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14.1.19

Sonhar não é pecado



De repente eu me lembrei do Quimério, que sabia que tinha mal de chagas, criava duas galinhas pestilentas e devia cinco meses de aluguel para seu Agenor. Devia também no armazém, mas esse era o tipo de dívida que não incomodava ninguém, pois o seu Armando não sabia cobrar os de sua caderneta. Tinha até vergonha de dizer “ô, fulano, você  me devendo tanto”. Sabe como é essa gente simples de tudo, não é?

Pois foi Quimério quem sonhou, noite dessas, com Branquinha, cabrita bem apessoada e que era o tormento do pasto para muito bode comedor. E no mesmo sonho ele viu Modesta, cabrita cheia de bernes e carrapatos, lembranças de sua meninice, quando tudo se resolvia daquele jeito que todo mundo conhece. Tanta cabra num sonho não tinha outra finalidade, senão indicar a sorte. Pois Quimério acreditou nela e jogou um bem combinado no bar do Zito. Modesta e Branquinha num sonho ? Não dava outra! 21, 22, 23, 24, grupo seis, tudo com muito capricho e um monte de mandingas para atrair a sorte, que sonhar também não adianta.

E não é que deu na Paratodos? Quimério arriscou um mês de armazém, mas tinha na mão o premiado. Sabendo do resultado foi no bar do Zito, que não negou o serviço e pagou o jogo. Afinal, vale o escrito, por três dias! Quimério mandou baixar cerveja na mesa de madeira sem polimento. Bebeu e se encharcou de tanta alegria com seus colegas de bar. Mas ficou devendo no armazém de seu Agenor. O dinheiro não deu nem para pensar num exame do coração, que acabou enterrando Quimério, assim, sem mais nem menos, coisa de um ou dois dias depois...
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Publicado em "Antologia Paulista - Vol.6" - Rumo Editorial - São Paulo - 2007
Publicado em "Janela aberta e outros escritos guardados no tempo" - Rumo Editorial - São Paulo - 2019

14.12.18

Ócio



I
Reservo meu ócio para coisas amenas, que não me tragam susto nem chateação. Busco lugares que me surpreendam, gente e coisas que me apeteçam e que não me tragam problemas. Basta os do quotidiano, quando quase definho nessa coisa de sobreviver. Então pesco. Insisto. Penso, logo existo. Lanço engodos e me dá prazer, pois os peixes atendem a esses chamados mesmo sabendo que são armadilhas. (Tenho uma tese boba que sustenta que todo peixe fisgado, não sabe o que são armadilhas) Assim mesmo se entregam. Lutam nervosos e imprevisíveis, mas raramente escapam. Acabam em minha mão, que os solta de novo... Seu destino é buscar engodos.
II
Brinco de garimpeiro, em certos momentos de ócio. Afundo bateias nos riachos de minhas planícies, faísco pepitas, despejo rejeitos. Refino o que reluz. Quantas águas haverei de vasculhar nesses meus parcos momentos de ócio? Mas os reservo apenas para coisas assim, maiores que a mesquinharia do repetir-se da maioria dos meus dias.
III
E é assim que gosto de olhar horizontes, especialmente em oceanos. Sento-me a bisbilhotar com o binóculo. Procuro veleiros insuspeitos, amigos aguardados com ansiedade, na expectativa de que voltem do mar e aportem. Então os vislumbro nos horizontes desse oceano de meu ócio. Tiro as sandálias de meu dia-a-dia e os recebo para que me contem as novidades dos lugares em que não fui, e venham se refestelar nessas areias em que eu os esperei. E não há pressa nesse meu momento de ócio, pois o reservo para coisas amenas, como o chegar de um barco. Um barco que saiu do horizonte que eu adivinhei, que veio do nada que eu pensava que havia e que aflorou das espumas distantes que eu avistava.
 IV
Meu ócio é mais ou menos assim, pleno de novidades que surgem desse nada que é. Não quero empatar meu tempo, pois não sei quanto dele resta. E é por isso que eu, nos meus momentos de ócio, me aventuro em cavernas de pensamento, escalo morros imaginários, inatingíveis, reviro as amplidões de minhas planícies, cavalgo, rumino existências e cravo conquistas. Fecho os ouvidos aos ecos indecifráveis. Não permito que em meus momentos de ócio existam coisas mesquinhas. Só o indispensável me basta. E sempre pesco, pois existo!

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Menção Honrosa no Prêmio Flerts Nebó (prosa) 2017/2018 - Sobrames-SP



30.11.18

A haste quebrada














Quero narrar este fato como um dever de ofício. Não há outra razão, senão a obrigação a que a consciência nos remete em certos momentos. E que fique claro que não haveria necessidade de eu estar aqui contando este caso, não fosse um tantinho de nostalgia que me bateu noutro dia, ao tentar escrever uma crônica na minha velha e saudosa "máquina de escrever", a que foi adquirida antes de qualquer outra modernice de hoje em dia. Então raciocinei: nada de informática! Nada das facilidades da Microsoft! Nada das comodidades oferecidas hoje em dia. Nada de Bill Gates e seus seguidores.

Muito bem! Retirada a tênue terra seca de cima da velha máquina de escrever, decidi levar adiante o meu saudosismo, e escrever estas linhas. Na mesma máquina que causou a história que lhes conto! Consigo lembrar quantidade ínfima dos fatos, mas mesmo assim tentarei dar uma idéia do que significou em minha vida uma haste quebrada. Que haste? - questionarão todos com razão. E eu lhes digo: a haste de sustentação de uma certa letra de minha velha e saudosa máquina de escrever. Uma consoante, diga-se! Fosse uma vogal, e esta narrativa sequer existiria. Inimaginável conceber estas linhas sem qualquer das vogais. Mas, voltemos à história! Essa tal haste se quebrou um dia, e a tal consoante que essa milagrosa haste sustentava sumiu, sem que eu me desse conta do fato... E é esse fato insignificante sobre a consoante sumida que lhes narro agora.

Foi assim: Eu era um ‘foca’ de um certo jornalzinho desconhecido de qualquer bairro desta cidade, nos idos de 1978. O nome do jornal eu vou omitir, justamente em razão da falta daquela mesma consoante de que falei, e já que a máquina em que agora escrevo é a mesma, até hoje não consertada. Muito bem!  Foca, é bom que saibam os senhores, é o iniciante no jornalismo, aquele que tem que encarar qualquer trabalho com o objetivo de obter conhecimento no ofício que almeja exercer. Eu era um deles, naquele ano de 1978, na busca de meu canudo de curso universitário. E assim, eu era obrigado a concretizar qualquer ideia maluca do editor do tal jornalzinho, escrevendo sobre o que ele imaginasse.

Só que eu fui um foca de muita sorte, e só agora eu entendo o significado disso em minha vida. E mais: a mesma sorte seguiu minha tênue carreira, de maneira que, em razão disso,  eu nunca necessitei suar tanto a camisa como acontece a qualquer outro foca ou mesmo a alguns veteranos. E, dessa forma, graças a essa sorte teimosa, eu acabei ganhando uma coluna semanal de crônicas no tal jornalzinho desconhecido, o que me levava a crer numa vida muito cômoda e tranquila, uma vez que não necessitaria sair atrás da notícia. Bastaria utilizar um tanto de criatividade e outro tanto de correção gramatical e tudo estaria resolvido.

Ledo engano, entretanto! Foi só quando conquistei essa invejável colocação de cronista, almejada até entre os mais veteranos no jornalismo, que eu me dei conta da quebra irremediável da haste daquela bendita letra na minha máquina de escrever. Uma mísera haste, de uma mísera letra! Uma insignificante consoante! Uma só entre tantas outras que integram o alfabeto e o teclado de minha “vermelhinha”, que era como eu chamava, carinhosamente,  a minha velha máquina de escrever, objeto de tantos sonhos de estudante. E a falta desta haste, acabou me custando caro, confesso!

O motivo é singelo, entendo, hoje que sou dono de tecnologia mais avantajada, sem omissão de vogal ou consoante. Naqueles dias, dinheiro eu não tinha que consertasse a haste! Estudante, sabem todos os que estudaram, vive de lanche, dinheiro curto e ônibus lotado! Consertar a tal haste eu não saberia, e nem teria condições de fazê-lo, já que além da haste estar quebrada, a letra estava sumida. Então? Que fazer? Como sustentar a confortável colocação de cronista já conquistada, num mero acaso da insistente sorte, sem a tal letra?

Claro! A solução se me afigurou tão clara como a luz do sol! Já que não era necessário atender nenhuma determinação do editor quanto ao que escrever, já que tudo sairia de minha cabeça, uma vez que crônica é crônica, e já que minha obrigação era entregar um texto semanal que recheasse a coluna a mim reservada no jornal,  eu solucionaria a questão escrevendo somente artigos sem o uso da tal letra que faltava na minha máquina. Adeus, inútil consoante!

Genial! Estava resolvido! Nada de termos com aquela tal letrinha. Nada de florear e inventar, senão o risco de necessitar da tal letra da haste quebrada seria uma ameaça. Somente o trivial bastaria, e garantiria o que já havia sido conquistado: um lugar ao sol como cronista! E assim foi na edição seguinte, e na outra, e na outra, até que um dia o editor ligou lá em casa: “Escuta aqui, ô foca! Já encheu o saco a sua crônica, sabia? Não tem nada que interesse! Tanta coisa acontecendo em Brasília, e você me escreve sobre amenidades? Cadê aquela “fleuma” do jornalista? Cadê a novidade? Cadê o fato do momento? Tem tanta coisa acontecendo, e você fica aí com essa lenga-lenga, com essa água com açúcar? Mais um texto e eu me defino: ou fica ou sai!”

Engoli um nó formado em minha garganta, com muito custo. Quando desliguei o telefone, senti não ter dado ao editor uma justificativa adequada, mas enfim, já tinha desligado! Já que eu iria deixar de lado o status conseguido até então, decidi colocar um fim honroso à minha breve carreira como cronista. Não entraria em detalhes, já que coisa íntima deve-se guardar somente na intimidade, e se agora lhes conto estes fatos é somente um gesto de confidência, uma iniciativa minha.

E assim, só me resta lhes contar que encerrei minha curta carreira de cronista com um texto breve, que jamais foi divulgado naquela jornalzinho de bairro no qual a iniciei. O editor certamente o leu, mas nunca manifestou seu juízo sobre o que leu. E hoje, raciocinando melhor, confesso dar razão ao editor. Como falar do Congresso, da Assembleia e da Câmara, sem a tal consoante? Quase todos os que ali flutuam levam a tal letra no nome, ou senão no cargo, ou então na fama, qualquer que seja a razão...

Foi só então que, entre indignado e frustrado em minha iniciativa de continuar batalhando e escrevendo com uma máquina onde faltava só uma letra, enviei ao editor o que escrevi naquela minha coxa maquininha vermelha:

“Sr. Editor: Esqueça Brasília! Esqueça a “fleuma” do jornalista! Esqueça a novidade! Esqueça o Congresso! Esqueça esses tais lá do momento! Me esqueça, isto sim! Quer saber o que acontece comigo? Ai, ai, ai, senhor editor! O que acontece comigo é que eu  “_ erdí”  a letra  “_ ê”  da minha máquina de escrever, “_ôrra” !

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Publicado na coletânea "Por que comigo" - Editora PerSe - 2018
Projeto Apparere





28.10.18

Manhãs proibidas




Este caso me confidenciou o próprio personagem. Como eu conheço tanto ele quanto ela, ouvi tudo com muita apreensão, tendo o cuidado de prometer guardar segredo e não dizer nada a ninguém. Depois de ouvir aquela história eu já não sabia se ria ou se me mantinha sereno e circunspecto diante das estrepolias amorosas de meu confidente. No fim da sua narrativa, ora em tom de bravata, ora de confissão, ele surpreendentemente me liberou do segredo, dizendo: “Só não diga que fui eu que te contei, tá? Se alguém vier perguntar, diga que é uma dessas histórias que você inventa e escreve em seus livros”.  Bem, já que fui liberado, lá vai. Do jeitinho que ele me contou. 

*

As estratégias dos pecados dela, hoje é que eu penso assim, eram tão arriscadas quanto jocosas. Quem sabe copiando aqueles enredos rocambolescos dos filmes da sessão da tarde que misturam romance, ação, suspense e um pouco da sacanagem implícita nas quase sempre previsíveis tramas de Hollywood. Quem sabe parodiando, e muito amadoristicamente, alguns daqueles romances famosos, dos que colocavam num mesmo caldeirão, os perigos do proibido, o fervor dos grandes pecados, a iminência da morte e do desejo, tudo isso ardendo e fumegando a um só tempo, na mesma panela ou leito em que houvesse um espelho no teto, perdidamente distante em algum lugar que encontrassem, fossem eles entendidos como insuspeitos e não sabidos, ou fosse à primeira entrada de um motel de preço razoável onde o retrovisor não mostrasse perigo à vista. Tudo numa pecaminosa inocência, bem louca, bem desavergonhada, bem sacana, como se fosse coisa da mais irresponsável e inconsequente aventura da adolescência.

Quando ela veio me contar o que vinha fazendo há algum tempo e com uma frequência tão grande, eu pensei: "Você é uma louca completa. Isso vai dar merda! Contenha-se, menina!". Na verdade eu já sabia desse jeito despojado e inconsequente dela tratar as coisas, mas sempre achei que, para uma mulher casada, ela deveria ter um pouco mais de cuidado. Não tinha! Como um soco no meu rosto, eu soube e senti que ela vinha dando muita chance para o azar, agora que parecia ter assumido que poderia ser tão irresponsável quanto lhe desse na telha. Imaginei até o quanto pudesse estar infeliz num casamento de tantos anos e por que razão tinha resolvido esculhambar de vez a relação, dando suas escapadas. Mas, a esta altura, o que há para ser feito? Ouvi seu "desabafo" e engoli em seco. Fiquei totalmente sem jeito de insinuar qualquer coisa ou providência que ela pudesse adotar. Pasmei!

Minha apreensão não teria nenhuma influência em tudo o que houve depois, não fosse um pequeno detalhe. Mesmo porque eu me abstive de comentar, opinar ou dizer o que fosse para aquela descabeçada, quando ela me contou tudo com solidária confiança; o que de pronto me lembrou em muito aquela estória da mulher trancada no armário: quando quer, trai o marido com o cabide.

Essa mulher... Fogosa, escultural, ardente e tão mal-amada assim, a ponto de trair o marido apenas por vingança?  Pensei: "Não! é uma baita duma ninfomaníaca, isso sim!". Mas fechei o bico e fiquei na minha, pois xibiu da mulher dos outros não é da minha conta. Ainda mais quando se trata do xibiu dela, cujo marido eu conheço e respeito muito, mesmo porque o muque dele é bem maior que o meu. E principalmente porque xibiu de mulher fogosa e muque de marido bravo e traído não devem se misturar na mesma trama.

Ah, em que porcaria de situação ela me deixou! Hoje até posso dizer: "... gostosa, fogosa e despachada mulher... Fosse você outra criatura e eu não teria lhe dado ouvido”.  Mas eu não disse isso no dia que tinha que ser dito e tudo foi acontecendo como tinha que ser... Ah, mulher, mulher, sua tranqueira... Aconteceu e foi bem no dia em que ela me pediu total cumplicidade, coisa que já existia, e álibi para mais um arrojado projeto para o próximo encontro pecaminoso com seu amante, coisa de cujos detalhes eu estava cada vez mais íntimo.

Eu disse: "você tá louca, menina? Ele vai desconfiar e descobrir tudo e aí, danou-se!". Ela me disse: "Cagão! Se tá com medo me diz logo que eu arrumo outra desculpa e um cara mais gostoso!". Naquele momento eu pude pensar pela primeira vez no roteiro de um thriller, com muito sangue, devassidão e pecado na cena culminante de um filme classe B. Agora estava tudo perdido. Ela, louca como era, iria por o seu casamento para escanteio, chutando o pau da barraca. Já havia demonstrado todo seu desprezo, descompromisso e devassidão. Ai, ai, ai...

Em resumo: ela queria ligar para ele, no meio da manhã, e dizer que tinha sofrido um pequeno acidente de trânsito. Vê se pode! E dizer que eu, "por um acaso do destino", estava passando pelo local e a teria socorrido e levado para um hospital... Que bosta de trama! Perfeito só na cabeça dela. Naquela cabecinha pequena, ela imaginava que, até que as coisas e as informações todas chegassem aos destinos, e tudo fosse apurado e que fosse justificada a ausência dela no trabalho naquele dia, já teriam se passado mais das três horas regulamentares do motel... E depois era só inventar uma outra história qualquer... "Lá se vai minha vida para o brejo", pensei.

Naquele dia o trânsito estava terrível. O meu trajeto de 1,5 km até a estação de metrô onde estava marcado nosso encontro já estava durando mais que uma hora! Normalmente se faria em menos de 10 minutos. Meu celular tocou, pontualmente, a cada três minutos.  Era ela perguntando: onde você está? Eu dizia o número do prédio na avenida em que eu estava parado na merda do congestionamento. “E agora?” - dois minutos depois. Parado no mesmo lugar, eu disse. "NÃO GOSTO DE FICAR ESPERANDO", ela gritou e desligou. Doze segundos depois ela ligou de novo e disse que se eu não chegasse num minuto ela iria embora. Desligou. Quinze segundos depois ela ligou novamente e disse: "Estou no banheiro da estação. Desceu!". "Desceu o que?, eu perguntei".  E ela respondeu: "Desceu! Meu dia de princesa... estou no meu dia de princesa. Entendeu? Vou pegar o trem de volta".

Aquilo me subiu um sangue do cão, mais do que o dela houvesse descido. Foi um nervoso tão grande com aquela pasmaceira do trânsito me trancando e com o calor que o ar condicionado do carro já não mais arrefecia que eu dei um ultimato: "Você não vai pegar porra nenhuma de trem de volta! Fica aí bem na tua que eu to chegando rapidinho e hoje vai rolar daquele jeito que você adora e nunca permitiu! E você que não esteja aí pra você ver quem é que vai ligar pra ele dando o álibi do atropelamento”!

Naquele dia ela mostrou que tinha muito potencial para garantir seu casamento e que gostava de uma variação de vez em quando. Não sei se foi assim que eu a convenci a manter-se casada e que desse uma sossegada no facho... Foi isso.

*

Nem sei o que houve depois, mas tudo bem que assim seja. Pelo menos por enquanto. Ela continua casada. Aos trancos e barrancos, a coisa tá caminhando. Sei lá se voltaram a se encontrar. Eu os vejo de vez em quando, como se nada houvesse. Mais não digo, pois nada acrescentaria ao caso.

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - décima quinta fornada" - Rumo Editorial - SP - 2018













Publicado na coletânea "Corpos Ardentes" - PerSe Editora - SP - 2019













7.10.18

Aquela mulher que comeu o tempo



A São Paulo do meu tempo de menino era cheia de histórias e mistérios. Na rua em que morei, então, nem se fale. Pois havia nela uma determinada casa e, nessa, vivia certa mulher. Naquela época o pessoal da rua já dizia que ela era meio bruxa. Falavam que seu vestido era puxado para o escuro, de cor indefinida entre aquele tom de cinza mortífero e a névoa das manhãs cheias de bruma, feito os fogs lá de Londres, que eu nem sabia direito onde ficava; era a cor da morte. Ela vestia a cor da morte, diziam. E isso me dava um pouco de medo. Não muito, pois nem tão perto de mim ela chegara até aquele momento para que eu pudesse ter visto direito essas coisas das cores que ela vestia e pudesse sentir medo. Mas fiquei com medo, muito medo, assim mesmo, só de imaginar o cheiro que ela poderia ter. E assim a coisa ficou por algum tempo.

E diziam que ela cheirava a passado e a caldeirões fumegantes. Não sei que cheiro pode ter o passado. Nem os tais caldeirões. Penso nisso apenas quando me vem na memória algum cheiro como o que deve ter ficado registrado n’algum canto de mim, meio escondido, e apenas quando penso na canja de galinha que minha mãe cozia com a maior delicadeza. Se o passado cheira assim, eu não deveria me preocupar. Mas o cheiro a que todo mundo se referia era outro. Acho que fazia referência a coisas mórbidas, funestas e amedrontadoras, como provavelmente deve ser o cheiro da morte e dessas coisas cheias de mistérios. Mas como eu desconhecia tudo isso me dava apenas um pouco de apreensão. Um pouco não. Na verdade, bastante. Coisa muito esquisita.

Até que num fim de tarde, quase noite na verdade, quando aquela penumbra indefinida das tardes de outono assume a cor de tudo e de quase nada, eu topei com ela. Cara a cara! Tremi e paralisei. Soube o significado do tal frio na espinha. Ela me olhou e nem sei se olhei para ela ou se estava apenas hipnotizado. Coisa de um segundo ou de uma eternidade, não lembro direito. Então ela sorriu e de seus lábios carnudos e vermelhos surgiu aquela alvura de lua cheia. Coisa indescritível. E eu me encantei com o sorriso, como se estivesse diante de uma vampira. Mas ela não era isso, pois não tinha caninos e muito menos cravou minha jugular com qualquer coisa pontiaguda. Sei que ela cheirava bem, assim como uma primavera fresca, nova, florescente e suave se insinuando. Nada que lembrasse a morte, como eles diziam. E a cor de suas vestes então... Ah, aquela cor... Era apenas um resplendor indescritível.

E foi desde então que, passado o vislumbre, cada um seguiu seu caminho. Ela foi deixando pegadas cintilantes, que nem sei descrever. Eu fui para o lado oposto, sem olhar para trás, com medo de me tornar uma estátua de sal. E nunca mais esqueci aquele perfume nem a visão da roupa que ela não vestia. Certamente era uma visão que o pessoal da rua nunca tivera. E que nem sequer imaginava. Que dirá então aquele inesquecível aroma que exalava de sua passagem. E até hoje ela ficou marcada no meu pensamento, num dia qualquer do tempo da minha vida, que naquele instante ela teve o dom de paralisar. O resto ela comeu. Minha lembrança reteve aquele perfume e o resplendor de sua passagem. Talvez ela realmente fosse uma bruxa. 

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Publicado no livro "Universo Literário" 
Rumo Editorial - SP - 2018

1.10.18

SOBRAMES: Um breve relato



O Brasil tem um território de 8.516.000 km2.  Aproximadamente 250 milhões de pessoas no mundo falam o idioma português, sendo que só o Brasil responde por cerca de 80% desse total. A população brasileira é de 213.843.978, segundo dados colhidos na internet em agosto de 2018. Desse total, 443.515 são médicos. 

Como se sabe, muitos médicos brasileiros são ou foram também renomados escritores. Dentre eles destacamos: Pedro Nava, Afrânio Peixoto, Moacir Scliar, Guimarães Rosa, Drauzio Varella, Augusto Cury, Joaquim Manoel de Macedo, Ivo Pitanguy, Laurindo Rabelo e muitos outros.

Entusiasmado com um convite da UMEM – União Mundial de Escritores Médicos, o médico paranaense Eurico Branco Ribeiro foi o responsável pela criação da SBEM – Sociedade Brasileira de Escritores Médicos em 25 de abril de 1.965. A partir de novembro de 1.981 a denominação foi alterada para SOBRAMES – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. 

Desde sua criação até os dias atuais a Sobrames já teve os seguintes presidentes Nacionais: Gláucio Bandeira (PR) de 23.04.1965 a 20.05.1966; Paulo Mangabeira Albernaz (SP) de 20.05.1966 a 18.02.1968; Carlos da Silva Lacaz (SP) de 18.02.1968 a 20.02.1970; Octacílio de Carvalho Lopes (SP) de 20.02.1970 a 24.02.1972; Inaldo de Lyra Neves Manta (PE-RJ) de 24.02.1972 a 22.02.1974; Antonio Carlos Pacheco e Silva (SP) de 22.02.1974 a 20.02.1976; Luiz Ferreira dos Santos (PE) de 27.02.1976 a 18.02.1978; Duilio Crispim Farina (SP) de 18.02.1978 a 01.03.1979; Olivar Dias da Silva (MG) de 01.04.1979 a 29.03.1980; Mateus de Vasconcelos (RJ) de 29.03.1980 a 04.04.1982; Odívio Borba Duarte (PE) de 04.04.1982 a 17.05.1984; Ruy Miranda (PR) de 17.05.1984 a 24.04.1986; Tito de Abreu Fialho (RJ) de 24.04.1986 a 19.05.1988; Milton Henio Netto de Gouveia (AL) de 19.05.1988 a 26.08.1990; Urcício Santiago BA) de 26.08.1990 a 28.02.1992; Waldênio Florênicio Porto ((PE) de 28.02.1992 a 30.05.1994; Flerts Nebó (SP) de 20.05.1994 a 31.08.1996; Pedro Henrique Saraiva Leão (CE) de 31.08.1996 a 25.09.1998; Helio Begliomini (SP) de 25.09.1998 a 28.05.2000; Luiz Alberto Fernandes Soares (RS) de 28.05.2000 a 18.11.2002; Renato Passos (MG) de 19.11.2002 a 2004; Luiz Alberto Fernandes Soares (RS) de 2004 a 2006; Luiz Alberto Fernandes Soares (RS) de 2006 a 31.12.2008; José Maria Chaves (CE) de 01.01.2009 a 31.12.2010; Marco Aurélio Baggio (MG) de 01.01.2011 a 31.12.2012: Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki (PR) de 01.01.2013 a 31.12.2014; Luiz de Gonzaga Braga Barreto (PE) de 01.01.2015 a 31.12.2016; e Josyanne Rita de Arruda Franco (SP) de 01.01.2017 a 31.12.2018, sendo ela a primeira mulher a exercer a presidência Nacional da SOBRAMES em seus 53 anos de história. 

A diversidade de talentos da SOBRAMES está em consonância com o regionalismo de suas unidades federadas. A entidade conta com representantes em quase todas as unidades da federação, com 213 médicos escritores de literatura não científica. A produção literária é fortemente influenciada pelas raízes e origens dos médicos escritores e dos muitos talentos na música e nas artes plásticas.

Na gestão 2017-2018 a SOBRAMES, cuja diretoria completa foi eleita no XXVI Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores realizado em São Paulo de 22 a 24 de setembro e que encontra-se nas páginas seguintes, teve a seguinte composição principal: Presidente NACIONAL: Dra. Josyanne Rita de Arruda Franco, de Jundiaí (SP); Vice-presidente Região NORTE (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins): Dra. Ana Higina Agra, de Macapá (AP); Vice-presidente Região NORDESTE (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande no Norte e Sergipe): Dr. Lúcio Antônio Prado Dias, de Aracajú (SE); Vice Presidente Região CENTRO-OESTE (Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul): Dr. Waldemar Naves do Amaral, de Goiânia (GO); Vice Presidente Região SUDESTE (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo): Dra. Rosiclélia Matuk, do Rio de Janeiro (RJ); e Vice-presidente Região SUL (Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina): Dr. José Warmuth Teixeira, de Tubarão (SC). 

A SOBRAMES atual tem como principais atividades: a) realização de Congressos Nacionais, já tendo sido promovidos 26 até esta data, sendo São Luis (MA) a sede do 27º Congresso; b) Promoção de EVENTOS ESTADUAIS, como Jornadas Literárias, saraus e reuniões literárias mensais; c) Produção e edição de LIVROS, tais como Antologias e Coletâneas, além de livros individuais de muitos associados; d) produção de periódicos e boletins noticiosos, dos quais destacamos: Revista CENTELHA produzida pela direção nacional na gestão 2017-2018, jornal O BANDEIRANTE (regional São Paulo), boletim GRALHA AZUL (regional Paraná), boletim PR(ESCREVER) da regional SERGIPE e boletim CASACA DE COURO (regional Pernambuco).

Algumas regionais também mantêm publicações regulares em sites e blogs na internet, com destaques para São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais. Na gestão 2017-2018 a Presidência Nacional também criou um BLOG no qual publicou dezenas de autores de todo o Brasil, além de noticiário. 
Este é o mundo cultural da SOBRAMES: um Universo chamado Brasil. Este breve relato foi também o roteiro do filme produzido pela RUMO EDITORIAL, com argumento de Josyanne Rita de Arruda Franco, roteiro e direção de Marcos Gimenes Salun. O filme foi realizado especialmente para apresentação no XI Congresso da UMEAL – União de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos realizado em MACAU, de 1 a 4 de novembro de 2017, onde Josyanne representou a SOBRAMES, tendo na ocasião, sido eleita presidente da UMEAL para o biênio 2018-2019.

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Publicado no livro "Universo Literário" - Rumo Editorial - SP - 2018

1.9.18

Recado




Haviam se casado há pouquíssimo tempo e combinaram que ambos continuariam trabalhando fora. Para cuidar da casa arranjariam empregada a quem pudessem confiar a chave durante o dia, coisa que acharam que seria muito difícil de encontrar. Mas não foi, pois a mãe dela sugeriu que, se era assim, que ficassem com Mariazinha, menina de seus dezessete anos que a família toda já conhecia muito bem, pois trabalhava na casa desde que tinha catorze. Conversaram com a menina e ela topou trocar de casa, indo prestar serviço na do jovem casal, com a condição de sair às cinco todo dia para não perder a hora da escola. E assim ficou tudo resolvido, menos para a mãe da moça que precisou arranjar outra empregada para substituir a que cedia para a filha e genro, mas isso também não foi muito difícil.
            
O único problema era que Mariazinha também não poderia chegar tão cedo à casa dos novos patrões para receber as ordens do dia, pois eles saíam para o trabalho antes das seis, ainda escuro. Isso também foi resolvido num instante, pois a jovem esposa era antes de tudo organizada e criativa. Comprou um caderno e instruiu Mariazinha, dizendo que deixaria anotados a data e as tarefas a realizar, e assim não haveria qualquer dificuldade para saber o que fazer. Já Mariazinha teria que fazer o mesmo no fim do dia, anotando se tudo correra bem e deixando o recado que entendesse necessário para o dia seguinte. Depois trancava a casa direitinho e colocava a chave no vaso de antúrios, prestando atenção para certificar-se que ninguém estava vendo onde era colocada a chave. E a coisa funcionou como uma luva, pois Mariazinha fazia tudo que a patroa mandava, ao pé da letra e com muita perfeição. 
            
Venceu o primeiro mês e o casal estava satisfeitíssimo com a arrumação da casa e com a eficiência de Mariazinha. Até o salário foi colocado no caderno de recados, dentro de um envelope, com um muito obrigado pelos bons serviços. E assim foi no mês seguinte, e no outro e no outro, tudo funcionando às mil maravilhas. E o casal volta e meia conversava sobre a sorte que tiveram na contratação de uma empregada que nunca viam e nem precisava, pois trabalhava direitinho e nunca mexeu em absolutamente nada que não fosse seu trabalho. Apesar de, nos últimos tempos, notarem que a menina andava comendo um pouco mais que o costumeiro. Mas tão jovem e tão trabalhadora, precisava mesmo se alimentar direito.
            
E assim foi, tudo muito certo, durante seis meses, sem que nada estragasse tão harmoniosa combinação entre patrões e empregada, que além dos bilhetes no caderno, só precisaram trocar um ou dois telefonemas durante esse tempo todo. Tão feliz estava o casal, que chegaram a combinar de fazer um agrado para a menina, deixando um recadinho especial na quinta-feira seguinte, convidando-a para um almoço no domingo. Mas não houve tempo, pois na quarta a situação mudou depois do último bilhete que Mariazinha deixou no caderno: "Patroa, hoje fiz tudo direitinho e até já adiantei um pouco, passando a roupa. Isso eu só faria amanhã, mas é que amanhã eu não posso vir trabalhar. É que aconteceu um imprevisto e amanhã eu vou ter que ir para o hospital para ganhar o meu nenê."       

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Publicado na coletânea "A Pizza Literária - sexta fornada"
Legnar Informática e Editora - SP - 2000
ISBN - 85-86556-32-7
Publicado no livro "Pipas no Caminho - e outros escritos guardados no tempo"
Rumo Editorial - SP - 2018
ISBN - 978-85-60380-58-9

*De um argumento de Silvia Regina Boaro Barletta, a quem agradeço e dedico esta história. Conto-a aqui a meu modo.

11.8.18

Mal-assombrado


Combinaram de dar um baita susto no Dema, que depois que escurecia, morria de medo até da própria sombra. Todo mundo no escritório já sabia que ele enrolava durante o dia todo, sempre deixando sobrar serviço que justificasse aquela esticadinha do serão. Mais pra engordar o salário que pra outra coisa. Mas só ficava enquanto via luz acesa e mais algum retardatário em salas vizinhas. Sozinho, de jeito nenhum. Caçoavam dele, dizendo que aquele andar do prédio era mal-assombrado. Dema, cagão como era, não queria nem saber de comprovar essa história e procurava ser sempre o penúltimo a ir embora. E como neste mundo tem alma penada disposta a todo tipo de safadeza e maldade, três colegas armaram a coisa toda. Resolveram que seria naquela mesma noite, pois certamente Dema estaria na sua embromação rotineira. A tática era simular um apagão, desligando a chave geral de repente, e depois arrastar cadeiras, derrubar cestos de lixo, emitir gemidos e uivos de fantasmas. Coisas desse tipo.

Pois foi dito e feito. Ali pelas nove e poucos, os três que haviam se mancomunado para aquela velhacaria puseram o plano pra funcionar. Do outro extremo do imenso salão, escondidos, imaginavam Dema apavorado. Judiação. E realmente foi um deus nos acuda. Ouviu-se o estardalhaço da divisória de vidro se espatifando. Dali a pouco mais vidro quebrado. Um verdadeiro inferno, que durou pouco mais de dois minutos, até que, pensando ter provocado acidente sério, com toda aquela barulheira, um deles acendeu a luz novamente. Que o quê! Nem Dema, nem ninguém. Só caco de vidro pra todo lado, e os três comparsas, eles sim, com cara de quem viu alma do outro mundo. Deixaram tudo como estava e saíram de fininho. O gerente foi o primeiro a chegar no dia seguinte e se deparar com aquele palco de guerra. E evidentemente, queria saber o motivo de toda aquele forrobodó. Ninguém disse nada, muito menos os três, quando se lembraram que Dema estava de férias, desde a última segunda-feira.

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Publicado nos livros:
"A Pizza Literária - sexta fornada" - Legnar Editora - SP - 2000
"Pipas no caminho - e outros escritos guardados no tempo" - Rumo Editorial - SP - 2018 

4.8.18

Aparências















Ainda que não houvesse,
além do azul distante,
as pinceladas tímidas
de nesgas ébrias,
vagando na distância
como pontos de referência...

Ainda que as formas reticentes, 
adejando em liberdade sem rumo,
não fossem apenas etéreas manchas
hesitando no bojo da cálida brisa...

Ainda assim os olhos vasculhariam,
em devaneio, os ilimites do infinito, 
procurando feitios semelhantes, 
quase tocando as visões gaseiformes,
tomando por Juno toda nuvem que vagueia, 
como se fossem nuvens de pegar com a mão

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Publicado na Coletânea do I Concurso de Poesias - São Paulo - 2000 - Editora Aricanduva
Publicado no livro "Pipas no caminho - e outros escritos guardados no tempo" - Rumo Editorial - 2018 - São Paulo

26.5.18

Naquela hora em que não choveu



Aos poucos as pessoas foram recolhendo suas cadeiras e a areia foi se revelando, quase nua, salpicada apenas por alguns detritos, restos da manhã. Aqui e ali um guarda-sol reticente e com preguiça de fechar suas cores vivas. Nuvens escuras, que a princípio apenas esgarçavam o céu, ainda a pouco radiante de luz e azul, se avolumaram sorrateiras.  Uma névoa espessa se formou ao longe, disfarçando a paisagem distante naquela bruma que eu já conhecia. Os primeiros pingos foram mal percebidos pelos meninos indiferentes ao céu que se fechava rancoroso. Então choveu, e a tarde ainda ia pela metade nessa hora. Um aguaceiro e tanto, generoso, amainando um pouco do calor intenso e quase sufocante. Os retardatários ou incrédulos de que chovesse, correram em busca de algum abrigo. Outros, no entanto pouco se incomodaram, pois tinham urgência em aproveitar aquele dia e lugar.

Não era a primeira vez que eu via esta cena ou dela participava. Tudo isso me veio aos olhos como se pertencesse a um filme que se repetia, quadro a quadro. Recolhi-me, diante daquela falta de novidades, e da porta aberta de meu trailer fiquei vendo os pingos saltitando nas poças. Soldadinhos. Lembrei-me de uma velha tia. São soldadinhos pulando, ela dizia. Mas não atinei até hoje porque razão os pingos de chuva seriam soldados e porque cargas d’água soldados haveriam de pular daquele jeito. Aí, uma coisa foi puxando outra no pensamento, e cargas d’água parecia ter certa lógica naquele momento. Aquilo era uma carga d’água, jorrando ininterrupta, como se saísse de uma grande esponja espremida entre os dedos. E me diverti pensando que tamanho deveria ter a mão que a espremia daquela maneira, e quanta água havia na esponja, certamente sugada do mar lá fora, que nem mais se ouvia, tamanho era o barulho da chuva.

Assistir a chuva criar suas poças e enxurradas foi ficando monótono demais e acabei cochilando na cadeira de praia em que eu havia me recostado comodamente. Então o mar, erguendo-se de uma só vez num grande redemoinho, começou a subir e subir, até que todos os seus abismos e entranhas ficassem expostos como as vísceras de um animal abatido. E tamanha era a força daquele turbilhão, que as árvores foram arrancadas com todas as suas raízes e também subiram com a água daqueles oceanos que agora pairavam sobre minha cabeça. Estranhamente não havia relâmpagos ou trovões, mas somente um barulho rouco e interminável, como somente o turbilhão de todos os mares poderia ser capaz de fazer. E então toda aquela gigantesca forma plúmbea, depois de girar em grande velocidade naquela altura incomensurável que alcançara, desabou novamente, num único movimento. E cada árvore que caía ficava com suas raízes para cima, enquanto as águas dos mares que despencava arrancavam-lhes ou últimos torrões da terra que nelas ficara presa.

De repente, acordei de um pulo e demorei alguns segundos até perceber que ainda não era a hora do apocalipse. Suspirei aliviado e me acomodei melhor na cadeira quando me certifiquei que apenas a chuva se intensificara lá fora, que as árvores estavam firmes e fincadas ao solo, e especialmente que ninguém percebera minha aflição naquele momento. Já não estava tão claro e uma luminosidade artificial tremulava refletida na imensa poça que eu podia vislumbrar. A tempestade teria tornado a tarde mais escura ou já era noite? Nesse momento percebi que alguém se movimentava a poucos metros de minha porta, como se puxasse algo da imensa moita de bambu que oscilava sob a chuva abundante. Era o administrador do camping, tentando consertar um cabo elétrico. Ergui-me e ofereci ajuda. Depois fiquei sabendo que algumas barracas foram inundadas pelas águas. Numa delas havia senhoras e crianças. Procurava-se acender as luzes de um trailer desocupado, logo à frente, para acomodar os náufragos daquele dilúvio.

Com a solidariedade comum a todo campista, em poucos minutos formara-se um mutirão de socorro. Lanternas, alicates, cabos, vassouras, pás, tudo foi aparecendo como que por encanto e as luzes do trailer vazio se acenderam, sob a angustiante expectativa das encharcadas vítimas e do não menos encharcado grupo de socorro.  Minutos depois, curiosamente, a chuva cedia e apenas alguns pingos ralos estalavam nos telhados de lona. As pessoas voltaram a circular, cada vez em maior número, desviando das poças de lama e água. Animadas, falavam em voz alta. Quase todas traziam uma garrafa debaixo do braço e rumavam para o portão que levava à praia. Só então eu fui me dar conta que faltava muito pouco para o fim do último dia do ano. 

Fomos todos esperar que algo acontecesse lá fora, na praia. Era inacreditável, mas havia alguma estrela teimando em luzir em meio a nuvens esparsas que ainda tomavam conta do céu. As areias fervilharam de gente, indiferentes às estrelas ou ao que mais houvesse no céu. Mas era para o céu que olhavam e era dele que esperavam alguma coisa, os olhos faiscando. Em dado momento, cada qual em sua própria cronologia contou os segundos. Espocaram os primeiros fogos, que logo  inundaram de cores e sons toda a orla.  E cada olhar refletiu pontos luminosos, de inúmeras cores e anseios. A fumaça da festa pirotécnica começou a esconder as luzes mais distantes, vagarosamente, imitando a bruma daquela mesma tarde. Em pouco tempo voltou a chover e logo tão intensamente quanto antes. Custei a dormir na primeira noite de ano novo, toda ela debaixo de novo aguaceiro. Talvez com receio de voltar a sonhar com o fim do mundo. Afinal ele não aconteceu, exceto pelos muitos náufragos daquele camping e pelas inúmeras famílias que começaram o novo ano sem ter onde morar. Também me pareceu um filme já visto aquelas cenas de casas destruídas por enchentes e desmoronamentos que a televisão mostrava nos primeiros dias deste ano que mal começava.

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Publicado nos livros: 
Antologia Paulista - vol.2 - Legnar Editora - SP - 2000
Pipas no Caminho - e outros escritos guardados no tempo - Rumo Editorial - SP - 2018

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