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17.12.08
Janela Aberta
Naquele tempo dava pra almoçar em casa todo dia. Morando perto do trabalho, ia e voltava a pé. Passava pouco de meio dia quando chegou em casa. Entrou e foi direto para a cozinha. Sobre o fogão, as panelas com tudo preparado, bastando uma ligeira aquecida. Acendeu as bocas necessárias.
Então ouviu um barulho, vindo de um dos quartos. Estranhou, pois naquele dia e naquela hora, não haveria ninguém em casa. Foi ver. Sobre a cama do casal havia uma porção de brinquedos espalhados, algumas peças de roupa, bibelôs. E um moleque, ali de seus dez, onze anos. Sujo feito um porco. Vizinho de quarteirão, talvez. De pé, o moleque se preparava para tentar alcançar algo sobre o guarda-roupas. Havia entrado pela janela, que sempre ficava aberta. Naquele tempo isso era possível na tranqüila São Manoel.
“O que é que você tá fazendo aí, moleque?”. Com o susto, o pirralho ficou estático e mijou-se todo. A cama, que já estava uma bagunça, ficou em petição de miséria. Com raiva, catou o moleque pelo braço e o arrastou para fora do quarto. Pegou a chave do carro. Meteu o garoto no banco de trás e bateu a porta com força. Abriu o portão da garagem e arrancou rumo à delegacia, do outro lado da cidade.
O delegado ouviu, anotou nome do reclamante e dispensou os dois. Recomendou que levasse o moleque de volta. Contrafeito, pois esperava pelo menos que o delegado desse um sermão no pirralho, ou que chamasse os pais para uma reprimenda, disse “vambora”. De cabeça baixa, o moleque voltou para o banco de trás, que nesta altura também estava todo sujo e mijado.
Quando já ia chegando no portão de casa sentiu um forte cheiro de queimado. Largou o carro ali mesmo, porta aberta e motor ligado. Correu para dentro de casa. Na cozinha, uma fumaceira medonha. Sobre o fogão, as panelas totalmente enegrecidas. Com dificuldade, conseguiu apagar as bocas do fogão. O almoço estava irremediavelmente perdido.
Custou a colocar a casa em ordem novamente. Jogou fora as panelas. Fez o mesmo com a roupa de cama. Guardou os brinquedos dos filhos que o moleque havia espalhado pelo quarto. Depois de algum tempo lembrou-se do carro. Correu para o portão. Ainda estava lá como o deixara, porta aberta e motor ligado. Nem sinal do moleque.
Foi difícil cumprir o resto do expediente daquele dia. Carrancudo e com uma fome danada, voltou para casa quando já anoitecia. Um tanto contrafeito tentou explicar tudo para a mulher e os filhos que também haviam retornado e viram que a casa esta um tanto de pernas pro ar. Eles não entenderam muito bem o que havia acontecido, mas acabou ficando por isso mesmo.
Quando já dava tudo por esquecido e acabado, dois ou três dias depois, veio um oficial de justiça. Trazia uma intimação para que comparecesse ao fórum. Atendeu e teve que se explicar de todas as maneiras possíveis para que o juiz, que o ameaça de prisão por maus tratos a menor, não cumprisse o que prometia. Safou-se por pouco.
A esta altura alguém da mesa da pizzaria, que também ouvia o relato, disse: “Se fosse comigo eu tinha era enchido a bunda desse moleque de palmada e colocado no olho da rua. Queria ver ele pular janela de novo”. Ao que o outro arrematou: “Lá em São Manoel? Tá louco! Aí é que eu ‘ia’ mais preso ainda...”
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Contada pelo Ir.’. José Roberto Littério, a quem agradeço
e dedico esta história, que vai aqui reproduzida a meu modo.
Publicado na coletânea "A Pizza Literária - nona fornada"
Rumo Editorial - São Paulo - 2006
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