite, compadres”, sentou-se com eles e comeu.

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Publicado em “Contos & Encontros” – Legnar Editora – São Paulo – 1998 - ISBN 85-86556-04-1
Publicado em "Para bem existir" - Rumo Editorial - São Paulo - 2017 - ISBN 978-85-60350-52-7

22.2.17

A praia e a democracia



Alguém já disse que a praia é o lugar mais democrático que existe.  Confesso que sou da mesma opinião. Em que outro lugar é possível entrar e sair quando bem se entende, vestindo - ou não vestindo - o que der na telha, fazendo - ou não fazendo - o que der vontade? Eu acho que é só na praia.

Não consigo pensar em outro lugar em que isso seja possível. Nem mesmo no Congresso, alardeado como uma casa essencialmente democrática. Se não me engano, foi lá que construíram um tal espelho d’água. Será que é para distanciar o povo da democracia que se faz lá dentro? Não pretendo me enveredar nesse assunto, pois para isso existem os especialistas. Limito-me a falar das coisas mais ao alcance da minha compreensão.

Por isso, volto a pisar na areia. Entendo, porém, que há pequenas restrições à plenitude democrática que se apregoa existir na praia. E há de se convir que é preciso observá-las, sob pena de acabar convergindo para regimes, digamos, mais anárquicos. Não se pode querer, por exemplo, que uma praia de nudismo seja frequentada pacificamente por seminus, ou vice-versa. Mas isso ocorre apenas por uma questão de igualdade de direitos e deveres. Havendo a sutil adaptação que o caso requer, de pronto fica restabelecida a democracia. É questão apenas de uma peça a mais ou uma a menos.

Também acho muito compreensível que os amantes das praias busquem lugares ou grupos de frequentadores onde possam se sentir mais à vontade ou enturmados. Cada um tem sua praia, como também se diz por aí. Mesmo assim, pode-se perceber facilmente que a praia é inimiga da maioria dos preconceitos. Pobres e ricos convergem para as mesmas areias e abrem o guarda-sol lado a lado. Gordinhas branquelas e morenas bronzeadíssimas caminham com a mesma naturalidade pela orla, cada qual na sua mais completa liberdade de ir e vir. Nenhum preconceito: nem cor, nem raça, nem classe social, nem religião...

A praia é um espaço que tanto serve aos visitantes de um dia, que normalmente chegam em turmas numerosas e barulhentas, quanto aos que ficam uma temporada inteira. Depois que se pisa na areia da praia, todo mundo é igual. Convivem pacificamente os que cortam as águas com seus poderosos jet-skis e os que pagam cinco reais para um giro num banana-boat, com direito a tombo e tudo. Servem-se do mesmo mar.

Ao chegar à areia, estender sua esteira, abrir seu guarda-sol e sentar-se comodamente na cadeira, o indivíduo perde todos os indícios de sua origem. A partir desse ritual, não importa mais saber de onde a pessoa veio ou onde está hospedada, se é que está hospedada em algum lugar. Tanto pode ter vindo num carro do ano, importado, quanto num ônibus de excursão. Tanto pode estar se hospedando num caríssimo apartamento de cobertura, quanto numa barraca de camping, numa casa alugada ou naquele apartamento emprestado pelo cunhado e disputadíssimo nas temporadas... Que importância tem isso quando se está à beira-mar?

Outra coisa que notei, é que pouca diferença faz o tipo de petiscos que chegam às praias. Vale quase de tudo, desde o amendoim torrado ou camarão sete barbas no espetinho, até o tão decantado frango com farofa que, aliás, acaba dando margem a um dos poucos preconceitos que ainda persistem nas areias. Noutro dia, por exemplo, experimentei bucho frito à milanesa, que o Capivari trouxe para a roda na praia que eu frequento. Como gosto não se discute, eu gostei e recomendo a iguaria. Ainda mais se o acompanhamento for aquela cervejinha bem gelada, tirada da inseparável caixa de isopor que também costuma estar sempre à mão. Para os que preferem uísque, saibam que não faço a mínima restrição.

Na minha modesta opinião, a praia tem todo esse ar de democracia, sim senhor, e seja lá onde for. Fico observando o que as pessoas fazem enquanto estão na praia, e cada vez mais me convenço de que uma aura democrática paira sobre ela. Os que jogam pelada sabem bem disso. Quando a bola vai para longe, basta gritar “bola” que alguém gentilmente a devolve. O mesmo ocorre com os que preferem o voleibol. Os que ficam se empanando na areia, sabem que também poderiam empinar pipas, com a mesma liberdade. Os que se deitam na esteira para tostar ao sol sabem que poderiam apenas sentar-se à sombra usando protetor solar. E assim vai. Cada qual fazendo o que bem lhe interessa fazer, com total liberdade.

Não estou me referindo a nenhuma praia em especial, pois acredito que ao longo dos mais de oito mil quilômetros da costa brasileira, a coisa seja mais ou menos parecida, com pequenas variações. Com certeza você também já notou coisas desse tipo na praia em que costuma fincar seu guarda-sol, mas talvez nunca tenha analisado quão simples pode ser a democracia, se bem praticada.

Mas, como tudo o que é bom tem seu preço, é preciso que se tenha sempre em conta que, para chegar lá, às vezes é preciso enfrentar pequenos problemas indesejáveis. A disputa por um lugar ao sol, talvez tenha que vencer antes algumas horas de estrada entupida. E, certamente, com alguns mais apressados tentando ultrapassar pelo acostamento. Acho que esses entendem que os fins justificam os meios.
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Publicado no livro "O Encantador de Passarinhos e outras histórias" - 
Rumo Editorial - SP - 2011 


12.2.17

Ao pé da letra














Tentarei puxar um pouco pela minha memória, mas já vou de cara me desculpando se houver imprecisão. Se não me engano era do jornalista e dramaturgo Pedro Bloch uma coluna na revista Manchete chamada “Criança diz cada uma!...” Eram deliciosas e curtas crônicas que tinham como tema a espontaneidade infantil diante dos fatos. Isso faz muito tempo, mas a coluna e seu conteúdo não teriam perdido a atualidade se existissem até os dias de hoje.

Quem tem filhos ou convive com crianças, e mesmo quem simplesmente gosta de ter os pequeninos por perto, certamente já presenciou muita história que bem poderia ter sido tema das crônicas daquele radialista. Isso pelo simples fato de que criança é sempre criança, em qualquer tempo e lugar.
            
Posso contar rapidamente um exemplo, apenas para ilustrar. A filhinha de uma conhecida de nossa família sempre foi orientada a ser educada com as pessoas. Bons modos, respeito, comportamento, tudo o que uma criança precisa aprender, lhe ensinaram. Dentre muitas coisas, lhe disseram que não é educado aceitar o que lhe oferecem, um doce, por exemplo, logo na primeira vez. Deve-se agradecer e recusar a oferta, uma ou duas vezes. Contudo, se a oferta for insistente, e se houver grande vontade daquilo que está sendo oferecido, aí sim, pode-se aceitar.
            
Pois bem. A garotinha andava pela praia com seus pais, quando estes se encontraram com um amigo, que se deliciava com um enorme sorvete. Feitos os cumprimentos, o tal amigo apressou-se a oferecer o sorvete à menina. Esta, zelosa pelo ensinamento dos pais, de pronto agradeceu e recusou a oferta. “Tem certeza que não quer mesmo?”, insistiu o homem. A menina olhou para os sorridentes pais e para o sorvete e disse “Não senhor, obrigada!”
            
Com naturalidade, os adultos continuaram conversando, falando sobre si mesmos e sobre o tempo, coisas sem importância. A menina não desgrudava os olhos do sorvete. Não ouvia sequer uma palavra da conversa. Em dado momento, quando o sorvete já ia se derretendo e acabando aos poucos, a menina puxou uma das pernas da bermuda do homem e disse: “Moço, será que o senhor não pode oferecer pela terceira vez?”

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Publicado no livro "O Encantador de Passarinhos e outrs histórias"
Rumo Editorial - SP - 2011

3.2.17

Acho que comi RedAnne


Quando via a reportagem na televisão me correu um frio na espinha, uma sensação indescritível de culpa. As lágrimas de Dona Tereza, que tartamudeava diante da câmera e mal conseguia relatar o fato ao repórter. As imagens do local onde viveu RedAnne por longos cinco anos. A oferta generosa de uma recompensa para quem desse notícias de RedAnne. Sua minuciosa descrição, feita entre soluços. O nó que se formou na minha garganta.

Toda a culpa do mundo pesou sobre os meus ombros ao ver Dona Tereza choramingando, lamentando e pedindo a volta de sua RedAnne. Hoje, pensando um pouco melhor nos fatos, me julgo um criminoso, até certo ponto, inocente. Como é que eu ia saber? O que eu não deveria estar fazendo agora, é confessar o que, talvez, nunca tenha sido um crime, isso nunca! Acho que Dona Tereza jamais irá me perdoar, mas minha consciência me diz que devo narrar o acontecido. Se ficar evidenciada minha culpa, me resigno à penitência. Se, contudo, eu for julgado inocente, como na verdade acho que sou, resta-me compartilhar a dor de Dona Tereza, e o consolo de ter feito o que fiz com a melhor das intenções. Eu não sabia, no momento daquele ato terrível, qualquer antecedente sobre RedAnne que pudesse livrá-la do destino que teve.
            
O que mais me incomoda hoje é a dúvida. Isso poderia ser um alívio para minha consciência, mas, ao contrário, é o que me martiriza e alfineta a alma. Talvez nem fosse ela naquele dia. Poderia ser uma outra qualquer. Afinal, elas são tantas e tão parecidas. Eu mesmo já vi muitas como RedAnne. Todas têm feições e trejeitos muito parecidos e seria leviano afirmar que era ela. Como saber? E mais: se hoje a trato pelo nome, é em razão de tê-lo visto na legenda da reportagem da televisão, escrito com todas as letras. A grafia é essa mesmo: RedAnne. Apareceu também o anúncio classificado que Dona Tereza mandou publicar, onde pude confirmar que o nome era esse mesmo.
            
Uma coisa deve ficar bem clara. Não fui eu que provoquei ou premeditei nada. Foi RedAnne quem veio a mim e se insinuou. Dei-lhe abrigo e comida, é certo. Mas por curtíssimo tempo. Eu não tinha intenção de me apegar a ela de forma alguma, pois, nesses casos, acaba havendo remorso e inquietação da consciência quando acontece o que acabou acontecendo com a pobre RedAnne.
            
Esta narrativa nem estaria acontecendo se eu não tivesse visto Dona Tereza no jornal das sete e meia, com a feição marcada pela dor da perda de RedAnne. Minha consciência estaria tranquila, como esteve até então. O meu ato teria sido o mais natural deste mundo. Mas assisti à reportagem e nela afloraram todos os indícios e evidências que agora me atormentam, e com isso não posso me furtar à confissão.

***
RedAnne apareceu três dias antes do ocorrido, exuberante e mansamente. O ano findava. Foi a primeira vez que a vi. Não pude suspeitar de onde viera. Como dona de meu quintal, passeou serenamente, sem se importar com minha surpresa ao vê-la. Me aproximei e ela não recuou. Não tinha medo.

Não a toquei nesse primeiro encontro. Apenas dei-lhe de comer e permiti que ela ficasse. Ela aceitou minha oferta com grande naturalidade e sem qualquer demonstração de grtidão ou surpresa. Simplesmente comeu e ficou. A sua aparência era belíssima e serena, e não pude deixar de admirá-la por isso.
            
Talvez eu não devesse confessar, mas as coxas volumosas de RedAnne e seu peito empinado e grande me chamaram atenção logo à primeira vista. Não era desejo ou cobiça, mas não pude deixar de olhá-la com a intenção de analisar esses detalhes tão íntimos de seu corpo.
            
A mansidão e a beleza de RedAnne faziam supor que ela sempre for bem tratada. Havia um certo ar de nobreza e desprendimento no seu andar vagaroso e elegante. RedAnne era cativante.
            
Como eu já disse, não a toquei no primeiro encontro, limitando-me a admirar sua beleza. Pensei primeiramente em conquistar sua confiança, aceitando sua presença e tratando-a com a delicadeza da qualela era merecedora. E o resultado foi satisfatório. Havia uma certa reciprocidade entre nós. Respeito, eu diria. Essas, creio eu, foram as razões que a levaram a ficar.
            
Ousei tocá-la no dia seguinte, enquanto ela placidamente comia o que lhe ofereci. Não houve sequer um gesto de recusa de sua parte. Manteve-se impassível, enquanto eu acariciei suas costas e passei suavemente a mão por sua cabeça.
            
Minha ousadia foi ainda maior quando a tomei nos braços, e pude sentir seu peito arfante em minhas mãos. Com extremo cuidado, percorri todo o seu corpo antes de deixá-la outra vez livre. Ela aceitou tudo isso sem esboçar qualquer reação. Talvez por isso eu me permito hoje repartir a culpa com ela. Se ela tivesse3 fugido antes de permitir tamanha aproximação, nada teria acontecido depois. Mas não! Ela provocou!
            
Era apenas o segundo dia de sua presença e eu já havia traçado um plano sobre o seu destino. Eu precisava experimentar a carne tenra que meus dedos haviam acabado de tocar. Resolvi que iria comer RedAnne. E em data apropriada. No reveillon.
            
A minha estratégia era manter a relação de confiança estabelecida para consumar meu plano. Continuei tratando RedAnne com o necessário cuidado para que ela de nada desconfiasse até a hora do... Crime!
            
Aqui estou eu novamente a me culpar. Não houve crime. Premeditação do ocorrido, sim. Mas nunca um crime. Foi tudo uma consequencia natural, própria do instinto do ser humano. Lamento ter que ser tão rudo, Dona Tereza. Acho que comi RedAnne, sim senhora, mas não mereço qualquer castigo por isso. Por mais que hoje a senhora lamente a ausência dela. E, veja bem, eu “acho” que era ela, não tenho certeza.
            
Apesar de toda a semelhança física entre RedAnne e a descrição feita por Dona Tereza antes de oferecer recompensa de quinhentas pratas para quem dela desse notícias, eu ainda acho que pode ter sido outra, a daquela noite de reveillon. Mesmo assim, pretendo levar a cabo este meu desabafo, pois não poderia deixar de mencionar alguns detalhes da hora que comi RedAnne.
            
Comecei a prepará-la no final da tarde do dia 31. Deixei um campanhe na geladeira, pois a ocasião da passagem do ano sempre é propícia para champanhe. Quando ela já estava preparadaa, tomei um banho e coloquei roupa branca, pois dizem que dá sorte rompor o ano vestido dessa cor.
            
O perfume que RedAnne exalou pela casa naquele começo de noite foi algo indescritível, e fez aguçar mais o meu desejo de comê-la.
            
Chegou a hora, finalmente, e RedAnne parecia soberba, perfumada, deliciosa... Explodi o champanhe, cuja temperatura era a ideal, e ao espocar dos fogos que comemoravam o nascer do novo ano, comi RedAnne.

***
            
Nada mais há para confessar. Que me julguem agora. Tenho apenas a sugerir uma forma de recompensar Dona Tereza pelo que ocorreu com RedAnne, já que tudo agora é indubitavelmente irreversível: eu poderia dar-lhe outra galinha, da mesma raça de RedAnne, de porte altivo e penas vermelhas.
            
Não sei se poderia haver por esta a mesma estima que levou Dona Tereza a chorar o sumiço de sua ave que acabei comendo na noite de reveillon. Reafirmo: na melhor das intenções. Ninguém veio reclamar a galinha nos três dias em que ela ficou no meu quintal, comendo o milho que eu comprei especialmente para ela.
            
Se isto serve de consolo, posso afirmar que a carne da gorda galinha não era lá tão macia. Afinal, tinha mais de cinco anos. E se posso dizer algo para prevenir situações como esta no futuro, gostaria de sugerir que Dona Tereza cuidasse melhor de seu galinheiro, não permitindo que outras galinhas virem ceias de reveillon por terem invadido quintais alheios.
            
E que não ponha nomes em suas aves.

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Publicado em “Contos & Encontros” 
Legnar Editora – São Paulo – 1998

ISBN 85-86556-04-1 

27.1.17

Reflexões casuais ao raiar do ano



BORBOLETAS AZUIS
“Tem dias, que nem sei de onde, surge uma borboleta azul enorme e linda em minha manhã. Ela entra pela fresta duma janela, pelos vãos da cortina, e displicentemente se instala em mim. Sobrevoa meu dia, borboleteando no seu jeito desajeitado de ser borboleta. Ela se insinua e logo escapa, como quem não quer nada com nada e não está nem aí com seu jeito efêmero de ser uma borboleta grande e azul. Com ela eu me divirto, eu sorrio novamente, eu volto a viver. Borboleteio com ela nessas horas, pois nada melhor que a despretensão desses voos desajeitados. Borboletas azuis aparecem sempre que sabem que são necessárias, isso sim!”
02.01.2013

DESINVENÇÕES
Hoje me deu de pensar em coisas meio esquisitas.  Naquelas meio estrambólicas e surreais que de vez em quando nos vêm na cabeça. Aí pensei em desinventar uma das que foram feitas só para atormentar nosso juízo. Tentei desinventar a saudade. Um pacote vindo da Oceania, uma ligação no Skype, uma voz distante, tudo pode ser motivo para desinventar a saudade. Mas logo vi que a saudade é mesmo uma desinvenção meio à toa, pois ela é aquela coceira que dá por dentro da gente, difícil demais de coçar.  Aí desisti. Prefiro essa comichão que vem lá do fundo e que nunca a gente coça direito, por mais que tente. Mas uma hora qualquer eu dou um jeito nela. Deixa estar.
04.01.2013

ÁGUAS
É que muitas vezes somos teimosos, mas não deveríamos insistir tanto com certas coisas improváveis. Seria útil refletir sobre o exemplo da sabedoria das águas dos rios, que nunca passam novamente sob a mesma ponte, que contornam obstáculos ao invés de evitá-los, que percorrem os caminhos de seu destino ora com a mansidão de quem desfruta o momento, ora com a volúpia frenética de quem tem certeza de onde quer ir. E assim vão se avolumando e se fazendo poderosos, se agigantando... Até que um dia viram oceano.  
 07.01.2013 (com saudades da visão do Velho Chico virando mar em Piaçabuçu).

CRENÇAS
O mundo é movido por uma porção de coisas, em primeiro lugar, pela mão onipotente e poderosa do Grande Arquiteto do Universo. Para alguns tudo é fruto do acaso. Para outros, este simplesmente não existe. Há os que creem em destino, e há os que abominem essa ideia. Há quem espere pelo óbvio, que nem sempre acontece. E há também quem acredite no impossível, que de repente... Pronto! É a vida seguindo sua trajetória e são os que vivem buscando entender todo esse mistério de ganhar e perder. Seguir em frente. Conquistar. Um mistério e tanto a ser desvendado se pensarmos que há muitos que não têm sequer um pouco de fé. É preciso acreditar na vida e no jeito próprio que ela encontra para tomar conta de tudo. Eu acho.

16.01.2013
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Publicado na "Antologia Paulista" - Vol.9
Rumo Editorial - SP - 2013 
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